domingo, 24 de fevereiro de 2008

A verdadeira questão não são os professores

Ontem, a contestação às políticas educativas subiu de tom. Várias concentrações de professores, Porto, Leiria e Caldas da Raínha, mobilizaram milhares de docentes em defesa dos seus direitos. A novidade é que estes protestos não são, pelo menos tanto quanto se sabe, convocados por estrturas sindicais nem partidárias e assumem-se como expressão genuina de um grito de revolta.
De facto, a situação nas escolas bateu no fundo, sendo certo que o fundo nestes casos pode ser sempre ainda mais fundo.
Uma das questões que mobiliza a classe é a avaliação, mas é necessário ser clarividente se não se quiser hipotecar esta onda mobilizadora apenas à defesa de interesses corporativos. Os males da escola patrocinados pelo actual Governo vão muito para além da avaliação dos docentes e incluem aspectos profundamente ideológicos que, aparentemente, passam despercebidos.
Por exemplo, as Actividades de Enriquecimento Curricular são uma boa solução? Talvez, mas são a ilustração de uma política estatista levada ao extremo e que inviabilizou milhares de iniciativas da sociedade civil que até então propiciavam actividades similares. Pergunta, o Governo devia ter criado mais um vórtice de despesa directa, ou teria sido preferível manter esta área no domínio da liberdade de escolha das famílias e no âmbito das entidades não estatais?
A passagem de competências para as autarquias é positiva? Pode ser, mas como se vai fazer, será mais um factor de instabilidade nas escolas e um pasto apetecível para os mais rasteiros interesses de grupos locais sejam ou não partidários.
O novo modelo de gestão comporta aspectos positivos? Alguns, mas reforça o peso do ME na gestão do sistema, não dá mais autonomia às escolas, não territorializa a gestão numa base local, logo não cria mais racionalidade na gestão integrada do sistema.
Podia dar muito mais exemplos, mas estes bastam para demonstrar que a avaliação é uma gota num oceano de medidas discutíveis, que afectam as escolas e a vida de todos quantos lá ensinam e estudam.
Como pai quero que os meus filhos frequentem uma escola de qualidade, mas sei que isso só é possível com professores satisfeitos com o que fazem. Ora aquilo a que se asssiste é precisamente o contrário e este é o erro político mais clamoroso do actual Governo em matéria de políticas educativas.
Por isso mesmo os movimentos de professores só terão sucesso se virem a floresta para além da árvore, se não se deixarem enlear nos seus interesses corporativos, se olharem para os pais e para os alunos como aliados e não como adversários.
O que está em causa na educação não é um problema só dos professores, é uma questão nacional que se prende com o modelo de escola que este Governo está a tentar construir, profundamente estatísta e burocratizada, assente num corpo obediente de funcionários docentes e gerida para levar à prática sem hesitações nem dúvidas as determinações que o omnipotente ME determinar, sob pena de ameaçadores processos disciplinares.
Este é que é o verdadeiro problema, não são os professores nem a sua avaliação.