segunda-feira, 23 de abril de 2007

Uma escola bué da fixe

Relendo um livro que publiquei em 2001, Uma Janela na Cidade, dei com este texto saído no Região de Leiria em 2000; podia ter sido escrito hoje.

Quem ouve ou lê as declarações dos mais altos responsáveis pela gestão do sistema educativo fica com a ideia de que a escola portuguesa é um oásis. Quem fala com os professores, quem anda pelas escolas, quem tem lá filhos, fica com a ideia contrária.
Este fenómeno não é novo e resulta de uns e outros observarem a realidade escolar de ângulos diferentes. Do alto do edifício sede do Ministério da Educação, as escolas são pontinhos no horizonte e é impossível perceber o que se passa verdadeiramente em cada uma.
Quando entramos nas escolas, mergulhamos no país real. O pontinho ameaça transformar-se num buraco negro e a frustração é o sentimento dominante entre os docentes. Apesar de alguns observatórios sociais indicarem que os professores são dos profissionais mais respeitados e em quem mais confiança se deposita, a verdade é que a maioria sofre de um mal que, não sendo fatal, afecta muito a sua qualidade de vida e o seu desempenho profissional.
À falta de um nome científico, podemos dizer que se trata de uma espécie de angústia, uma sensação de vazio, uma amargura ténue, uma frustração que se vai dilatando, uma insegurança crescente, uma raiva domesticada. Alguns conseguem não perder a esperança, não voltam a cara aos problemas, acreditam sempre que é possível dar a volta por cima. São os militantes do optimismo pedagógico. Infelizmente, muitos deixam-se arrastar pelo pessimismo e são engolidos pelo sistema.
A política educativa tem vivido de um equívoco. Os sucessivos governos têm agido como vanguardas voluntariosas tão convencidas da justeza da sua missão que se esquecem das rectaguardas. É por isso que quando olham para trás ninguém os segue e é necessário lançar uma nova reforma para reformar a anterior.
A inovação é fundamental, a actualização permanente é condição indispensável de sobrevivência profissional, mas sem professores motivados não há sistema educativo que resista. E só se motiva quem acredita no que faz.
Por vezes, é verdade que são pouco abertos a mudanças, mais por falta de confiança do que de formação ou capacidade, mas o seu empenhamento é indispensável.
Para isso, é preciso dar-lhes a importância que merecem, tomar em conta as suas opiniões, a sua experiência, discutir as suas dúvidas e assegurar-lhes condições de formação e trabalho adequadas.
A Escola está a passar por um processo de mudança profundo. Os professores são um dos elos mais importantes dessa transformação. Não se pode pensar apenas nas novas tecnologias. Para além de um computador em cada sala de aula, é preciso continuar a ter lá um professor competente e que acredita naquilo que faz.