quinta-feira, 10 de maio de 2018

Jovens em transe

A situação não é nova, mas é crescentemente preocupante. Falamos dos jovens que chegam à idade adulta sem um projeto de vida definido, não conseguem encontrar uma atividade profissional condizente com as suas habilitações e expectativas, mas não abdicam de um estilo de vida acima das suas possibilidades próprias e só mantido à custa do apoio dos pais, avós e outros familiares. Uma percentagem significativa destes jovens são oriundos de famílias da classe média ou alta, com rendimentos mensais apreciáveis e que sempre lhes puderam propiciar condições de vida confortáveis. Chegados ao fim dos estudos superiores, confrontam-se com dificuldades várias no acesso aos empregos a que se julgam com direito, dão conta de que o mundo mediático que todos os dias reporta casos de sucesso de jovens talentosos que fazem fortuna de um dia para o outro lhes passa uma imagem desfocada da realidade que conhecem e acomodam-se ao conforto parental enquanto vão esperando que o acaso lhes resolva o problema. Duas situações agravam este cenário, por um lado percebem que não vão conseguir facilmente chegar ao nível remuneratório e social dos pais, por outro, habituados a facilidades, julgam ser dever dos progenitores continuar a sustentá-los incluindo os seus prazeres e vícios. Incapazes de se lançarem ao mundo, vão engrossando o mercado da formação que, nalguns casos, apenas prolonga a ilusão ou deixam-se ficar numa inação doentia, enquanto as famílias, preocupadas mas incapazes de definirem linhas vermelhas, não lhes apontam caminhos realistas, ainda que desconfortáveis. Haverá situações muitos piores, mas este grupo muito específico de jovens precisa de atenção crescente, sobretudo que as suas famílias não lhes alimentem o sentimento de perda e frustração e os empurrem para a vida, em vez de os tratar como coitadinhos vítimas dos tempos. (18/05/10 Região de Leiria)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Quotas de género na política

Como sempre vivi em ambientes profissionais dominados numericamente por mulheres e fui educado e me tenho comportado como um igual às cidadãs, tenho sempre alguma dificuldade em avaliar de forma fria este tipo de discussões sobre as quotas de género. É certo que a legislação ajuda a mudar as sociedades e que a engenharia social pode ser muito importante, mas fica-me sempre a dúvida se não estamos a incorrer no mesmo erro dos escuteiros que queriam ajudar a velhinha a atravessar a rua, para fazerem a sua boa ação do dia, com a simples nota negativa de que a senhora não queria. Ora, se as mulheres são maioritárias em inúmeras atividades e lideram hoje em muitas áreas, a sua sub representação na política é apenas resultado do "machismo" ainda vigente? Não acredito, a política é uma atividade que não interessa a muita gente, aliás, interessa a cada vez menos pessoas, e talvez muitas mulheres prefiram fazer coisas mais úteis. Se vingar uma conceção fundamentalista das quotas, seremos forçados a aceitar quotas de género, de cor, de orientação religiosa, de orientação sexual, de estatuto económico e por aí fora, até termos feito da democracia um carrocel de quotizados.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

O paradoxo escolar

Pode uma organização que quer educar para o futuro, usar metodologias e profissionais do passado? Não pode. A organização e os métodos da escola atual são do passado e a esmagadora maioria dos professores são migrantes digitais e muitos continuam a ser iletrados digitais. Muitas escolas funcionam em total ignorância do que são as regras básicas de comunicação de uma sociedade digital e basta enviar um e-mail a um diretor ou a professor de boa parte das escolas para perceber a distância que separa a comunicação instantânea que a sociedade promove, e sem a qual já não se pode viver, do tempo que alguns julgam ser o do espaço pedagógico onde se arrastam. Ainda não há muito tempo, numa ação de avaliação de uma escola, um professor me afirmou que não autorizava que os pais dos alunos, que lhe pagam o salário, tivessem acesso aos seus contactos e se lhe pudessem dirigir diretamente. Esclarecedor. Recentemente, um estudo promovido pela União Europeia comprovou prospectivamente que a maioria (63%) das crianças que hoje frequentam os jardins-de-infância vão exercer profissões que ainda não existem. E o que estamos a fazer para as educar para o mundo que as espera? O mesmo que fazíamos há muitos anos atrás, quando não havia computadores, telemóveis, WhatApp, Facebook, Instagram e toda a miríade de soluções tecnológicas que mudaram o mundo, nos mudam a nós e estão a mudar as crianças que hoje entram nas escolas e reclamam outra escola, outras metodologias, outros currículos e professores preparados para lidar com tudo isso. Para a geração dos nativos digitais, multitask e que consultam o telemóvel de 10 em 10 segundos é credível escolarizá-los num modelo que tem dois séculos? Impossível, e é aqui que nasce o equívoco da escola que temos e o paradoxo de querermos construir o futuro com uma escola do passado. Morte à escola, viva a escola.(18-04-14/Região de Leiria)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Longevidade e cuidadores

