domingo, 21 de julho de 2019

De braço dado com Angola

Integrados numa missão da Associação Empresarial Portuguesa, apoiada pela AICEP, participámos na última edição da Feira Internacional de Luanda – FILDA 2019, 9 – 13 de Julho, onde apenas estiveram representados dois estabelecimentos de ensino superior privado português e nenhum estatal. Se atentarmos na estrutura social do país é fácil constatar o enorme potencial de jovens estudantes sempre em crescendo, muitos dos quais poderão vir a estar em condições de frequentarem os diferentes estabelecimentos de ensino superior português. Os números são avassaladores e um enorme quebra-cabeças para Angola, mais de 60% da população tem menos de 25 anos, a taxa de natalidade tem valores da ordem de 6,2 filhos/mulher, nas zonas urbanas, e 8,2 filhos/mulher, nas zonas rurais, este ano estima-se que a população total já ultrapasse os 30 milhões e as previsões oficiais apontam para um crescimento anual, nos próximos anos, de cerca de 1 milhão de novos angolanos. É sabido que, no futuro, o mercado do ensino superior, em Portugal, mesmo com todas as políticas de captação de novos públicos e de estímulo aos estudantes oriundos do ensino profissional para continuarem estudos, vai contrair-se e esta tendência será tanto mais acentuada quanto a baixa natalidade não for compensada com a entrada de imigrantes em idade reprodutiva ou estudantes estrangeiros. Tudo razões para se apostar em mercados emergentes, como o angolano, onde é expetável que o desenvolvimento do país faça explodir a procura de educação superior, sem que haja capacidade instalada para responder ao acréscimo desta demanda e a alternativa de estudos no exterior seja uma possibilidade a encarar por muitas famílias. Portugal pode ser a primeira escolha por várias razões, sendo a língua uma das mais importantes, mas também a qualidade das instituições, o custo de vida, o clima, o ambiente académico cada vez mais apelativo e internacional e, last but not least, o afeto que nos liga, porque muitos portugueses aqui nasceram, muitos continuam a ter por este país um apelo de feitiço e muitos angolanos têm em Portugal a sua segunda pátria. Aparentemente tudo aconselhava a que houvesse outro dinamismo na divulgação em Angola das oportunidades de estudar em Portugal, mas, infelizmente, o mercado do ensino superior está ainda muito numa fase pré-comercial, não se investe o necessário, não se trabalham devidamente os mercados, não se atua em conjunto e não se rentabiliza a marca Portugal. É verdade que se fazem algumas campanhas Study in Portugal, talvez mais de prestígio do que verdadeiramente de captação, mas não são do conhecimento público os seus resultados reais, e embora já tenhamos escolas muito bem cotadas no panorama mundial e que captam estudantes em todas as latitudes, a percentagem global de novos alunos continua a ser inferior ao desejável no panorama geral do país. Por outro lado, as campanhas levadas a cabo pelos organismos do Estado são quase sempre destinadas à divulgação apenas dos estabelecimentos sob tutela pública, ignorando-se que as escolas privadas prestam também um serviço público de educação de qualidade, servem de forma geral estudantes oriundos de famílias menos favorecidas ou estudantes trabalhadores e têm de ser encaradas como parceiros indispensáveis e não como supletivas das estatais. Mas a questão que agora nos interessa é outra; como alavancar em Angola um programa de verdadeiro intercâmbio com Portugal no domínio da captação de estudantes angolanos para estudarem em Portugal, usando os mecanismos de apoio da AICEP ou outros? Primeiro, abrindo as instituições portuguesas a programas de cooperação bilateral efetivos em que a receção de estudantes angolanos em Portugal correspondesse a contrapartidas de apoio académico a Angola. Segundo, flexibilizando a emissão de vistos ou dispensando-os para quem fosse estudar em Portugal ao abrigo deste programa. Terceiro, financiando parcialmente os programas de estudo em Portugal como se financiam programas de exportação de outros produtos, incluindo linhas de crédito bonificado, créditos a fundo perdido ou créditos bancários a pagar pós formação, modalidade incipiente em Portugal e que devia ser incentivada. Esperar que Angola se erga da situação difícil em que está para então colher os frutos maduros não é inteligente, nem justo; Angola precisa do nosso apoio agora, não para delapidarmos os seus recursos e o seu capital humano, mas para contribuirmos para o seu desenvolvimento. “De braço dado com Angola” é o mote que nos serve de inspiração e orientação, não se trata de captar estudantes angolanos numa operação meramente comercial e de interesse financeiro, importa que Portugal e as instituições de ensino superior estatais e privadas assumam um compromisso de parceria para o desenvolvimento, Angola necessita de formar os seus quadros, Portugal precisa de rentabilizar os seus estabelecimentos de ensino superior. O momento político angolano é propício ao estabelecimento de laços baseados na reciprocidade e na igualdade de tratamento, sem complexos de nenhuma espécie, a história foi o que foi, o presente está em curso e o futuro será o que nós, em conjunto, quisermos e conseguirmos construir. José Manuel Silva Presidente da Escola Superior Santa Maria Saúde Membro da direção da Associação Portuguesa do Ensino Superior Privado - APESP

