terça-feira, 29 de abril de 2008

Os jovens e a política

A propósito das comemorações do 25 de Abril o Presidente da República constatou, através de um estudo da Universidade Católica, que os jovens portugueses são ignorantes em política. Só os jovens? Se tivessem feito as perguntas aos adultos receio que o resultado fosse ainda pior.
A política está transformada numa forma mais ou menos espúria de gestão pragmática, cada vez mais despida de ideologia e o "centrão", que é um pântano sôfrego, afoga tudo e todos.
Agora mandas tu, logo mando eu, e depois vamos ambos para grandes empresas estatais, ou com quem fizémos negócios em nome do Estado, tratar da nossa reforma.
Neste caldo de cultura é mais interessante saber as notícias das revistas côr de rosa que infestam as bancas do que saber quantos países constituem a União Europeia ou quem foi o "cota" eleito pela primeira vez Presidente da República.
Entre sms, shotes e umas pastilhinhas para manter o espírito desperto na rave de sexta-feira não cabem considerações elevadas sobre como governar as sociedades, reduzir as injustiças ou acabar com a pobreza no mundo.
O que nos salva é que os jovens são o futuro.

domingo, 27 de abril de 2008

Lembram-se do "Vai-te f....!"

A frase chocou algumas pessoas. É natural, mas a linguagem dos alunos às vezes é agreste. Mais do que nos chocarmos, é necessário sabermos lidar com ela.
Pois o rapaz acabou por passar incólume, porque não se provou que a frase fosse para o professor. As testemunhas, naturalmente todos alunos, foram unânimes em afirmar que o dito tinha sido para um colega que estava à frente. E a coisa morreu por ali.
Moral da história, se o professor não consegue resolver uma questão destas na sala de aula, deve certificar-se que pode provar a sua versão, caso contrário acaba diminuído perante os alunos.
E o colega, já pensou como agiria se fosse consigo?

Ainda as unidades de gestão escolar de base concelhia

Admito que em certos concelhos o número de escolas e agrupamentos é elevado, mas o problema em termos de gestão é sempre de escala. O essencial no modelo que defendo não é a escala, mas o princípio. O que se passa com o modelo actual é que cada escola ou agrupamento é uma unidade de gestão autónoma, o que só faz sentido nos concelhos onde não existem mais estabelecimentos de ensino.
Mas veja-se o que acontece nos outros casos. Alguém ou alguma entidade coordena as várias escolas e agrupamentos de um mesmo concelho? Não. Cada uma gere-se como sabe e pode, não há articulação curricular, não há gestão conjunta de recursos, sejam materiais, sejam humanos. Há até formas diversas de tratar os mesmos assuntos, de lidar com os alunos, com os pais, e por aí fora...
Há países onde estas questões estão resolvidas há muitos anos, naturalmente que cada escola continua a ter uma direcção própria, só que subordinada a uma direcção concelhia a quem compete a administração educativa a nível local.
Sei que não é esta a nossa tradição, mas não tenho dúvidas que o caminho é por aqui. Há quase vinte anos, quando responsável pelo pelouro da educação da Câmara de Leiria e quando ainda ninguém por cá falava em escolas básicas integradas já eu defendia a criação na Maceira de um "Complexo Escolar Integrado".
Na altura a DREC invocou que não era possível porque a legislação o não previa, o que era em parte verdade, mas se não previa e a realidade aconselhava (já nesse tempo coexistiam num espaço contíguo todas as valências educativas do centro da freguesia) era por aí que se devia ter ido.
Assim aconteceu com Roberto Carneiro e com a criação das EBI e assim veio a acontecer com a criação dos agrupamentos de escolas de nível concelhio, que já são hoje mais de 40% do parque escolar estatal do país.
Por isso, não desisto da ideia e estou convicto que esse será um próximo passo.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Agregação de agrupamentos