Já todos sabemos que estamos a envelhecer e quando vivemos de perto a situação dos nossos familiares e mais próximos percebemos como não é fácil garantir a todos um fim com a dignidade, a privacidade e o conforto a que devíamos ter direito. Como muitas outras coisas, conhecemos o problema, sabemos que o futuro nos levanta muitas interrogações, sobretudo se não anteciparmos as soluções, mas vamos adiando como se esperássemos que algum facto inesperado mude a realidade. No entanto, os números não mentem. Em 2017, haveria no mundo 962 milhões de pessoas com 60 e mais anos; em 2050 estima-se que existam 2,1 biliões. Em 2017, 137 milhões com 80 e mais anos; em 2050, 425 milhões. Em Portugal, em 1971, 28% da população tinha entre 0 e 4 anos, 62% entre 15 e 64, e 10% 65 ou mais anos. Em 2016, para os mesmos intervalos, 14%, 65% e 21. Os primeiros ficaram reduzidos a metade, os últimos mais do que duplicaram. Se hoje em dias se estima que existam 800 mil cuidadores informais não remunerados, e ninguém sabe quantos existem no total, incluindo os profissionais, imagine-se como vai ser o futuro. Por isso são de saudar todas as iniciativas que contribuam para se encontrarem soluções, sendo que o Estado tem um papel importante, mas jamais se poderá pensar em deixar apenas à sua responsabilidade a solução de uma questão que a todos nos implica e que, gerando problemas, também cria oportunidades. A discussão do Estatuto dos Cuidadores é oportuna e necessária, mas está muito longe de esgotar o tema. Não são só os cuidadores familiares, designação que prefiro a informais, que precisam de atenção, e os “profissionais informais” que também não têm estatuto, carreira ou formação reconhecida e cujo nível remuneratório é ditado exclusivamente pela oferta e procura? Temos de olhar para a floresta, não apenas para a árvore. (18-03-25/Região de Leiria)

5 estrelas

O Movimento 5 Estrelas, fundado por um comediante, que começou por ser encarado como uma anedota política e se assume como antissistema, foi o partido mais votado nas eleições legislativas italianas. Seguiram-se os partidos anti imigração, xenófobos e de direita, mais ou menos radicais. O socialista Mateus Renzi, ex primeiro ministro, teve um resultado dececionante. Moral da história, a Itália está outra vez num impasse político e as forças anti Comunidade Europeia e eurocéticas ganharam em toda a linha, razão para ficarmos ainda mais atentos e preocupados com o futuro do projeto de uma Europa unida e coesa em torno de uma economia poderosa e de valores democráticos, igualitários e solidários. As forças centrífugas são cada vez mais poderosas e o quadro de valores fundacionais que serviu de cimento agregador no pós guerra estão claramente em xeque, com o desaparecimento dos partidos tradicionais, o recrudescimento de tendências populistas, xenófobas e autoritárias e a multiplicação de impasses políticos que comprometem a eficácia governativa e lançam o descrédito entre os cidadãos. O Brexit, o interregno na Alemanha, a tentativa independentista na Catalunha, o autoritarismo húngaro, a negação polaca sobre o holocausto, as divergências sobre a melhor resposta ao êxodo dos refugiados, a eclosão de novos partidos fora do sistema tradicional, a pulverização dos votos, são tudo sinais a aconselharem uma reflexão ponderada, sem alarmismos, mas realista, sobre um mundo em mudança profunda e que não voltará a ser o que era. Tal como as placas tectónicas, as sociedades movem-se e os ajustamentos são inevitáveis. Contrariar o curso da História é inglório, compreender a mudança é obrigatório, agir para construir o futuro é indispensável. É isto que temos de perceber para assegurar a coesão social e a consolidação do projeto europeu. (18-03-06/Região de Leiria)