quinta-feira, 13 de junho de 2019

O país mudou, pá!

Ainda a espuma das eleições europeias onde os vencedores foram os desencantados, os desinteressados, os militantes da anomia social em que o país têm vindo a mergulhar. E de quem é a culpa? De todos nós, portugueses, uns por ação outros por omissão. É certo que a classe política devia ser mais competente, menos provinciana, mais virada para os problemas europeus e menos para a mercearia interna, mas é o que temos. Para além deste problema de fundo acontece que o país mudou. Infelizmente, os partidos tradicionais, com exceção do PS, perderam-se no tempo. O PCP parece não perceber que a matriz ideológica e o quadro social que lhe deram origem desapareceram. O PSD também evita reconhecer que o cimento dos interesses que estiveram na sua fundação se exauriu à medida que os tempos suscitaram outros e os novos caudilhos regionais não têm a capacidade dos anteriores. O CDS, que foi sempre um partido envergonhado da sua origem, nunca poderá ir longe a fingir-se o que não é, oscilando entre as feiras e o glamour citadino, entre a oposição dura e a mesa da situação. O PS, muito à conta do perfume do poder, do génio estratégico de António Costa e da competência técnica de Mário Centeno, é o único que consegue juntar os cacos do regime e seguir em frente. O BE, ideologicamente totalitário, travestiu-se de fraturista, seduz o voto jovem e faz do protesto a sua canção. Os restantes são partidos reality shows, é tudo espetáculo, e muita gente gosta, aplaude e vota. A classe política em Portugal é cada vez menos qualificada, o discurso medíocre, as ideias pobres, muitos dos atores apenas servem para debitar sound bites. Não é assim que se constrói o futuro de um país. Onde está a estratégia? O discurso mobilizador? A força de vencer o futuro? Assim nunca mais iremos além da Taprobana. Mudar é preciso e rapidamente. (Publicado em Região de Leiria 19-06-13)

