sábado, 3 de maio de 2008

O lince da Malcata, o Algarve e o défice

Desculpem-me mas hoje não vou falar de educação, não é que não me apeteça, simplesmente há coisas mais importantes para comentar como, por exemplo, um ecologíssimo programa de reintrodução do Lince da Malcata no Algarve.
Sou um fã do Lince da Malcata há muitos anos e acho que o bicho simboliza muito do "ser português". Primeiro é um animal bisonho, desde 2001 que ninguém sabe nada dele e mesmo nesse ano só foi possível encontrar excrementos. Segundo, como se supõe que o facto de não se deixar ver é um protesto contra as condições de interioridade da serra da Malcata, o Governo, sempre lesto a apoiar os mais desfavorecidos e os descontentes, vai criar instalações no Algarve para o acolher e, mais do que isso, para que as amenas temperaturas da região lhe aqueçam o sangue e o bicho se reproduza para que a espécie não desapareça.
A causa é nobre, evidentemente, e aplaudo o esforço do Governo ao financiar tão arrojado plano com 4 a 5 milhões de euros, leu bem - milhões, ouvi eu dizer na televisão ao Secretário de Estado do Ambiente Humberto Rosa, pessoa por quem tenho a maior consideração e apreço e que também pertence ao clube de fãs do lince.
Mas não consigo deixar de pensar que, e citando o insuspeito jornal Expresso de hoje, p. 11, 18% da população portuguesa tem um rendimento abaixo do limiar da pobreza, ou seja temos 1,8 milhões de pobres em Portugal, embora não haja confirmação científica de que este tipo de portugueses estejam à beira da extinção.
Assim sendo, justifica-se apoiar o lince com políticas públicas activas visando a reabilitação de habitats capazes não só de assegurar a sua subsistência mas, sobretudo, de constituirem um suporte adequado para uma política de fomento à natalidade do bicho, agora comprometida com os frios da Malcata e o stress provocado pela diminuição do desejo das fêmeas, em grande parte resultante da possibilidade de as SCUT passarem a ser portajadas e Lisboa ficar ainda mais longe. O Algarve trará longa e regalada vida ao lince, às linças e aos respectivos lincinhos.
Quanto aos portugueses pobres, que meditem no bom exemplo do lince. Quando deles só restarem excrementos poderão ter a certeza de que o seu fadário estará a terminar. Então abrir-se-ão as portas do Allgarve para que a espécie se não perca e se possa reproduzir nas melhores condições.
Nota de rodapé: O primeiro Ministro foi ao Algarve apresentar o novo hospital. Parece que a cerimónia custou uns troquitos, coisa pouca, 50 mil euros. Não seja mal intencionado, julga que não concordo que o Estado delapide assim os dinheiros públicos? Pelo contrário, acho muito bem, acho mal é haver funcionários públicos a mais e ainda por cima muito bem pagos, por isso é que o défice custa a ir ao lugar.