quinta-feira, 17 de abril de 2008

De Espanha nem bom vento...

"De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento!", assim se dizia em tempos e talvez alguns, mais patrioteiros, continuem a dizer. Mas a Espanha de hoje pouco tem que ver com a Espanha que conheci na minha infância, ainda a sarar as feridas da guerra civil e tanto ou mais conservadora do que Portugal.
Por razões de serviço tenho estado por aqui numa universidade e estou alojado numa residência de estudantes que tem um quarto para professores.
As refeições são tomadas na cantina da residência e no primeiro dia que aqui cheguei sentei-me discretamente numa mesa de quatro lugares e preparei-me para comer sozinho pois não conhecia ninguém e os outros comensais eram apenas alunos.
Qual não é o meu espanto quando três alunos se dirigem para a mesa, me cumprimentam e se instalam como se todos fôssemos velhos conhecidos. Pensei que tinha sido um acaso mas verifiquei que ninguém se levantou até eu ter terminado.
Como sempre que me sentava vinham alunos para a mesa, resolvi perguntar se era habitual. E assim fiquei a saber que nesta residência não se deixam pessoas comer sozinhas, por educação e porque nesta região se mantém o hábito de a família se juntar à hora das refeições.
Estes alunos, na generalidade oriundos de famílias não muito abonadas, muitos deles são bolseiros, o que lhes permite pagar os cerca de 550 € de mensalidade, deixaram-me verdadeiramente sensibilizado.
Ainda perguntei se isto era uma imposição da direcção, mas um dos alunos do 1.º ano, portanto novato aqui, logo se apressou a explicar que quando aqui chegou "aprendeu" com os mais velhos que era importante não apenas ter o "seu grupo", mas aproveitar as refeições para conviver com outros colegas, e uma forma de o fazer era juntar-se sempre a quem estivesse sozinho. Ora aqui está uma lição de civismo que jamais esquecerei. Os alunos têm muito para nos ensinar e a Espanha também.