domingo, 13 de janeiro de 2008

In memorian Luiz Pacheco

Morreu o libertino mais autêntico que conheci. Cruzei-me com ele em 1972, através de um amigo comum. Fomos visitá-lo a um andar em Massamá onde vivia caoticamente, como sempre fazia. Estava deitado, meio andrajoso, a corrigir gralhas de um seu livro recentemente publicado - Literatura Comestível - de que me ofereceu um exemplar com uma dedicatória surpreendentemente bem comportada. Ao José Manuel Silva - homenagem do autor. Luíz Pacheco 23/XII/72
Luíz Pacheco era uma personalidade singular, um amoral, um anarquista, um marginal, o que quiserem, mas sobretudo um libertino que não gostava de coleira e preferia mendigar em liberdade do que vegetar num "empregozito", como diria O' Niell.
Viveu quase sempre na miséria ou muito próximo e, ironia das ironias, foi uma "reformazita" atribuída por Alçada Batista no governo de Balsemão, depois acrescentada por Santana Lopes que lhe permitiu esperar pela sua hora com algum conforto num lar de idosos. Ainda assim, tenho a certeza que teria preferido morrer no Bolero, a discoteca mais xunga da Lisboa dos sessenta/setenta, rodeado de putas e encharcado em álcool.
Na última entrevista, publicada na revista Tabu do semanário SOL, está lá todo, desbocado como sempre, iconoclasta, com todo o seu desvario e, surpreendentemente, cativante. Com a devida vénia, transcrevo a sua expressão de satisfação quando decidiu despedir-se do Público onde escrevia "umas coisas":"...o gozo que dá um gajo abandonar o emprego...". Eis o Pacheco no seu melhor, mesmo à beira do fim.