O futuro do Ensino Superior

O Governo tornou público um relatório da OCDE sobre a situação e o futuro do Ensino Superior Português. A maior lacuna deste relatório é debruçar-se apenas sobre o ensino superior tutelado pelo Estado, não havendo praticamente uma linha sobre o ensino superior privado, que representa quase 20% do total, e que é ignorado com um parceiro importante e como um ator fundamental do processo de reforma indispensável. O relatório, ainda em fase de recolha de contributos, não diz nada que não se saiba, mas sublinha as nossas fragilidades e aponta alguns caminhos a seguir que não se deviam perder de vista para benefício do sistema e, sobretudo, do país. De forma telegráfica, sublinhamos o essencial. É fundamental aumentar o fluxo de estudantes do secundário para o superior, com particular destaque para os oriundos dos cursos profissionais, o que exige uma mudança de paradigma no sistema de acesso. As universidades e os politécnicos continuam demasiado dependentes do respetivo ministério e os seus figurinos de gestão estão ultrapassados, a lógica da gestão empresarial devia substituir a lógica burocrática de um serviço público e o financiamento devia ser cada vez mais autónomo e diversificado, por outro lado a interação com as empresas continua muito aquém do desejável. Os corpos docentes estão envelhecidos e são demasiado fechados, não há abertura a contratação de docentes estrangeiros e as promoções são endógenas, o que dificulta a renovação e a abertura à inovação. As instituições, sobretudo as do interior, não são vistas pela comunidade como pólos essenciais de desenvolvimento regional, pelo potencial formativo, de investigação e de partilha de conhecimento e pivots da criação de riqueza e da fixação de pessoas. O diagnóstico, mais um, está feito. Falta a ação, que depende das forças políticas mas também de cada um de nós. (18-02-10/Região de Leiria)

Super hipocrisia

Em 2017 houve mais 24 mil mortes do que nascimentos; é a peste branca a dizimar-nos, mas quem se preocupa com isso? Importante é a Super Nanny, o programa diabolizado por quase todos e que nos atira à cara o que fingimos não ver, a educação das crianças e dos adolescentes transformou-se num enorme problema e parece que a resposta, politicamente correta, é negar a realidade. Se mudarmos família por escola, a questão é a mesma e os próceres das ideias certas insistirão que não se passa nada, a culpa é dos professores, como nas famílias é dos pais. A favor dos direitos das crianças e dos jovens, tudo, que deveres é coisa menor, e o que aponte os queridos pestinhas como necessitando de reprimenda corretiva mais severa, atenta contra os seus sacros direitos. Não discuto estes, nem legitimidades, apenas me interessa partilhar o que vi, vimos todos, crianças insuportáveis, famílias descompensadas, quotidianos familiares inimagináveis, ausência de regras, de rotinas, de capacidade de se separarem águas entre quem educa e quem devia ser educado. Quem não se reviu por momentos em um qualquer dos takes exibidos, quem nunca experimentou o desespero de lidar com situações que roçam o descontrolo, quando as crianças ou os adolescentes entram numa espiral de confronto em que os pais passaram a ser o elo mais fraco? O programa choca as nossas consciências formatadas nos direitos das crianças, mas alerta para um problema gravíssimo que não se resolve ignorando-o e, como é sabido, o primeiro degrau para resolver um problema é admitir que ele existe.(18-01-22/Região de Leiria)

