segunda-feira, 31 de março de 2008

A aprendizagem da Matemática nos USA

A aprendizagem da Matemática preocupa o Governo dos Estados Unidos da América, que mandou elaborar um relatório sobre o assunto. O relatório pode ser consultado, com grande proveito, em
E por cá, o que se faz? Formação contínua no básico. E chega? E as metodologias não se discutem? Não é só disto, mas também que se fala no relatório americano.

domingo, 30 de março de 2008

Factores de eficácia escolar

Os exemplos dos outros servem-nos de reflexão. A América Latina tem muito para nos oferecer e ao contrário do que às vezes se pensa na Europa estão muito à frente em domínios educativos.

A notícia que reproduzimos, da responsabilidade de Amanda Cieglinski, Repórter da Agência Brasil, é disso exemplo.

Brasília - Os 37 municípios apontados pela pesquisa Redes de Aprendizagem foram escolhidos com base no cruzamento de informações socioeconômicas dos alunos e dos municípios com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O objetivo era destacar localidades em que, apesar das adversidades, o direito de aprender é garantido. A pesquisa, feita pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), foi divulgada na semana passada.Durante dois meses, pesquisadores entrevistaram dirigentes municipais de educação, diretores, coordenadores, professores, pais e alunos, que apontaram as razões do bom desempenho das escolas. São dez os fatores apontados na pesquisa:
1. Foco na aprendizagem – Em todas as redes analisadas, a gestão é direcionada para a aprendizagem e baseada em um conjunto de práticas focadas nessa finalidade. Essa é a primeira diretriz do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE).
2. Gestão com consciência e práticas de rede – As escolas trabalham em parceria e existe um sentimento de coletividade. A liderança da Secretaria Municipal de Educação é considerada fundamental nesse aspecto. Cabe ao gestor municipal identificar as necessidades de cada colégio, participando do dia-a-dia dos alunos e professores.
3. Planejamento – Cada ação é planejada, com metas e prazos. Vinte e cinco das 37 redes citaram a importância do planejamento compartilhado. Nele, o professor troca experiências com outros colegas, sentindo-se mais seguro e preparado.
4. Avaliação – É o retorno imediato do trabalho desenvolvido. A cobrança de resultados é fator comum entre todas as redes participantes. Professores fazem avaliações periódicas, que orientam os projetos e ações de cada escola. O índice de evasão e repetência são controlados de perto.
5. O valor do professor – Para os alunos, o professor é parte fundamental e tem papel importante no processo de aprendizado. 6. Formação dos docentes – O investimento na formação dos professores foi apontado como fator fundamental por quase todos os municípios avaliados pela Unicef.
7. Valorização da leitura – Projetos de valorização da leitura são desenvolvidos em quase 80% dos 37 municípios. Muitas vezes são idéias simples, mas eficazes, que incentivam o prazer de ler. 8. Atenção individual ao aluno – Não desistir nunca de um aluno é regra nas escolas avaliadas pela pesquisa. O atendimento individualizado, respeitando o ritmo de cada criança, é ferramenta importante para que nenhum estudante fique para trás.
9. Atividades complementares – A escola vai além do que é exigido e oferece atividades extras que complementam a formação do aluno e fortalecem seu vínculo com a escola.
10. Parcerias – As redes analisadas na pesquisa abrem espaço, sempre que necessário, para atores externos à comunidade escolar, tanto do setor privado quanto de universidades ou organizações não-governamentais.

Assim não se é cidadão

Voltemos ao tema da disputa pelo telemóvel na Carolina Michaëlis. A fazer fé no que li nalguma comunicação social, alguns dos alunos da turma em causa aproveitaram os seus blogues para mandarem mensagens uns aos outros despedindo-se, afirmando a sua solidariedade e criticando a professora que "deu cabo de tudo".
Passados vários dias da ocorrência mais mediática alguma vez presenciada numa sala de aulas em Portugal, que foi objecto generalizado de crítica, aqueles aprendizes de cidadãos ainda não compreenderam o que aconteceu e não hesitam em agir com arrogância e pesporrência quando se esperaria que fizessem mea culpa e adoptassem um comportamento discreto e uma postura humilde.
Dir-se-á que é a solidariedade própria dos grupos de pares, que são adolescentes, que é próprio da fase de desenvolvimento em que se encontram desafiar as regras sociais, os adultos, os poderes.
Pois é, mas a família e a escola entre as suas mais nobres missões tem precisamente a de educar, a de preparar as crianças e os jovens para se tornarem cidadãos de pleno direito, integrados numa actividade profissional e autónomos enquanto pessoas.
Aparentemente uma e outra estão a falhar nestes casos. Não só não conseguiram incutir-lhes comportamentos e valores adequados, como também não conseguiram levá-los a reflectir sobre o seu comportamento impróprio.
O que se seguirá? A transferência de alguns, sem mais? E para os outros? Mais do mesmo? E as famílias como estão a lidar com os seus "meninos"? E o que vão fazer no futuro?
O que se passou e todas as repercussões que se conhecem, aconselham a que se faça uma ampla reflexão, sem preconceitos nem tabus, sobre o que está em jogo que sendo, nalguns casos, do foro judicial é, sobretudo, um problema de cidadania.
O que estão as famílias e as escolas a fazer pela educação dos nossos jovens? Para sermos mais realistas, de alguns dos nossos jovens, pois embora a situação seja delicada é bom não generalizar e sobretudo não tomar "a nuvem por Juno".

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Marco e o papelinho

Como o prometido é devido, vamos à análise do caso do "papelinho".

A professora ao ler o papel ficou indignada e fez queixa à direcção. Sejamos objectivos, que matéria havia para reagir? Um papel, se quiserem, um papel que circulava de carteira em carteira e uns risos. O papel era ofensivo? Não. Houve intenção de ofender a professora? Não. Se ela se tivesse limitado a interromper a circulação do papel e o tivesse mandado deitar para o lixo ou o tivesse guardado e lido mais tarde, o incidente teria ficado por ali.