DecretoLei n.º 75/2008, de 22 de Abril de 2008

Artigo 7.º

Agregação de agrupamentos

Para fins específicos, designadamente para efeitos da
organização da gestão do currículo e de programas, da avaliação
da aprendizagem, da orientação e acompanhamento
dos alunos, da avaliação, formação e desenvolvimento
profissional do pessoal docente, pode a administração
educativa, por sua iniciativa ou sob proposta dos agrupamentos
de escolas e escolas não agrupadas, constituir
unidades administrativas de maior dimensão por agregação
de agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas.
Aqui está uma parte da solução que defendo - unidades de gestão integrada de base concelhia - pena é que o governo tenha sido tão tímido e aquilo que devia ser a regra seja apenas a excepção. Se esta solução fosse generalizada teríamos uma revolução equivalente à que ocorreu com a criação dos agrupamentos e estaríamos no caminho certo para mudar a face da administração educativa. Só isto não chega, mas já seria um grande passo.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Aí está o novo modelo de gestão

Foi hoje publicado o Decreto-Lei n.º 75/2008, de 22 de Abril, que "aprova o regime de autonomia administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário".
É uma nova página que se inicia e uma mudança de paradigma das direcções colegiais, herança da revolução de 74, para o órgão unipessoal - director. Este é apenas um aspecto simbólico porquanto é toda uma filosofia de gestão e de organização das escolas que agora começa a mudar.
Fica a referência e mais tarde voltaremos ao assunto com uma apreciação crítica.
Infelizmente continua-se a deixar a gestão das escolas atomizada e não se avançou para o que seria uma verdadeira revolução no sistema se se tivessem criado já unidades de gestão de base territorial concelhia. É certo que 40% do país já dispõe de agrupamentos de escolas concelhios, mas devia-se ter aproveitado o momento para tornar regra a gestão integrada de todas as estruturas escolares estatais em cada concelho, independentemente do seu nível.

domingo, 20 de abril de 2008

Caius Julius Lacer

É sempre uma enorme emoção poder contemplar um monumento grandioso e que dezoito séculos depois de ter sido construído ainda continua a desempenhar a sua função de ligar as margens do poderoso Tejo e deixar passar pessoas e bens.
O mundo mudou muito desde então, mas a ponte de Alcántara lá continua sólida e esbelta sem que as águas do rio lhe provoquem mossa.
Por isso a minha modesta homenagem ao ilustre arquitecto Caius Julius Lacer que, como ele próprio escreveu, construiu "uma ponte para todos os séculos".
Ver mais em:

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Virar a página

A Ministra da Educação fala em "virar a página". Mais vale tarde do que nunca.
O ME, através do Gabinete de Comunicação, fez circular um comunicado em que, a propósito do entendimento com os sindicatos, vem elencar o que de positivo, na sua opinião, se fez até agora.
Fez algumas coisas importantes, é verdade, mas nada desculpa nem justifica os prejuízos deliberados ocasionados na imagem social dos professores que, desde o primeiro momento, foram, estupidamente, tratados como as ervas daninhas do sistema.
Tinha sido possível fazer o que o ME acha positivo e muito mais se a relação com os professores tivesse sido diferente. É assim que as contas têm de ser feitas.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Entendimento ME-Sindicatos

Se quiserem saber mais sobre o assunto...é só clicar.

1 – Memorando disponível em http://www.min-edu.pt/np3/1900.html.

2 – Dossier Estatuto da Carreira Docente em http://www.min-edu.pt/np3/56.

De Espanha nem bom vento...