Os invisíveis

Alguém sabe quantos portugueses vivem sós, mesmo que acompanhados? Explico, para além de idosos que vivem sozinhos, há idosos que vivem em casal, mas um dos membros está afetado por uma grave doença e comunica deficientemente ou não comunica mesmo. Nos lares têm cuidadores que lhes tratam, melhor ou pior, das dores do corpo, mas as do espírito, quem os ajuda a suportar a caminhada que não devia ser apenas um fim de linha? A solidão acompanhada não deixa de o ser, apenas parece ser o que não é. Este problema é gravíssimo e tem tendência a agravar-se, mas as medidas para o combater são insuficientes ou inexistentes. São cidadãos que, na generalidade, tiveram uma vida profissional mais ou menos bem sucedida, constituíram família, têm filhos, netos, mas a idade avançada condenou-os ao isolamento, à solidão, ao silêncio. Neste tempo de festas, o problema ganha novos contornos quando os idosos são “despejados” nos hospitais para que a restante família possa passar uns dias sem o peso de os cuidar. É imoral? É, mas a dura realidade não nos deve levar à condenação, antes à compreensão e à mobilização da consciência coletiva para que, ao menos no futuro, possamos fazer diferente. Estes portugueses são “invisíveis”, vivem nas suas casas ou em lares, não aparecem nas estatísticas, não têm sindicato, não fazem greves nem manifestações, não são mediáticos, não “existem” para quem não os procura, não os visita, não os quer ver. E não é bonito o que se vê quando se espreita para lá da cortina que os esconde. São assim as nossas sociedades “desenvolvidas”, marginalizam os mais velhos, internam-nos em lugares despersonalizados, condenam-nos ao silêncio, guardam-nos como sapatos velhos num armário bafiento. É este o futuro que desejamos? Certamente que não; então é tempo de mudar de paradigma e reincluir os idosos na sociedade que os segregou. (10-01-01/Região de Leiria)

Viagens de pesadelo

O tema viagens tem assombrado alguns deputados das regiões autónomas. Um demitiu-se por "prática incorreta", outra vai repor verbas recebidas "indevidamente", o líder parlamentar do PS afirmou que agiu de forma "eticamente irrepreensível" e o Presidente da AR veio declarar que sempre assim se fez e que alimentar estas suspeitas "apouca a democracia". Entretanto, o Secretário Geral da AR pediu um parecer, o que costuma ocorrer quando há dúvidas sobre a legalidade de qualquer ato. Não tenho dados para tomar uma posição, mas estes acontecimentos são cíclicos e são a prova de que não há transparência nem princípios robustos sobre as práticas que sustentam a atividade parlamentar. Não sei como isto vai acabar, mas tenho a certeza de que é apenas mais uma pequena acha para o fogo lento em que se consome a credibilidade das instituições e dos políticos que as integram.

sábado, 14 de abril de 2018

Síria(al) killers

Uma coligação dos USA, Inglaterrra e França atacou a Síria com o pretexto de que Assad teria usado armas químicas contra os ocupantes de Douma. A guerra química é hedionda, mas é menos do que cortar cabeças indiscriminadamente, escravizar homens, mulheres e crianças, usar escudos humanos, derrubar as Torres Gêmeas, atropelar gente indefesa em Londres, Nice, Paris ou Berlin? O conflito da Síria foi iniciado como o do Iraque e de outros países do Médio Oriente pelas potências ocidentais que se julgam polícias do bons regimes e que querem impor o seu modelo de sociedade a todo o planeta. É aos mesmos que agora bombardeiam a Síria, mais aos seus aliados de ocasião, que devemos o Daesh e outros grupos terroristas que há anos dilaceram o Médio Oriente. Foi a tentativa de acabar com Assad que se armaram e financiaram os grupos que ainda hoje resistem em Douma e noutros enclaves e o único resultado à vista foi um país destruído, milhares de mortos, centenas de milhares de estropiados, e um número imenso de refugiados que fizeram da Europa o seu Eldorado e criaram um enorme problema social e, no futuro, político que ninguém sabe como resolver. São estes os créditos dos que agora provocam o equilíbrio débil que se começa a gerar na Síria, com a Rússia e o Irão, a ocuparem o espaço que os ocidentais por incúria e pesporrência deixaram ao abandono. Trump precisa do belicismo para disfarçar a incapacidade para governar, Teresa May para desviar as atenções do Bréxit, Macron, o aprendiz de feiticeiro, sente-se ungido pelo espírito de Napoleão e julga-se salvador do Mundo. Não passam de uma troupe de malabaristas a brincar com o fogo, perante a inação das Nações Unidas e dos governos europeus, acólitos impreparados de uma estratégica bélica insensata.