Foi esta a análise que se fez com a professora, que era relativamente inexperiente, e que percebeu imediatamente que a forma utilizada em vez de esvaziar o incidente o avolumou e criou mesmo um problema onde ele não existia. A leitura do papel na sala é que criou uma situação delicada para a professora, que se sentiu ofendida com o seu conteúdo quando, objectivamente, a ela não era destinado.
Moral da história. O(a) professor(a) não deve avolumar os incidentes. A sua acção deve ser preventiva e dissuasora, nunca potenciadora de problemas.

Mas admitamos que o(a) professor(a), num gesto impulsivo, lê o papel. Seja qual for o seu conteúdo, só lhe resta reagir com naturalidade, de preferência utilizando pedagogicamente a situação. A professora podia ter perguntado se o aluno estava doente, se necessitava de ir "lá fora", podia mesmo acrescentar que nalgumas situações "libertar um gaz" era uma necessidade inadiável por razões de saúde, embora se devesse evitar fazê-lo na presença de outras pessoas. Enfim, cada um pode pensar nas milhentas coisas que se podiam comentar invertendo a situação a favor do professor.
O que nunca se pode fazer é perder o controlo e deixar escapar a oportunidade de afirmar a liderança do(a) professor(a).

No caso da outra colega que reagiu envergonhadamente a um comentário sobre o seu belo "rabo", podia também ter encarado o facto com naturalidade, realçando as preocupações estéticas do aluno mas fazendo-lhe ver e à turma que era deslocado e prejudicial para os alunos perder o fio condutor da aula e estar a preocupar-se com matéria que podiam observar em qualquer outra ocasião.
O(a) professor(a) tem de mostrar segurança e domínio das situações.

Num próximo post voltarei com casos mais complicados. Os colegas podem aproveitar para contar as vossas experiências ou casos que vos tenham sido relatados e todos os podemos ir comentando.

terça-feira, 25 de março de 2008

A face oculta da indisciplina

Quando fui DREC mandei fazer um levantamento em todas as escolas da Região Centro sobre incidentes críticos, vulgo situações de indisciplina ou violência, ocorridos desde o início do ano lectivo de 2005/6 até Março, envolvendo alunos dos 2.º/3.º ciclos e secundária e participados aos órgãos de gestão.
Com surpresa constatou-se que num universo de 119709 alunos só tinham sido participados incidentes envolvendo 753 alunos, ou seja, 0,63/ do total daquela população escolar. Naturalmente que a realidade oficialmente relatada e a estatística resultante não correspondiam à informação que nos chegava por várias vias, sempre informais.
Lembrei-me disto a propósito do alerta do Procurador Geral da República para a necessidade de se participarem todas as situações que pela sua gravidade justifiquem a intervenção do Ministério Público.
Vou mais longe, devem ser participadas aos órgãos competentes das escolas, depois logo se verá se se justifica o recurso ao MP, todas as situações de indisciplina, obstrução ou violência praticadas por alunos ou encarregados de educação que o professor considere que afectam o exercício da sua actividade docente.
Em linguagem mais corriqueira devia adoptar-se "tolerância zero" até a situação estabilizar em níveis considerados aceitáveis. Naturalmente que a situação é muito diversa de escola para escola, sendo claro que onde há lideranças fortes a ocorrência de incidentes é quase inexistente.
A par disto é urgente, já o ando a defender há muito tempo, formação acrescida dos professores na área da gestão de turma (classroom management). Eu próprio ja fiz muita formação neste domínio e sei, por experiência própria, que num primeiro momento ninguém tem problemas. Depois, soltam-se as línguas e é uma torrente.
Deixo-vos um exercício, baseado numa situação real, para que cada um possa pensar como resolveria o caso.
Uma professora vê uma folha de papel dobrada andar de mão-em-mão pela sala de aula. À medida que o papel circula risos mais ou menos dissimulados vão acompanhando o seu percurso. A professora resolve intervir e obriga um aluno a dar-lhe o papel. Este começa por recusar, mas após a insistência da docente, cede. A professora desdobra a folha e depara-se com este texto "O Marco cagou-se, está aqui um cheiro do caralho."
Pergunta 1 : O que fez a professora?
Pergunta 2: O que teria feito o/a colega se esta situação se tivesse passado consigo?

Incidentes críticos na sala de aula

O texto que se segue é parte de uma notícia do jornal Público de 10 de Novembro de 2001. A sua actualidade é indiscutível e a obra referenciada merece leitura atenta, embora julgue que está esgotada.

O objectivo é declarado: "criar algum ruído no sistema educativo". Na sua base reside um "aviso à navegação": "Atenção que os professores estão a perder autoridade na sala de aula." Carlos Fernandes, professor e investigador em Psicologia na Universidade do Minho, editou com dois colegas (Paulo Nossa e Jorge Silvério) um manual sobre "Incidentes Críticos na Sala de Aula", vulgarmente conhecidos por indisciplina. O resultado é do menos politicamente correcto possível, mas não se inventou nada, apenas se recorreu à Análise Comportamental Aplicada (ACA), para desconstruir a "teoria do coitadinho" e as "modas psicopedagógicas".
Depois de 20 anos a dar formação a professores de escola em escola, Carlos Fernandes concluiu que se passou "de um extremo ao outro". Dos tempos da palmatória salazarista transitou-se para "teorias pseudocientíficas", que assentam na ideia de que o aluno deve ser poupado, sob pena de sofrer "traumas" que o marquem para toda a vida.
O abismo que se cavou entre a velha guarda de professores e uma vaga mais jovem é flagrante. Um exemplo basta para que se perceba até que ponto. Um aluno dito problemático tornou-se o herói do dia ao deitar o tabuleiro da comida ao chão, em plena cantina. Um grupo de professores sugeriu que ele limpasse o que havia sujado. Um outro grupo considerou que tal seria humilhante para o adolescente. No final, a comida espalhada foi limpa pelo contínuo de serviço.
Ao longo do seu trabalho, Carlos Fernandes tem-se esforçado por provar que atitudes como esta não têm nenhuma base de sustentação científica e que, em termos educativos, se está a fazer tudo ao contrário do que diz a psicologia ao nível do comportamento. É certo que um professor não pode ignorar as consequências dos contextos sociais e familiares no aluno, mas, segundo o investigador, esses factores não devem servir para justificar tudo. Este é um princípio do conhecimento científico: "informar a prática de aplicação, não justificá-la", explicita o manual editado pela Quarteto.
Incidentes Críticos na Sala de Aula
Análise Comportamental Aplicada (ACA)
Carlos Fernandes da Silva, Paulo Nuno Sousa Nossa e Jorge Manuel Amaral Silvério
Editora Quarteto