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Cargegivers Portugal

A Caregivers Portugal, Associação Portuguesa de Cuidadores, foi criada com o objetivo principal de representar os cuidadores e cuidadoras, de se bater pela criação de uma carreira profissional que reconheça a especificidade técnica e humanística destes profissionais e lutar por tabelas remuneratórias justas que os retribuam de acordo com as suas elevadas responsabilidades e competências profissionais. Convém clarificar o que se entende por cuidador pessoal, alguém que ajuda outrem, privado parcial ou totalmente de autonomia, nas suas atividades de vida diária. Os cuidadores podem ser familiares, tipicamente os que cuidam de familiares e não auferem remuneração, ou profissionais remunerados e, dentre estes, os que possuem qualificações específicas, considerados formais, e os que cuidam de alguém sem possuírem qualificações, embora possam ter mais ou menos experiência, designados informais. É sabido que esta caracterização não gera unanimidade e que há autores que utilizam outros critérios para definir categorias de cuidadores, mas no quadro cada vez mais profissionalizado em que se tem de agir e tendo em consideração a necessidade de clarificar o exercício desta atividade progressivamente a evoluir para uma verdadeira profissão, é esta a nossa aposta e é neste sentido definidor de um novo enquadramento do exercício da atividade de cuidador/a pessoal que a Caregivers Portugal orienta a sua ação. À semelhança de muitas outras profissões que há décadas exigiam baixos níveis de formação e cujos profissionais eram muito mal remunerados e hoje se impõem a administrações e governos, a profissão de cuidadores pessoais, pela missão que lhes está cometida e pela crescente exigência de quem é objeto de cuidados em ser tratado por profissionais cada vez mais qualificados, tende a transformar-se numa profissão com elevados níveis de qualificações técnicas e humanas, a que terão de corresponder níveis remuneratórios crescentemente elevados. É esta a realidade que se esconde por detrás de uma aparente anomia relativamente a encarar de frente um problema que não tardará a agitar a opinião pública e a provocar um incalculável impacto em muitas organizações e instituições, bastando apenas que a evolução rápida da situação portuguesa em matéria de cuidados pessoais alcance o nível de exigência que outras sociedades mais desenvolvidas já conhecem para esta questão se tornar imparável. Quanto aos chamados informais, registe-se que se foge a falar de cuidadores familiares, que serão a maioria, usando-se aqui o condicional por ninguém ter números fiáveis, sendo razão bastante o facto de um setor dos que se debruçam sobre esta matéria entender que se deve desvalorizar o papel da família e reforçar o do Estado. Para aqueles, a família parece ser uma abencerragem do passado, uma tralha a aguardar reciclagem ou mesmo aterro, não ocorrendo a esses propagandistas das causas sociais fraturantes que se pode não falar até de família, no singular, mas tanto quanto se alcança, é difícil imaginar sociedades sem famílias como já hoje as conhecemos, em que os meus, os teus e os nossos, configuram modelos diferenciadores, nem melhores nem piores, apenas diferentes de um passado mais padronizador. Acresce que falar em cuidadores familiares diminui o impacto da exigência remuneratória, pois todos aceitam, ou quase todos, para sermos mais rigorosos, que as famílias têm obrigação de cuidar dos seus filhos, dos seus doentes, dos seus idosos, dentro de certos limites, naturalmente, e de acordo com o modelo e condições concretas de desenvolvimento de cada sociedade. Para a economia do processo importa que o debate se clarifique, se desmistifiquem ideias que não têm qualquer suporte na realidade e se afronte o problema, porque de facto existe um gravíssimo problema social em torno da prestação dos cuidados pessoais, sendo urgente conferir aos cuidadores familiares apoios que lhes são devidos por um Estado Social que nesta matéria falha em toda a linha, reconhecendo também às famílias que não têm meios ou condições para tratar dos seus entes queridos o direito a beneficiarem de apoios que lhes permitam remunerar cuidadores contratados para o efeito, assim se legislando no sentido da criação de um Estatuto dos Cuidados Pessoais Familiares e não dos cuidadores informais. Esta medida teria amplas repercussões sociais e económicas, tanto mais que constituiria um sinal concreto de que à institucionalização rotineira de quem precisa e de quem é forçado, se estaria a optar por formas financeiramente mais flexíveis e de uma humanidade incomparavelmente superior. Relativamente aos cuidadores profissionais só se antevê uma solução justa e digna, a criação de um Estatuto de Carreira que enquadre esta atividade profissional, defina as qualificações que os diversos patamares da mesma exigem e os níveis remuneratórios aplicáveis. Evidentemente que medidas como as que se preconizam, pelos impactos pessoais, sociais e financeiros que determinam, necessitam sempre de períodos de adaptação e de medidas complementares de apoio à adoção de novos padrões organizacionais, mas não se duvida de que o caminho será por aqui e que quanto mais cedo se começar a percorrer, melhor para todos. A Caregivers Portugal quer ser parceira neste processo, contribuindo para um debate aberto e descomprometido relativamente a ideologias e forças de pressão, alinhado com as melhores práticas internacionais, fomentando a articulação entre o ensino superior, os investigadores e os profissionais e reforçando a massa crítica desta área técnico-científica em desenvolvimento. José Manuel Silva Fundador e presidente da Caregivers Portugal| Publicado na revista Dignus, n.º 1.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Imigração e sustentabilidade do país