Regresso à escrita

Durante anos deixei de escrever no blogue. Agora regresso. Este é um espaço de liberdade que não deve ser confundido com as minhas responsabilidades profissionais ou outras. Como cidadão tenho o direito de escrever sobre o que entender que merece a minha atenção e que sinto o desejo ou o dever de partilhar com outros. Como em muitas outras atividades, podemos ter ideias muito próprias e ter de agir segundo outras, de acordo com os diversos compromissos que temos. Um blogue é um espaço onde podemos ser nós próprios, assumindo para o bem e para o mal a responsabilidade do que escrevemos. É assim que entendo a minha liberdade cívica.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Com António Costa e o Partido Socialista por Portugal!

Há momentos na vida de todos nós em que, por maior que se anteveja o combate, não se pode virar a cara à luta, em que o silêncio é iníquo e a afirmação de alternativas a única imposição de consciência que os homens e mulheres livres podem aceitar.

Os militantes socialistas e todos os que se reveem na história e no ideário do Partido Socialista não podem continuar a assistir passivamente à degradação da vida política nacional e ao desânimo de muitos cidadãos que não veem alternativa no quadro atual dos partidos com vocação governativa e começam a alimentar soluções populistas e radicais.

As eleições europeias são a prova evidente de que a maior parte dos portugueses não se sentiram mobilizados para exercerem o seu direito de voto e não é abusivo concluir que as propostas políticas apresentadas pelas várias formações partidárias não foram suficientemente apelativas para gerar maior participação e empenho nas eleições, o que só pode traduzir desinteresse, descrédito, desconfiança e falta de perspetivas quanto ao futuro.

O Partido Socialista ganhou as eleições mas não ganhou o País e a atual liderança não compreendeu que era chegada a hora de fazer um balanço realista da situação interna e externa e tirar as conclusões que se impõem, o PS pode parecer ganhador, mas não mobilizou suficientemente a sociedade portuguesa contra as soluções de governo que desde há anos esmagam os portugueses mais débeis economicamente, destroem a classe média, aumentam o desemprego, não estimulam a economia e afetam gravemente a autoestima do País.

Por tudo isto os signatários saúdam a iniciativa patriótica de António Costa, militante destacado e político de créditos firmados com longo e brilhante currículo ao serviço da Nação, ao apresentar-se ao país com espírito de serviço e disposto a assumir as suas responsabilidades liderando um movimento de renovação política que devolva ao partido e, sobretudo, aos portugueses e portuguesas a confiança perdida e se constitua como uma alternativa mobilizadora, forte e credível, com condições de sucesso nas próximas eleições legislativas.

A gravidade da situação portuguesa exige alternativas políticas robustas e não apenas a ambição de ganhar eleições a qualquer preço e o Partido Socialista tem o dever patriótico de se abrir ao País e à discussão dos problemas nacionais sem se encerrar em trincheiras formalistas, antes ouvindo a voz de todos os militantes e dos cidadãos em geral e lendo com sabedoria os sinais dos tempos, razão pela qual os signatários apelam ao Secretário-geral e à Comissão Política Nacional para que seja convocado um Congresso Extraordinário onde a voz dos militantes e do País se faça ouvir e as várias propostas políticas para o futuro discutidas.

sábado, 26 de abril de 2014

Discurso comemorativo do 40.º aniversário da revolução de 25 de Abril

Exm.º Sr. Presidente da Câmara Municipal de Leiria

Sras e srs deputados e deputadas municipais

Sras e srs vereadores

Sras e Srs Presidentes de Juntas e de Uniões de Freguesias

Autoridades e representantes de instituições, serviços e empresas

Minhas senhoras e meus senhores

Um cumprimento muito especial para os jovens

 

Estamos aqui reunidos para comemorar a passagem do quadragésimo aniversário do levantamento militar ocorrido a 25 de abril de 1974, organizado e protagonizado maioritariamente por oficiais subalternos das Forças Armadas Portuguesas, os chamados capitães de abril, em rutura com o regime autoritário e antidemocrático que amordaçava o país e em desacordo com a continuação da guerra colonial em África, tecnicamente há muito perdida para além de ilegítima à luz dos princípios internacionais aceites na altura, movimento armado que de imediato foi secundado por uma adesão massiva da população portuguesa e que logo ficou conhecido pela Revolução dos Cravos.