segunda-feira, 24 de março de 2008

Línguas de bacalhau

Imagine o que sucederia, em Portugal, se alguém descobrisse que uma criança de sete anos, todos os dias depois da escola, ia para um matadouro cortar, por exemplo, línguas de coelho, que devem ser mais ou menos do tamanho das do bacalhau corrente. Claro que sabemos que algumas cosem sapatos e outras devem fazer coisas piores, mas agora estamos a tratar de línguas.
Pois na Noruega não só é aceitável, como pedagógico. Faço fé no que li hoje no Metro, aquele jornal gratuito que se diz "Líder absoluto com 774 mil leitores diários", (fica a publicidade em troca da matéria noticiosa).
Ali se conta que na cidade de Rost ( a grafia não está correcta, mas o meu computador não tem letras norueguesas), situada nas ilhas Lofoten, acima do círculo polar ártico, "Cortar as línguas do bacalhau é um hobby para as crianças. Não é encarado como trabalho infantil". Até nos apresentam Preben, um menino de 12 anos que corta líguas desde os sete. Como só tem TPCs aos fins-de-semana, ocupa as tardes de semana a cortar as línguas numa fábrica onde se processa o bacalhau acabado de pescar, chegando a juntar mil euros por mês.
Claro que é um hobby... e muitos pais portugueses, que ganham menos de quinhentos euros por mês, não se importariam nada que os filhos tivessem um hobby destes em vez de irem frequentar as AECs.
Mas para que não restem dúvidas, a Ministra da Educação da Noruega, Helga Pedersen, concorda, pois acha importante que as crianças "conheçam o peixe", acrescentando "Tem a ver com a identidade, é uma tradição. Se os jovens não souberem como o peixe é, ou como é produzido, é mais difícil convencê-los a serem pescadores, exportadores de peixe, ou a trabalhar na indústria".
Não vale a pena olhar para esta realidade com os olhos postos em Portugal, o mundo é plural e as identidades são o que são. O sistema educativo norueguês é dos mais eficientes do mundo e as suas práticas podem ser muito inspiradoras. Por hoje, fiquemo-nos pelas línguas de bacalhau e pelo hobby do menino Preben.

domingo, 23 de março de 2008

Afinal a culpa foi do telemóvel

O Conselho das Escolas, ou o seu presidente, já encontraram solução para evitar situações idênticas à que ocorreu na Escola Carolina Michaélis - acabar com os telemóveis nas escolas.
Não fosse a existências deste aparelhos incómodos e nada daquilo se teria passado, portanto uma medida radical só mesmo impedir os alunos de os levar para a escola.
Já agora podia seguir-se idêntico processo com os computadores, os projectores de vídeo, talvez mesmo os rectroprojectores e com diligência chegaríamos mesmo aos livros que, como se sabe, costumam ser queimados por conterem ideias perigosas.
A aluna pode dormir descansada, a professora pode curar calmamente as feridas e sentir-se vingada, "não mais telemóveis nas escolas", pois, como fica provado, foi este o culpado do sucedido, é este o verdadeiro réu do processo, é sobre este que se deve abater a censura pública.
Correndo o risco de ser retro, esta "anedota" lembra-me aquela história do puto que parte um vidro. Antigamente era responsabilizado e, eventualmente, castigado. Hoje, alguém muito preocupado perguntará "por que estará ele a querer chamar a atenção?".
Afinal quem é que está a ver o mundo e os valores de pernas para o ar?

sábado, 22 de março de 2008

A 1.ª reunião do CCAP

O Gabinete de Comunicação do ME fez divulgar a nota seguinte, que reproduzo sem comentários, embora não me dispense de sublinhar a ironia fina que, involuntariamente, estou certo, percorre o último parágrafo.
O Conselho Científico para a Avaliação de Professores realizou a sua primeira reunião plenária na passada sexta-feira, dia 14 de Março.

Durante o encontro, os conselheiros analisaram a missão do Conselho, bem como o seu papel no acompanhamento e monitorização do regime de avaliação de desempenho dos professores.

Entre as suas decisões está a aprovação das Recomendações sobre a elaboração e aprovação pelos Conselhos Pedagógicos de instrumentos de registo normalizados previstos no DR 2/2008, formuladas pela presidente, Conceição Castro Ramos, em 25 de Janeiro de 2008 (ver
http://www.min-edu.pt/np3/1605.html).

Estas Recomendações serão agora aprofundadas e desenvolvidas, à luz dos princípios orientadores de autonomia e diversidade, equidade e justiça, flexibilidade e adequação à realidade e de simplificação de procedimentos.

quinta-feira, 20 de março de 2008

O telemóvel da disputa

As televisões passaram hoje este vídeo, gravado por um aluno, com um episódio quase inacreditável.
Uma professora retirou um telemóvel a uma aluna que, presume-se, o estava a utilizar indevidamente. Esta não se conforma e, para além de protestar, exige à professora que lho devolva, tratando-a por tu e agarrando-se a ela, tentando tirar-lho. A professora ainda tenta chegar à porta, provavelmente para pedir ajuda, mas a aluna consegue apoderar-se do telemóvel depois de uma quase luta corpo-a-corpo com a docente, envolvendo outros alunos que não se percebe se tentavam ajudar a aluna ou serenar os ânimos.
Entretanto um aluno grava a cena e outros incentivam ou, simplesmente, riem à gargalhada.
O episódio vale como ilustração do estado a que as nossas escolas já chegaram, da insubordinação dos alunos, da incapacidade de muitos professores em assegurarem um controlo mínimo da gestão das turmas, da total ineficácia dos regulamentos internos como garantes da disciplina necessária.
Para além de tudo isto é intrigante que a professora abusada não tenha apresentado queixa. Para não se sujeitar a mais enxovalhos? Porque não acredita na justiça escolar? Ou simplesmente porque este tipo de comportamentos se tornou rotina? E o ME, A DREN (a escola é do Porto), a direcção da escola, fizeram alguma coisa? Ou deixaram a professora entregue a si própria, para não dizer aos "bichos"?