A Europa vive sobressaltada com a afluência de refugiados e imigrantes e os portugueses têm podido dormir descansados porque estão territorialmente longe dos portos de desembarque e o país é menos atrativo. No entanto, pela zona de Odemira já soam os alertas perante a importação maciça de mão de obra asiática, pouco menos do que escrava, para a lavra das estufas de vegetais frescos. Na região de Leiria o fenómeno existe, mas o impacto é bem diferente. Infelizmente, estes homens e mulheres que vêm trabalhar nas culturas intensivas que os portugueses evitam não têm vozes políticas que os defendam e são uma espécie de espectros sociais por quem ninguém mostra solidariedade. Por outro lado, as infraestruturas locais estão a rebentar pois, nalguns casos, a população duplicou e a pressão social aumenta com a xenofobia a espreitar. Portugal precisa de 75 mil imigrantes adultos anuais para compensar a falta de população autóctone, mas prefere-se fingir que o problema não existe e assim não se cuida das soluções. Quando se fala da sustentabilidade da Segurança Social e do regime de pensões é para a imigração que necessitamos olhar, sem imigrantes todo o sistema económico do país e tudo o que se conhece por direitos sociais ficará em causa. Infelizmente, o tacticismo partidário e a demagogia tornam impossível uma análise serena deste assunto pois confundem-se os movimentos migratórios de desvalidos fugidos de guerras e cataclismos com a imigração tradicional, isto é, afluxo de profissionais imediatamente integráveis no mercado. Portugal tem de pensar seriamente neste problema, acolher refugiados é ação social, captar e criar condições para a fixação de imigrantes qualificados é assegurar o futuro do país e esta não é uma tarefa exclusiva do Estado, é dos agentes económicos, das autarquias e de todos nós. (Publicado em Região de Leiria Maio 2019)

terça-feira, 3 de julho de 2018

O negócio dos refugiados

O problema dos refugiados tem originado clivagens políticas importantes entre os parceiros europeus e está a influenciar decisivamente os resultados eleitorais, com o reforço dos partidos menos tolerantes ao fluxo descontrolado de refugiados. O último e mais emblemático episódio, ocorreu com o navio Aquarius, impedido de aportar a Itália. A reação foi dúplice, de condenação veemente por muitos, de aplauso por outros tantos; no entanto, para compreender o que se passa e procurar as melhores soluções é necessário olhar para o problema não apenas como uma questão humanitária, mas como uma questão política de fundo e uma das faces de um negócio milenar de tráfico humano. Convém recordar que foram os americanos e os europeus a originar este movimento quando, mais uma vez, quiseram desenhar países à sua imagem e semelhança. Geraram o caos na região, destruíram países estáveis e agora têm-se mostrado incapazes de resolver o problema que criaram. Face ao tráfico, alimentado por redes mafiosas africanas, asiáticas, do Médio Oriente e europeias, que criaram diversos corredores de trânsito que terminam na Europa, a solução defendida como moralmente superior é acolher toda a gente. Pode tentar disfarçar-se o óbvio, mas é impossível, e contrário aos interesses europeus, acolher milhões de pessoas indiferenciadas e cujas condições para se integrarem nos países de acolhimento fica muito aquém do que se propaga, como se tem visto em Portugal. Isto não é apenas um problema humanitário é, sobretudo, uma questão política e uma batalha contra o crime de tráfico de pessoas. Quanto mais permissivas forem as políticas relativamente a este problema, mais rapidamente a Europa se transformará numa fortaleza autoritária, xenófoba e limitadora de muitas liberdades. O voto é como os cataventos; aponta na direção para onde sopra mais forte.(18/06/21 Região de Leiria)

