domingo, 10 de fevereiro de 2008

A voz forte de Manuel Alegre

Não apoiei Manuel Alegre na disputa da liderança do PS e não estou arrependido por isso, o que não me inibe de reconhecer o papel que está a prestar ao PS e ao País com a sua voz crítica no universo dos silêncios cúmplices de muitos.
O problema de muitos líderes e governantes é estarem rodeados de gente que só lhes diz o que lhes dá jeito ouvir, o que não é, necessariament, defeito dos líderes, mas pode ser culpa dos seguidores.
É natural que quem tem uma visão muito determinada sobre uma matéria ou projeto tenha tendência para ver a perspectiva que mais lhe interessa, do seu próprio ponto de vista. Mas se tiver à sua volta quem lhe chame a atenção para outras formas de olhar, pode mais facilmente corrigir distorções.
A impressão com que se fica é que Sócrates, que é pessoa determinada, se não mesmo teimosa, e que ainda por cima tem conhecido mau feitio, está rodeado de seguidores que apenas lhe transmitem as boas notícias. As más só lhe chegam pela comunicação social e pelas lutas na rua.
Ainda um dia destes, e perante as discordâncias que manifestava sobre a política educativa a um conhecido dirigente regional do PS este, do alto da sua soberba partidária, me respondia textualmente "Tu tens a visão do professor e eu a de pai e autarca muito experiente nestas matérias".
Ora este senhor devia ser capaz de trasmitir ao líder do PS, por acaso o 1.º Ministro, o ambiente que se vive nas escolas, a desmotivação, o clima de medo, o desejo de fuga para outras profissões, enfim, a verdade que não pode ser escamoteada e que está a prejudicar gravemente o funcionamento do sistema educativo. Ao invés, o senhor prefere as suas opiniões à realidade e imagino-o a relatar ao Chefe o oásis que são as escolas, com a excepção dos famigerados professores, que provavelmete considera incompetentes e calões.
É por estas e por outras que a voz de Manuel Alegre se tornou tão importante, porque ousa dizer o que outros calam, porque põe o dedo na ferida, porque ajuda a confrontar o Governo e os cortesãos que vivem à sua sombra com a realidade dura dos factos.
Ao contrário do que possa parecer, Manuel Alegre está a prestar um serviço ao partido e, sobretudo, ao País. O Governo tem feito muita coisa bem feita, mas precisa de ser chamado à ordem por aquilo que faz menos bem ou mesmo mal.