quarta-feira, 19 de março de 2008

A teimosia como princípio

No "Radar" de José Gil, revista Visão, vem hoje um notável texto com o título acima sobre a governação, em geral, e sobre José Sócrates, em particular, que recomendo vivamente.
Apenas um pequeno excerto
"Fora do partido, a teimosia pessoal elevada a princípio político implica uma ruptura com o povo: deixa-se de o ouvir, deixa-se de ver os sinais de perturbação social, deixa-se de sentir os movimentos finos de forças que percorrem a sociedade e a que toda a governação democrática deve estar atenta. Nasce o risco de desnaturação da democracia."
Fora dos círculos mais cristalizados da militância PS não encontro ninguém a subscrever certas políticas do Governo, apesar das sondagens, e como militante socialista fico envergonhado com posições do tipo das de Vitalino Canas "O Governo fez tanta coisa bem feita que nem vale a pena falar das que fez mal." (cito de memória).
Quando se perde o sentido crítico e a noção do ridículo acelera-se a erosão da credibilidade política.

Aniversário

Hoje tive um jantar de aniversário. À mesa éramos cinco professores e três alunos. Os professores fartaram-se de discutir sobre os temas quentes. Os alunos ou estiveram calados ou "desertaram" para o parque infantil.
Entre entradas e sobremesas os professores passaram em revista acaloradamente as causas maiores das desgraças da educação. Alguns dos professores também são pais, mas esqueceram-se disso. Só os alunos agiram como sempre - marimbaram-se para a discussão - o negócio deles é outro, discutir para quê? Com esta ou com outra Ministra, com esta ou com outra política, eles têm de continuar a aprender e, como diria o velho professor Miranda, mais conhecido pelo "dez para as duas", figura veneranda do Liceu de Évora quando por lá andei nos idos de sessenta - "A escola ensinou-me mal, mas eu tramei-os e aprendi bem!". (Este episódio é contado pelo Prof. Manuel Patrício, com quem a conversa se terá passado, que tive o privilégio de ter como professor e Amigo quando fiz o 6.º e 7.º anos, e que muito me marcou, bem como a muitos outros que com ele se cruzaram nos vários ciclos de ensino por onde passou, da primária ao superior).

segunda-feira, 17 de março de 2008

A personalização da gestão

Como é sabido, todas as instituições do ensino superior estatal estão em fase de discussão dos estatutos. A elaboração destes está condicionada pelo novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (Lei n.º 62/2007, de 10 de Setembro) que no seu artigo 85.º, n.º 1 estabelece que "O reitor da universidade ou instituto universitário ou presidente do instituto politécnico é o órgão superior de governo e de representação externa da respectiva instituição" e no n.º 2 "O Reitor ou presidente é o órgão de condução da política da instituição e preside ao conselho de gestão."
Também a proposta de Decreto-Lei da gestão das escolas dos ensinos básico e secundário (Projecto de Decreto-Lei 771/2007-ME) prevê no seu artigo 18.º que "O director é o órgão de administração e gestão do agrupamento de escolas ou escola não agrupada nas áreas pedagógica, cultural, administrativa e financeira e patrimonial".
Como fica claro, e tratando-se embora de dois subsistemas do sistema de ensino, visa-se claramente uma mudança de paradigma neste domínio personalizando a gestão e concentrando amplos poderes nos reitores/presidentes/directores.
Futuramente os gestores de topo respondem não perante os pares, mas perante os "conselhos gerais" que os elegem, que integram até 50% de personalidades exteriores às instituições, no caso do básico e secundário, e obrigatoriamente presididos por uma personalidade externa, no caso do superior.
Pense-se o que se pensar, trata-se de uma revolução de veludo com profundas implicações na vida das instituições. Fecha-se o ciclo aberto pela revolução do 25 de Abril de 1974 e mantendo-se a legitimidade eleitoral dos gestores de topo, submetem-se a estes todos os restantes órgãos executivos numa preocupação de verticalização da decisão e de eficácia de resultados, que só o futuro permitirá dizer se serão vantajosos.

domingo, 16 de março de 2008

Avaliação ou titulares?

Há apenas uma semana o país espantava-se e o Governo tremia com o grito de cem mil professores que desfilaram por Lisboa num gesto de protesto de uma classe inteira, jamais visto em Portugal.
Uma semana apenas passada e o grito parece ter sido parcialmente abafado. Bem sei que nem todos se manifestaram pelos mesmos objectivos. Para além do traço comum e genérico "contra o ME e a política educativa" muitos estiveram lá por diferentes razões e o facto de os sindicatos terem vindo a colocar o sublinhado na questão da avaliação está a empurrar o movimento de protesto para posições defensivas e a desfocar o essencial da questão, como já aqui escrevemos.
O ME está a recuar na questão da avaliação, está a flexibilizar as exigências, está a remeter para as escolas alguma da matéria acessória, mas o essencial não vai mudar e os sindicatos estão a chegar a um beco sem saída.
A radicalização das formas de luta em torno da avaliação não faz qualquer sentido no contexto actual, sob pena de se poder dizer, agora com razão, que os professores não querem é ser avaliados. Outra situação bem diferente seria colocar a tónica no malfadado concurso para titulares, ele sim, verdadeiro causador do "pecado original" que paira sobre o processo de avaliação.
Mas será que se vai esquecer esta questão, permitindo-se que uma entorse desta natureza persista? Eu sei que estamos na Quaresma e que o tempo é de trevas, mas o sábado de Aleluia não tarda aí e com a Ressurreição regressará a esperança.
Espero bem que o grito de revolta que ecoou pelo país não seja sufocado pelo silêncio das férias, nem por algumas concessões menores por parte do ME.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Liderança escolar (1)

Uma colega de uma universidade de São Salvador da Baía, que lecciona um curso a distância de Gestão e Organização das Instituições do Ensino Fundamental, dasafiou-me para colaborar na leccionação da sua cadeira com uma pequena entrevista sobre um tema que me ocupa em termos de investigação - líderes e lideranças escolares.
Com a colaboração de técnicos que trabalham comigo fizemos a entrevista que se reproduz, seccionada em três partes, e que também podem encontrar no You Tube pesquisando por "liderança escolar".
Como admito que o assunto possa suscitar algum interesse por causa do novo modelo de gestão escolar, deixo-o aqui à vossa consideração.
Nota: Eventuais dificuldades de visionamento resultam das características dos computadores utilizados e não do vídeo.