Independentemente da ação meritória dos militares, é da mais elementar justiça evocar a memória dos resistentes que durante décadas não se vergaram ao poder discricionário dos que lhe tolhiam a liberdade, não se deixaram abater pela violência das milícias do Estado Novo, não recuaram perante a tortura da polícia política, não deixaram de sacrificar bens, família, conforto, empregos, enfim, tudo que cada um tem o direito de poder fruir em paz e harmonia, para que a chama da liberdade se mantivesse acesa, para que a mensagem da esperança continuasse a afagar os espíritos dos que acreditavam na restauração da democracia, para que no dia em que o rastilho da liberdade se incendiasse o fogo sagrado do resgate da pátria chegasse rapidamente a todo o país, como aconteceu há precisamente quatro décadas.

Por isso se falou tanto e acertadamente na Aliança POVO-MFA (Movimento das Forças Armadas) e se recordo a designação completa é porque, infelizmente, não temos cuidado o suficiente de alimentar a nossa memória histórica e muitos dos mais novos quase nada sabem dessa gesta heroica de há quarenta anos que lhes preparou o caminho para que hoje possam viver num país profundamente mudado e que, apesar dos problemas que persistem e dos que resultam da evolução natural dos tempos, nada tem a ver com o país fechado sobre si próprio, mergulhado numa guerra sem sentido, onde a liberdade era coartada, o pensamento agrilhoado e as diferenças sociais abissais, que nós tão bem conhecemos e que os documentos da época comprovam à saciedade.

Nestes momentos comemorativos há uma certa tendência para evocar as esperanças sem limite que as portas escancaradas da liberdade permitiam e olhar nostalgicamente para a realidade concluindo que afinal pouco mudou e, aqui e ali, é mesmo possível escutar algumas vozes reclamando um novo 25 de abril, como se o país tivesse parado quarenta anos e fosse possível fazer retroceder o relógio do tempo para começar de novo.

Independentemente das posições políticas de cada um e das suas convicções mais profundas, é absolutamente indesmentível que a Revolução dos Cravos abateu os muros que cerravam Portugal e deu início a um conjunto importantíssimo de mudanças políticas, sociais e culturais que em tropel provocaram um verdadeiro terramoto no equilíbrio débil de uma sociedade anquilosada, rapidamente obrigada a reinventar-se à medida que o novo Portugal se ia robustecendo.

O atraso em que vegetava a vida social em Portugal, completamente fora do tempo da época, é bem ilustrado pelo desconforto sentido até pelos portugueses espalhados pelos quatro cantos das colónias quando regressavam de visita à “metrópole” e se confrontavam com as imagens de mulheres idosas embiocadas nos seus trajes e lenços negros, de buço farto e gengivas descarnadas, imagens que ficaram para a história como testemunho de um povo oprimido, insuportavelmente pobre e atrasado.

O Portugal de hoje é uma nação moderna, as nossas empresas ombreiam com as melhores do mundo, os nossos técnicos são excelentes, as nossas escolas e os nossos serviços de saúde são de elevadíssima qualidade, os nossos cientistas fazem ciência de topo no país e integram equipas de grandes centros de investigação de outros países, as nossas forças armadas participam em missões internacionais de igual para igual com as de outras bandeiras, as nossas polícias interiorizaram a sua missão democrática e são muito competentes tecnicamente, os nossos desportistas são conhecidos em todo o lado, os nossos produtos têm difusão planetária, o nosso país é procurado por estudantes e turistas de todo o mundo, enfim, Portugal é um país respeitado no concerto das nações e os portugueses são cidadãos do mundo de pleno direito, com capacidade de afirmação e de intervenção em igualdade de circunstâncias com os melhores.

