sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Sim à vida! Não ao aborto clandestino!

Contentemo-nos em fazer reflectir.
Não tentemos convencer.
Georges Braque


Era ainda criança quando um dia ouvi falar que a mãe de um amigo meu tinha ido a um médico distante por causa de uma doença. Achei que se tratava de qualquer coisa grave, pois falava-se do assunto em voz baixa e tom grave. Curioso é que a senhora parecia estar de saúde e quando regressou vinha doente. Tinha ido fazer um “desmancho”.
A palavra soou-me como uma agressão e ainda hoje me causa desconforto. Acabei por perceber do que se tratava, e alguém me explicou os perigos que encerrava, a mágoa que causava às mulheres terem de recorrer a semelhante prática, a clandestinidade a que as obrigava. Nunca mais esqueci o drama e o sofrimento daquela mãe e as inúmeras consequências negativas que o facto acarretou para ela e para a família.
Infelizmente, apesar de toda a evolução registada desde os anos cinquenta do século passado, quando esta história verídica ocorreu, a realidade mantém-se inalterada. Há mulheres que continuam a poder ser presas por fazer um aborto, há mulheres que morrem por os fazer em condições deficientes, há um cinismo intolerável acerca do assunto e há gente que confunde o direito à liberdade de convicções com o direito a agredir os que apenas desejam acabar com o calvário secular que empurra muitas mulheres para a valeta sórdida do aborto clandestino.
Entendamo-nos, o aborto sempre existiu, existe e existirá, sejam as leis mais ou menos restritivas. O que está em causa é tão só criar as condições necessárias para que todas as mulheres, num acto consciente e responsável, possam interromper uma gravidez no período inicial da mesma, fundamentadas em razões que só a elas ou ao marido ou companheiro dizem respeito.
Se isto não acontecer, o drama é que tudo vai continuar como até aqui, as mulheres que tiverem mais posses vão a clínicas especializadas no país ou no estrangeiro, as outras continuarão a praticar abortos em condições muitas vezes precárias, sujeitas a toda a espécie de sequelas físicas e psicológicas, correndo o risco de verem a sua intimidade exposta na praça pública e, como se de criminosas de tratasse, metidas na cadeia.
Que sociedade é esta que trata da pior forma os que são mais frágeis, os menos abonados, os mais dependentes, os mais excluídos? O aborto não é um problema das mulheres, não é uma questão de liberdade, de cada uma dispor do seu corpo como lhe apetece, o aborto clandestino é uma chaga social, que diz respeito a todos, que nos interpela e nos obriga a tomar posição com bom senso e sem fundamentalismos de nenhuma espécie, em defesa da vida, certamente, mas em defesa também do direito à saúde das mulheres.
Nenhuma mulher deve ser obrigada a abortar contra a sua vontade, mas também nenhuma mulher deve ser condenada como uma delinquente, por acção de quem quer que seja, apenas por uma interrupção voluntária na fase inicial de uma gravidez. O aborto clandestino é o resultado da hipocrisia que trata as mulheres, sobretudo as mais frágeis socialmente, como criminosas em vez de as tratar com humanidade e compreensão.
A paternidade e a maternidade responsáveis fundamentam-se em valores universais, e por isso mesmo não são compagináveis com restrições absurdas e hipócritas que nada mais fazem do que atentar contra a saúde física e psicológica de algumas mulheres obrigadas, por razões do seu foro íntimo, a tomar decisões que devemos respeitar, mesmo que com elas não concordemos.
É por isso que eu digo sim à vida, sim à despenalização, não ao aborto clandestino.