Liderança escolar (2)

Liderança escolar (3)

terça-feira, 11 de março de 2008

Sobre a nudez forte da verdade...

O manto diáfano da fantasia prepara-se para descer sobre a luta dos professores. Ao que se ouviu nos telejornais já houve reuniões com os sindicatos e amanhã vai haver com o Conselho das Escolas.
O Governo e a equipa do ME querem a todo o custo afastar o fantasma de cem mil docentes em protesto e, Vitorino dixit, há que flexibilizar. Só que a avaliação, como já aqui se escreveu e qualquer pessoa sabe, é como a febre, não passa de um sintoma.
Ora, qualquer adiamento, ou para sermos politicamente correctos, qualquer flexibilização, é como o Benuron, baixa a temperatura mas não cura a doença. Com ou sem adiamentos ou flexibilizações a avaliação, esta avaliação, é inaceitável, não em si mesma, mas porque os avaliadores, uma parte dos avaliadores, resultaram de um concurso imoral.
Aqui é que bate o ponto e, infelizmente, parece que os sindicatos estão a esquecer-se disto, o Conselho de Escolas finge que não sabe, os partidos ignoram ou assobiam para o lado e muitos professores também parecem distraídos.
Depois do beco sem saída a que os sindicatos conduziram a luta dos professores contra o estatuto da carreira docente, temo que venha a acontecer o mesmo com o actual processo, com o inevitável cortejo de frustrações que os processos perdidos sempre acarretam.
É preciso gritar bem alto urbi et orbi que o mal não está na avaliação, o verdadeiro problema reside a montante, no concurso para titulares. Tudo o mais é o manto diáfano da fantasia a disfarçar a nudez crua da verdade, como diria o Eça.

Ó pra eles...todos baralhados...

Notícia da Antena 1

Ontem, em declarações à RTP, António Vitorino defendia um teste ao modelo de avaliação dos professores. Jorge Pedreira. O Sec. de Estado da Educação, diz que um período experimental não faz sentido. O modelo de avaliação dos professores deve ser consequente, embora não rejeite totalmente as ideias de António Vitorino. Vitalino Canas tem uma interpretação diferente das palavras de António Vitorino. O porta-voz do PS não encontra contradições no discurso de António Vitorino face ao discurso do Ministério da Educação. Vitalino Canas considera mesmo que a ideia vem mesmo ao encontro daquilo que o próprio Ministério tem dito.

Pois é...talvez consigam a quadratura do círculo. Até pode ser que digam isto e o seu contrário, ou como disse outro dia um postador "concordo com a Ministra e com todos os que estão contra ela", só que a realidade é o que é, goste-se ou não.

segunda-feira, 10 de março de 2008

O professoricídio em curso

A palavra custa a dizer, é um neologismo, mas deve-me assistir o direito de a utilizar para significar o autêntico "assassinato do professor" que alguns comentadores da nossa praça andam por aí a fazer.
Apesar da tarimba das misérias humanas ainda me surpreendo com a atitude abjecta de alguns escribas de serviço que têm tentado a todo o custo proceder a uma assassinato de carácter de toda a classe dos professores, especialmente aos que usando o direito cívico à indignação, tão oportunamente invocado já lá vão muitos anos por Mário Soares, e o direito constitucional ao protesto e à manifestação, têm afirmado nas escolas, nas ruas e nos órgãos de comunicação social a sua discordância face às políticas do Governo para o sector educativo.
As ervas daninhas da Inquisição, da delação, da polícia política, dos bufos e quejandos não foram completamente extirpadas e germinam com furor sempre que surge ocasião favorável. Travestidos de "opinion makers" andam por aí uns abencerragens que se julgam detentores da pedra filosofal e que regurgitam em palavras de hoje o lastro da pior tradição autoritária e repressiva ao invectivarem os professores por se manifestarem, chegando ao ponto de colocarem em dúvida a sua dignidade pessoal e profissional como educadores, apenas por não abdicarem dos seus direitos e da sua cidadania activa.
É a vida, e para os professores, habituados a alunos difíceis e alguns mal educados, é apenas mais uma oportunidade para com serenidade e sentido de serviço demonstrarem a essa gentalha de que lado está a razão.

Vitorino dá a táctica ao Governo

Com a devida vénia transcrevemos uma notícia da Lusa. António Vitorino que é um homem inteligente e bem preparado também ainda não percebeu que o problema não é a avaliação. O pior cego é mesmo aquele que não quer ver...Tomem lá um rebuçadinho e deixem-se de protestos.