É um orgulho imenso sermos portugueses e esta é, para mim, a maior conquista da revolução de abril, sem as portas que então se abriram nunca seríamos o que somos, como pessoas e como povo, e não adianta chorar, lamentar, protestar contra o que não aconteceu e cada um gostaria que tivesse acontecido, a evolução das sociedades é sempre complexa, não há movimentos civilizacionais de sentido único, a ideia do fim da história, isto é da possibilidade de se alcançar um momento em que se atingiu o topo, como se de uma montanha se tratasse, é um delírio intelectual, as sociedades avançam e recuam, têm os seus momentos épicos e as suas derrotas, os seus tempos de grandeza e de apagamento, mas passados quarenta anos sobre a libertação da utopia que parecia tudo permitir não é avisado olhar para trás com saudosismo, pelo contrário, é o futuro que nos interessa, renovar a utopia é o caminho para novas conquistas, acreditar que os problemas que subsistem são a razão para continuarmos a lutar, que os novos problemas são apenas o princípio de novas soluções, que o futuro se constrói a olhar para a frente e não a carpir mágoas sobre as desilusões do passado ou do presente.

É por isto que acredito que comemorar o 25 de Abril não é olhar para trás e comprazer-nos com as esperanças, as expectativas, os sonhos que nos preencheram; tal como todos os anos comemoramos os nossos aniversários com o sentido de que o tempo não para e que estar vivos significa ter novos projetos, novos desafios, novas oportunidades, comemorar uma revolução com a grandeza desta implica mobilizar as jovens gerações não apenas pela pedagogia do culto democrático, mas pela vivência cívica que resulta do seu envolvimento em atividades que façam sentido para quem nasceu noutro mundo, razão que nos obriga a reinventar quotidianamente a Revolução dos Cravos para que os jovens não nos olhem como representantes de uma espécie em extinção que se alimenta de memórias nostálgicas e de ideias que não compreendem; a revolução viveu-se na rua e é na rua que os jovens a encontram, a comemoram, a vivem, é a festa da liberdade todos os dias renovada mas de tão importante nem dão por ela, como o ar que se respira, que só quando nos falta damos por ele.

Quarenta anos volvidos sobre esse dia luminoso que nos devolveu a esperança e nos mudou a vida é necessário encarar os novos desafios que o país tem pela frente, à cabeça dos quais coloco a necessidade imperiosa de inverter a quebra da natalidade. Não se trata de alarmismo, mas de percebermos que a prazo somos um país condenado se não invertermos esta verdadeira peste. Sem gente não há futuro.

O outro grande desafio é superar um problema antigo, a nossa dependência dos credores externos. A célebre passagem dos Maias “A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...” mantém, para mal dos nossos pecados, toda a atualidade. Mas há hoje condições como nunca anteriormente para ultrapassarmos este atavismo luso. Já não somos um povo perdido nos confins da Europa, envoltos na bruma marinha à espera de um qualquer D. Sebastião, somos parte plena da grande pátria europeia, cidadãos do mundo, porta de entrada para o continente, plataforma intercontinental, sabemos como nenhuns outros relacionar-nos com todos, apenas nos falta acreditar em nós próprios, disciplinarmos as nossas competências, irmos à luta com a convicção de que o Céu é o limite para as nossas ambições.

E tudo isto só é possível porque num tempo de chumbo homens e mulheres de fibra deram o melhor de si pelos ideais de liberdade, de igualdade, de justiça social, porque não temeram a prisão, a tortura e o exilio, porque militares descontentes com o regime e com a guerra, pegaram em armas, porque os portugueses anónimos, o POVO, se levantaram, se uniram, sonharam e todos em conjunto construímos um país novo, com uma história milenar pontuada de sucessos inimagináveis e um futuro que há de ser grande como grandes são os feitos dos portugueses.

Viva a revolução dos Cravos

Viva o futuro

Viva Leiria

 

Leiria, 25 de Abril de 2014

 

José Manuel Silva

Presidente da Assembleia Municipal de Leiria

As portas do mundo que Abril abriu


Um dia acordei e as tropas estavam nas ruas. Começou aí um dos períodos mais desafiantes da minha vida e ter tido a oportunidade de viver uma revolução e de ser parte dela é uma experiência empolgante e inolvidável; muito do que sou tem a marca desse período em que me moldei para a vida nos valores da liberdade, da democracia, da justiça social, inebriado pela ideia de ajudar a mudar o mundo.