O Tempo longo da História

Vivemos numa época em que tudo parece ser vivido e esgotado no momento. É o tempo da comunicação instantânea e em rede, sempre informados, sempre carentes de informação, muitas vezes mal informados e pouco esclarecidos. A maioria das questões noticiadas não são compreensíveis se apenas olhadas pelo flash informativo do momento, muito menos, se à compreensão se substituir o desejo de estimular as sensações. Quando, por exemplo, se prende sob o olhar atento das câmaras de televisão, não interessa o que representa essa prisão, apenas as sensações que se despertam num público ávido de voyeurismo e sempre pronto a excitar-se com espetáculos onde há sofrimento, vítimas e força bruta. Sempre assim foi desde que a espécie humana deixa a sua pegada no planeta. À contextualização rigorosa dos factos, prefere-se o lado escandaloso que se adensa pela forma como as histórias são narradas, como os protagonistas são caricaturados, a traço grosso, como se tudo fosse a preto e branco e apenas houvesse uma versão, a que se vai escrevendo como somatório de opiniões diversas, que se confundem com a heurística e a hermenêutica indispensáveis ao tratamento credível de qualquer matéria, seja um crime ou um ato de heroísmo. O populismo é a máscara mais visível do reflexo desta informação do instante e não surpreende que estejamos a ver empolgar-se a onda que por todo o mundo varre as democracias e ameaça fortemente a estabilidade europeia e mundial, quando o desnorte dos eleitorados se torna no veneno com que atentam contra si próprios. É oportuno recordar que o tempo breve não permite descortinar o mais importante, isso só o tempo longo nos concede alcançar, a miríade informativa não dispensa a reflexão serena da realidade, pois nem tudo se esgota no tempo de uma notícia sensacionalista.( 18/05/24 Região de Leiria )

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Jovens em transe

A situação não é nova, mas é crescentemente preocupante. Falamos dos jovens que chegam à idade adulta sem um projeto de vida definido, não conseguem encontrar uma atividade profissional condizente com as suas habilitações e expectativas, mas não abdicam de um estilo de vida acima das suas possibilidades próprias e só mantido à custa do apoio dos pais, avós e outros familiares. Uma percentagem significativa destes jovens são oriundos de famílias da classe média ou alta, com rendimentos mensais apreciáveis e que sempre lhes puderam propiciar condições de vida confortáveis. Chegados ao fim dos estudos superiores, confrontam-se com dificuldades várias no acesso aos empregos a que se julgam com direito, dão conta de que o mundo mediático que todos os dias reporta casos de sucesso de jovens talentosos que fazem fortuna de um dia para o outro lhes passa uma imagem desfocada da realidade que conhecem e acomodam-se ao conforto parental enquanto vão esperando que o acaso lhes resolva o problema. Duas situações agravam este cenário, por um lado percebem que não vão conseguir facilmente chegar ao nível remuneratório e social dos pais, por outro, habituados a facilidades, julgam ser dever dos progenitores continuar a sustentá-los incluindo os seus prazeres e vícios. Incapazes de se lançarem ao mundo, vão engrossando o mercado da formação que, nalguns casos, apenas prolonga a ilusão ou deixam-se ficar numa inação doentia, enquanto as famílias, preocupadas mas incapazes de definirem linhas vermelhas, não lhes apontam caminhos realistas, ainda que desconfortáveis. Haverá situações muitos piores, mas este grupo muito específico de jovens precisa de atenção crescente, sobretudo que as suas famílias não lhes alimentem o sentimento de perda e frustração e os empurrem para a vida, em vez de os tratar como coitadinhos vítimas dos tempos. (18/05/10 Região de Leiria)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Quotas de género na política

Como sempre vivi em ambientes profissionais dominados numericamente por mulheres e fui educado e me tenho comportado como um igual às cidadãs, tenho sempre alguma dificuldade em avaliar de forma fria este tipo de discussões sobre as quotas de género. É certo que a legislação ajuda a mudar as sociedades e que a engenharia social pode ser muito importante, mas fica-me sempre a dúvida se não estamos a incorrer no mesmo erro dos escuteiros que queriam ajudar a velhinha a atravessar a rua, para fazerem a sua boa ação do dia, com a simples nota negativa de que a senhora não queria. Ora, se as mulheres são maioritárias em inúmeras atividades e lideram hoje em muitas áreas, a sua sub representação na política é apenas resultado do "machismo" ainda vigente? Não acredito, a política é uma atividade que não interessa a muita gente, aliás, interessa a cada vez menos pessoas, e talvez muitas mulheres prefiram fazer coisas mais úteis. Se vingar uma conceção fundamentalista das quotas, seremos forçados a aceitar quotas de género, de cor, de orientação religiosa, de orientação sexual, de estatuto económico e por aí fora, até termos feito da democracia um carrocel de quotizados.