Educação: Vitorino (PS) sugere avaliação experimental dos professores durante ano e meio
10 de Março de 2008, 21:38
Lisboa, 10 Mar (Lusa) - O dirigente socialista António Vitorino sugeriu hoje ao Governo que adopte um modelo experimental de avaliação dos professores, de um ano ou ano e meio, cuja instância de supervisão seria aberta à participação dos professores.
A posição do ex-comissário europeu foi assumida no seu programa de comentário político, "Falar Claro", na RTP, quando analisava as consequências da manifestação dos professores, no sábado, que juntou em Lisboa cerca de cem mil pessoas.
"Sem recuar, sem ceder, penso que há margem para o Governo encontrar uma solução equilibrada" para resolver o actual diferendo em torno do sistema de avaliação dos professores, defendeu António Vitorino.
Segundo o dirigente do PS, o Governo deve aceitar que a aplicação do novo modelo de avaliação "seja aferida" ao longo do tempo e não concretizado "instantaneamente".
"É possível um sistema avaliação que dê confiança", através da criação de "uma instância que seja aberta à participação dos professores, que poderão monitorizar a sua aplicação", indicou Vitorino.
António Vitorino acrescentou que o sistema de avaliação poderia primeiro ser aplicado de forma "experimental, durante um ano ou ano e meio, mesmo que não seja integral", ou seja, mesmo que não cubra todo o território nacional.
O ex-comissário europeu admitiu ainda que o Governo deverá aceitar "uma simplificação" do sistema de avaliação, assim como rever o grau de descentralização em termos de adaptabilidade do modelo previsto na sua proposta.
"O sistema tem de ser adaptado à realidade em que se vai aplicar mas não pode gerar situações de desigualdade em termos de progressão nas carreiras. O Governo deve estar aberto a ouvir as críticas construtivas", advertiu.
No entanto, o dirigente socialista defendeu que o Governo não poderá ceder na questão de princípio: "É impensável que os professores sejam os únicos funcionários do Estado que não sejam avaliados pelo desempenho das suas funções".

Lusa

domingo, 9 de março de 2008

Salvaguardar a memória

Já uma ou outra vez alguns dos generosos amigos que prestam atenção ao meu blogue se referiram ao facto de eu enquanto DREC ter tido atidudes não consentâneas com as que agora defendo.
Naturalmente, não estou de acordo. Claro que enquanto responsável na região Centro pela Administração Educativa tinha obrigação de executar as políticas superiormente definidas, mas sempre afirmei, e cumpri, que quando entendesse que o seu cumprimento colidia com a minha consciência deixaria as funções.
Quanto ao meu desempenho enquanto DREC, não me compete fazer agora a minha auto-avaliação, mas terei todo o prazer em remeter aos colegas interessados o documento com as conclusões do inquérito realizado junto de todos os conselhos executivos, pouco antes de ter abandonado o cargo a meu pedido, e a que foi dada a divulgação adequada na altura em que foi promovido.
Para o efeito basta que mo peçam para jmsilva@esel.ipleiria.pt

Um problema chamado Ministra da Educação

Seja qual for o olhar que se tenha sobre a manifestação de ontem é impossível não reconhecer o óbvio, está-se perante um dos mais impressionantes e genuinos protestos de uma classe profissional face a políticas de um Governo que quebrou todas as pontes de diálogo e não percebeu, ou fingiu não perceber, que esta equipa do ME, com a Ministra à frente, se transformou num problema e não numa solução.
Ao ponto a que as coisas chegaram dificilmente se encontrará uma solução em que todos salvem a face e não se antevê como pode o Governo continuar a fingir que ignora que mais de metade dos professores sairam à rua para dizer basta de enxovalhos e de mentiras.
A aparição da Ministra na Televisão foi patética ao dizer que não "desiste" e que "os obstáculos se contornam", esquecendo-se de que quem foi à manifestação é quem está nas escolas e que depois do que aconteceu na rua o movimento se vai espraiar dentro das escolas, o que pode levar à completa ingovernabilidade do sistema se os professores utilizarem a força que se provou terem e o ME e o Governo continuarem teimosamente a "olhar para o Céu".
Reside aqui o essencial do futuro. O que fazer com a força que se viu? Desistir não deve fazer parte do léxico, forçar é preciso, com prudência, mas com firmeza, desmistificando a questão da avaliação e colocando o dedo na verdadeira ferida - o concurso para titulares.
É preciso que a sociedade saiba que foi a partir deste concurso que tudo ficou inquinado e que nada justifica os critérios utilizados na sua realização. A avaliação é indispensável, mas tem de ser credível e não pode falhar exactamente num ponto crítico - nos avaliadores. Ora para que alguém aceite ser avaliado é necessário que reconheça a competência de quem o vai avaliar, o que manifestamente não se verifica em muitos casos. Este é que é o busilis da questão.
O resto é miopia política, teimosia e incapacidade de reconhecer que em democracia não se pode governar contra as pessoas.
O Primeiro Ministro não tem opositor à altura, pelo menos de momento, mas quer manter a maioria absoluta em 2009. É altura de perceber que a crise do sistema escolar pode transformar-se num obsctáculo intransponível para alcançar esse desiderato. Está, pois, na hora de substituir a Ministra e algumas políticas no campo da educação, se não quiser ser ele próprio sacrificado no altar da arrogância, da insensibilidade e da falta de tacto político.

terça-feira, 4 de março de 2008

Conselho Científico para a Avaliação de Professores

Personalidades nomeadas pela Ministra da Educação para o Conselho Científico para a Avaliação de Professores

EM EXERCÍCIO EFECTIVO DE FUNÇÕES NA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR OU NOS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO
- Arsélio de Almeida Martins
- Jorge Manuel Horta Trigo Mira
- José Joaquim Ferreira Matias Alves
- Maria João Alves Ferreira Guerra Mexia Leitão
-Mário José de Jesus Duarte Silva
EM REPRESENTAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES PEDAGÓGICAS E CIENTÍFICAS DE PROFESSORES
-Ludgero Paula Nobre Leote
-Matilde Lopes Oliveira Azenha
- Maria Cristina Valente Bastos Dias
- Maria Helena Oliveira Ângelo Veríssimo
- Alexandra Castanheira Rufino Marques
- Ana Paula dos Reis Curado
- António Caetano
- José Manuel Borges Romeiras Palma
- Maria do Céu Neves Roldão
- Maria Eugénia Neto Ferrão da Silva Barbosa
- Maria Helena Mendes Carneiro Peralta
- Natércio Augusto Garção Afonso
EM REPRESENTAÇÃO E INDICADOS PELO CONSELHO DAS ESCOLAS
-Fernando Paulo Mateus Elias
-José Alberto de Queirós Ramos
-Rogério Conceição Bacalhau