E o mundo mudou, e muito. O Portugal de hoje mantém as suas raízes centenárias mas os seus ramos cresceram em múltiplas direções, somos europeístas, que sempre fomos, naturalmente, mas buscámos sempre no Atlântico e a partir dele nos outros mares o que a Espanha nos barrava, um caminho livre para a Europa mais central. O mar foi a opção inteligente para um povo que se quis independente, sem a aventura dos descobrimentos não teria sido possível manter a independência face ao gigante Castelhano.

Entre “As portas que Abril abriu”, como diz o poeta Manuel Alegre, a Europa foi das mais inspiradoras, o Portugal contemporâneo é produto deste recentrar da história Lusa, da Europa não nos vieram só os milhões, veio-nos uma nova mentalidade, feita de abertura de espírito, de respeito pelos outros, pelos seus costumes, ideologias e línguas, os jovens portugueses são um produto e um exemplo de engenharia educativa e social ao serviço da transformação dos povos, veja-se o programa Erasmus que tem feito mais pela cidadania europeia do que qualquer empreendimento unificador resultante de sonhos imperiais.

É certo que Portugal foi sempre um desbravador de mundos, mas sem a integração atual na União Europeia nunca teríamos chegado onde estamos em termos de abertura a todas as latitudes, por uma razão simples, Portugal não tinha escala para construir as bases indispensáveis a uma alavancagem das suas potencialidades.

Apesar de terem passado apenas quarenta anos o salto dado pelos país e pelos portugueses foi marcante, o Portugal de hoje é profundamente diferente do país onde nasci, quase medieval, fechado sobre si próprio, onde as desigualdades sociais eram brutais. Hoje alguns tendem a querer diminuir o património de Abril, como se de uma revolução falhada se tratasse. Pelo contrário, foi Abril que nos abriu as portas do futuro e é por isso que os portugueses se sentem hoje verdadeiros cidadãos do mundo.

 (Publicado no Região de Leiria, Abril)

Este país não é para seniores


Portugal vai envelhecendo a passos rápidos e se lhe juntarmos a baixíssima taxa de natalidade temos o cocktail explosivo que um dia fará implodir o país já que esta peste demográfica vai corroendo o tecido social e tornando a situação insustentável a todos os níveis.

O prolongamento da esperança média de vida gera situações novas e, num prazo relativamente curto, o país passou da fase do cuidar familiar dos idosos para a da institucionalização generalizada dos seniores, designação que ajuda a disfarçar a carga negativa da palavra velho, muitas vezes equivalente a coisa pouco sexy, a cota, a algo desqualificado, ao contrário do que ocorre noutras sociedades onde os “mais velhos” gozam de um estatuto especial em reconhecimento do seu capital de conhecimentos e experiência.

Os seniores correspondem hoje a um segmento da população com necessidades muito próprias, a um alvo comercial específico, mas também a um grupo muito fragilizado socialmente, sujeito a abusos de toda a ordem e cujos elementos correm sérios riscos de atingir a linha final totalmente despersonalizados, como consequência de doenças várias ou como resultado da forma como são cuidados.

O internamento generalizado em lares, corresponde muitas vezes a uma espécie de punição injustíssima por ditar que uma pessoa seja arrancada da sua casa, separada dos seus pertences, dos seus animais de estimação, dos seus vizinhos, no fundo do que dava significado à sua vida, para ser internada num espaço que lhe é estranho, tratada por pessoas que não lhe são nada, partilhando quarto, wc e quotidiano com gente desconhecida que em comum apenas partilha o mesmo destino.

A institucionalização, que devia ser a última alternativa, tornou-se a primeira escolha, fruto das condicionantes da vida atual, do comodismo familiar, da ausência de políticas arrojadas, da falta de consciência generalizada de que os seniores não podem ser deixados simplesmente à sua sorte.

Ao contrário do que tem feito escola, é urgente inverter as políticas de apoio aos seniores, é necessário montar redes sociais eficazes que tornem sustentável mantê-los no seio das famílias, nas residência próprias, em residências assistidas, reforçar os centros de dia, as oportunidades de socialização, de estudo, de diversão e recorrer apenas ao internamento em lares como último recurso. A despersonalização é uma fronteira que não deve ser cruzada.
(Publicado no Região de Leiria, Março)