A questão central

Com os professores na rua e uma boa parte da opinião pública a mostrar compreensão pelos protestos, mesmo alguma da intelligentia como ainda ontem se viu no Prós e Contras, o Ministério da Educação está em campanha para mostrar "a obra" e criar ruído.
Naturalmente que nem tudo tem sido mau, eu próprio nalguns posts o tenho reconhec ido, e não vale a pena ter visões maniqueístas da realidade, podemos discordar de algumas medidas mas saber reconhecer os aspectos positivos que também os há.
Mas a questão não é essa, isso é querer lançar uma cortina de fumo sobre o essencial, a "questão central" como gosta de dizer Valter Lemos é a forma completamente inábil para não dizer despudoradamente acintosa como os professores têm sido tratados desde o início do mandato desta equipa do ME
Jamais esquecerei uma das primeiras reuniões em que participei enquanto DREC, com todo o estado maior do Ministério, em que logo os professores foram o "bombo da festa" e tendo eu chamado a atenção para a necessidade de a Ministra dar uma palavra de incentivo aos colegas a Sr.ª me ter respondido que os "professores queriam era que andassem com eles ao colo", o que me levou a ripostar em tom de brincadeira se ela às vezes não gostava também de um "colinho". A gargalhada geral não disfarçou o tom de crítica severa aos professores, apesar de quase todos à volta da mesa serem, ou terem sido, professores.
O que neste momento está em causa não é a obra do ME, é o grito de revolta de uma classe farta de ser ofendida e humilhada e como disse outro dia Marcelo Rebelo de Sousa se há coisas positivas para mostrar, o que não teria sido possível fazer se em vez de se estar contra os professores, se tivessem os professores como aliados. Esta é que é a verdadeira "questão central".

domingo, 2 de março de 2008

Notas sobre a gestão escolar

Daniel postou o seguinte comentário em 27 de Fevereiro e a que só hoje respondo por não me ter sido possível fazê-lo mais cedo.
Afinal é favorável ou não à Territorialização?E quem deve gerir a localmente a educação? Tem noção de que os professores são contra isso. Eu não, sou das poucas excepções. O JMS não propõe Alternativas, é preferivel o modelo anterior?
Sobre esta matéria tenho dito e escrito o seguinte, em síntese:
1. O Ministério da Educação devia deixar de administrar as escolas e remeter-se a funções de planeamento, controlo e supervisão.
2. A gestão das escolas devia ser territorializada à escala municipal ou intermunicipal.
3. Em cada município, ou agrupamento de municípios, devia haver um conselho de gestão, eleito democraticamente segundo princípios a estabelecer. de todos os equipamentos escolares, que funcionariam agrupadamente, com unidades de gestão com direcção própria, mas reportando à unidade de gestão central.
4. A autonomia destes agrupamentos de base municipal ou intermunicipal seria total, teriam um orçamento próprio contratualizado com o ME de acordo com critérios a definir e seriam auditados regularmente. Responderiam perante as forças locais e perante o ME e ficavam submetidos às regras de avaliação a definir.
5. A avaliação do desempenho destes agrupamentos devia ficar a cargo de uma Agência de Avaliação, independente e reconhecida internacionalmente.
6. No ano passado, num estudo que realizei, constatei que já existiam 110 agrupamentos de base territorial municipal, o que correspondia a 40% dos municípios. Só falta um enquadramento legislativo diferente. Por isso tenho afirmado que o PS perdeu uma oportunidade histórica de fazer a revolução necessária na gestão do sistema de ensino limitando-se a diminuir a democratização do sistema mas não agindo naquilo que a meu ver era essencial.

sábado, 1 de março de 2008

A ética ou a falta dela

A avaliação dos professores ainda agora vai no adro e já são visíveis os excessos a que o processo pode conduzir se não houver escrutínio público que permita despistar situações para além do admissível.
As apreciações que se seguem são meramente técnicas e sem qualquer juízo de valor sobre os autores(as) da proposta de instrumento de avaliação cujos itens são citados.
Avaliar a dimensão ética é já de si bastante complexo, dada a relatividade de muitos dos conceitos em causa. Normalmente, a respeito da formação dos professores, fala-se em ética e deontologia profissionais, exactamente para circunscrever os domínios em apreço ao estrito exercício da profissão.
Dou um exemplo. Admitindo que vem a propósito numa aula, deve um professor defender uma determinada orientação sexual? Deve fazer a apologia das relações homosexuais? Deve defender as heterosexuais? Naturalmente que não. Esta é uma matéria do foro individual e o que o professor deve fazer é precisamente não tomar partido, não confundir a sua opinião ou a sua orientação individual com o que deve ser uma atitude profissional de neutralidade, limitando-se a informar e a ajudar os alunos a recolherem mais informação que lhes permita formular a sua própria opinião.
Bom, mas o professor tem todo o direito de exprimir os seus pontos de vista a este respeito com total liberdade, seja na escola ou fora dela. A única reserva é não o fazer nas aulas ou com os alunos, porque não tem esse direito.
Quem fala da orientação sexual, fala das suas opções políticas ou outras. Há uma obrigação de reserva exclusivamente do domínio da deontologia, se se quiser da ética profissional, que se expressa na salvaguarda da influência ilegítima sobre os alunos.
Por isso é tecnicamente errado pretender avaliar atitudes de docentes na dimensão ética (qual ética) com um parâmetro do tipo "Verbaliza a sua insatisfação/satisfação face a mudanças ocorridas no Sistema Educativo/na Escola através de críticas destrutivas potenciadoras de instabilidade no seio dos seus pares."
Mas o processo torna-se ainda mais incorrecto quando a "Fonte dos dados" é o "Livro de registo de ocorrências do CE". Que critérios presidem ao registo destas ocorrências? Quem faz o registo? Que princípio legal ou regulamentar fundamenta a existência deste livro? Quem pode a ele ter acesso? Em que condições?
As interrogações são intermináveis. O que é uma "crítica destrutiva"? Por exemplo, afirmar que a equipa do ME tem sistematicamente enxovalhado os professores, é uma crítica destrutiva? Talvez para a Ministra, não para a esmagadora maioria dos professores. Então em que ficamos, qual o ponto de vista a tomar em conta?
E o que é "potenciador de instabilidade no seio dos seus pares"? Dizer a verdade? Dizer mentiras? Apoiar a política do ME, criticar asperamente a política do ME? Em que ficamos, qual o ponto de vista a tomar em conta?
O mesmo se passa com o item seguinte:
"Verbaliza a sua insatisfação/satisfação face a mudanças ocorridas no Sistema Educativo de forma serena e fundamentada através de críticas construtivas potenciadoras de reflexão."
Curiosamente agora a fonte dos dados já não é o "Livro de registo de ocorrências do CE" mas as "Actas do Conselho Executivo". Mas como é feito o registo nas actas? Sendo certo que as actas se limitam a transcrever factos, neste caso ocorridos durante as reuniões do CE, este parâmetro pressupõe que o docente seja chamado ou vá de livre vontade a pelo menos uma reunião do CE para fazer a sua profissão de fé num tom de "crítica construtiva" para que o CE dela possa tomar conhecimento.
Na situação anterior, atitude sobre a qual impende necessariamente um juízo negativo, presume-se que pode um amanuense incógnito escriturar o "Livro de registo de ocorrências do CE", agora, tratando-se de uma atitude positiva, manda a dignidade do acto que seja escriturado nas "Actas do Conselho Executivo" certamente pelo respectivo secretário.
Finalmente, o último parâmetro da série "É um agente de mudança apresentando sugestões nos órgãos próprios que visam a melhoria da qualidade do ensino e da educação que se pratica na escola.", a fonte dos dados não é referenciada, admitindo-se que a elevação do comportamento, por ser pública, dispense registo.
O professor que for considerado "agente de mudança" "não verbaliza", "apresenta sugestões", certamente por escrito, se não verbalizava, e se o fizesse era classificado inexoravelmente noutro item menos honroso. Neste caso prevê-se que o comportamento seja avaliado pela posição adoptada nos "órgãos próprios", o que parece aceitável. Mas então só quem não verbaliza é que tem órgãos próprios para demonstrar que é agente de mudança? E os que verbalizam, não podiam verbalizar também nos órgãos próprios? E sendo assim, verbalizassem bem ou mal não estariam, cada um à sua maneira a ser agentes de mudança? Ou o impulso para a mudança só está ao alcance dos que apresentam sugestões e não dos verbalizam o que lhes vai na alma?
E "a melhoria da qualidade do ensino e da educação que se pratica na escola" é um exclusivo dos que fazem sugestões? Quem tem uma posição crítica e por se sentir livre a verbaliza não pode fazer sugestões? Ou se verbaliza fica impedido de sugerir? E quem defende melhor a qualidade? Há critérios fechados para defesa da qualidade? Por exemplo, defender a qualidade é dizer amen à política do ministro da nossa cor política, é dizer amen ao Conselho Executivo, ou defender a qualidade é defender, antes de mais, a afirmação de uma cidadania plena que se expressa de múltiplas e variadas formas desde a verbalização sonora de uma crítica contundente, à verbalização tranquila de uma crítica amena, à apresentação de sugestões nos órgãos próprios?
Bom, isto de avaliar não é fácil, os avaliadores precisam de preparação e os instrumentos de avaliação de ser tecnicamente correctos e adequados às situações em que vão ser utilizados.
O melhor meio de isso se conseguir é sujeitá-los a escrutínio público. Quanto à ética, ou à falta dela, há ainda muito trabalho a fazer.

Entrevista Região de Leiria

O jornalista Carlos Almeida, do semanário Região de Leiria, solicitou-me, na passada terça-feira, que lhe respondesse por escrito às questões seguintes.

A revolta dos professores é justificada?
Mais do que justificada. Os professores têm sido enxovalhados e desacreditados no que têm de mais sagrado, a sua honorabilidade profissional.

Há medo nas escolas?
Quem o confessa é quem lá trabalha e têm-me chegado ecos desse sentimento através de professores e de gestores escolares.

O que está errado em toda esta equação: a reforma, a ministra da Educação ou os professores?
O que está errado é pretender-se fazer reformas, necessárias diga-se, sem contar com a colaboração dos professores e mesmo contra os professores. É uma ilusão pensar que isto é possível. O que esta equipa do ME, com o apoio expresso do Primeiro Ministro, anda a fazer é a desestabilizar as escolas convencida de que vai conseguir mudar o rumo da educação. Quando a situação se deteriorar completamente vão-se embora e o sistema fica pior do que estava.

Maria de Lurdes Rodrigues tem condições para continuar no cargo?
Objectivamente tem enquanto o Primeiro-Ministro assim o entender. Mas depois das declarações feitas hoje (terça-feira) pela nova Ministra da Saúde acerca da necessidade de conseguir a colaboração dos profissionais da saúde para as reformas que quer fazer, pois contra eles não se pode fazer nada, não sei como podem coexistir no seio do mesmo governo duas Ministra com pontos de vista antagónicos sobre a forma de gerir os recursos humanos de que dispõem.

Identifique a principal virtude e o principal defeito da actual política de educação?
Virtude - a capacidade demonstrada no início do mandato para definir os principais problemas estruturais que afectavam/afectam o sistema educativo. Defeito – a incapacidade de mobilizar os profissionais da educação para as reformas pretendidas e com isto desestabilizar as escolas e criar um clima completamente oposto ao que é desejável em instituições educativas.

Na reunião promovida pelo Movimento em Defesa da Escola Pública, em Leiria, alguns docentes denunciaram a existência de grelhas de avaliação que levavam em conta a posição dos professores em relação à política educativa do governo. Como comenta?
Trata-se de uma situação absurda e ilustra como se pode ser "mais papista do que o Papa". Infelizmente, Portugal tem uma larga tradição de espias e bufos, denunciantes e similares e, pelos vistos, há quem não queira deixar morrer a tradição. Acredito que essas situações serão corrigidas de imediato.