"De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento!", assim se dizia em tempos e talvez alguns, mais patrioteiros, continuem a dizer. Mas a Espanha de hoje pouco tem que ver com a Espanha que conheci na minha infância, ainda a sarar as feridas da guerra civil e tanto ou mais conservadora do que Portugal.
Por razões de serviço tenho estado por aqui numa universidade e estou alojado numa residência de estudantes que tem um quarto para professores.
As refeições são tomadas na cantina da residência e no primeiro dia que aqui cheguei sentei-me discretamente numa mesa de quatro lugares e preparei-me para comer sozinho pois não conhecia ninguém e os outros comensais eram apenas alunos.
Qual não é o meu espanto quando três alunos se dirigem para a mesa, me cumprimentam e se instalam como se todos fôssemos velhos conhecidos. Pensei que tinha sido um acaso mas verifiquei que ninguém se levantou até eu ter terminado.
Como sempre que me sentava vinham alunos para a mesa, resolvi perguntar se era habitual. E assim fiquei a saber que nesta residência não se deixam pessoas comer sozinhas, por educação e porque nesta região se mantém o hábito de a família se juntar à hora das refeições.
Estes alunos, na generalidade oriundos de famílias não muito abonadas, muitos deles são bolseiros, o que lhes permite pagar os cerca de 550 € de mensalidade, deixaram-me verdadeiramente sensibilizado.
Ainda perguntei se isto era uma imposição da direcção, mas um dos alunos do 1.º ano, portanto novato aqui, logo se apressou a explicar que quando aqui chegou "aprendeu" com os mais velhos que era importante não apenas ter o "seu grupo", mas aproveitar as refeições para conviver com outros colegas, e uma forma de o fazer era juntar-se sempre a quem estivesse sozinho. Ora aqui está uma lição de civismo que jamais esquecerei. Os alunos têm muito para nos ensinar e a Espanha também.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A farra vista por quem a pratica

Estava eu a escrever o post anterior quando me cai na caixa de correio um verdadeiro furo jornalístico. O Região de Leiria (http://www.regiaodeleiria.pt/), um dos melhores semanários regionais do país, teve uma ideia verdadeiramente interessante. Pediu a duas alunas do Instituto Politécnico de Leiria, uma caloira e uma finalista, que passassem para blogues pessoais algumas das suas experiências e emoções decorrentes das vivências da semana académica, que está em curso.
O resultado é deveras curioso. São dois testemunhos que nos ajudam a perceber melhor o mundo dos alunos e isto, só por si, vale uma espreitadela.

As guerras perdidas dos alunos do superior

De repente, as propinas vieram de novo à superfície e, pasme-se, Bolonha. Com tanta coisa por onde podiam pegar, agarram-se a "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma".

Quanto às primeiras, muito teríamos de discutir sobre o assunto, mas o que é verdade é que todos os dias temos provas evidentes de que muitos alunos não só não percebem a responsabilidade social que lhes incumbe por poderem beneficiar de estudarem no ensino superior, como ainda resulta claro que desperdiçam oportunidades e delapidam dinheiros públicos quando, por exemplo, se lhes criam cursos de recuperação e a maioria não põe lá os pés. "Contra as propinas!" é um bom slogan, mas Contra o mau uso que certos alunos fazem do ensino superior !" também.

Relativamente a Bolonha, em que mundo vivem este alunos? Ainda não perceberam que são cidadãos do mundo e que Bolonha é o passaporte para a sua inserção como estudantes e profissionais num mercado cada vez mais global? Se tivessem vivido no tempo do Estado Novo quando o país se limitava a olhar para o umbigo, isolado de tudo e de todos, talvez apreciassem mais o bem que têm e que desaproveitam

terça-feira, 15 de abril de 2008

Acordos e desacordos

Era fatal como o destino. A unidade dos professores sempre foi uma ilusão conjuntural fundada na revolta mas sem solução de continuidade. Todos o sabiam, embora agora alguns façam por ignorar. Cada dia que passa a imagem dos professores fica ainda mais afectada e agora já não é a Ministra, o ME ou o Governo, são os próprios professores (alguns, já se vê) a encarregar-se disso, com os sindicatos á frente.
No fundo, o que se pensa é que os professores não querem ser avaliados, que os sindicatos têm a sua agenda própria condicionada a questões políticas e muito pouco a matérias educativas, que a classe que foi capaz de se mobilizar para uma manifestação não consegue uma saída construtiva para o atoleiro a que a conduziram as políticas do ME e a acção dos sindicatos.
O novo decreto de gestão já foi promulgado. É mais uma peça do puzzle que o ME vem construindo. Entretanto a sociedade começa a ficar farta do ambiente de agitação que se vive no ensino em geral e os professores recomeçam a ser apontados como os maus da fita.
Começa a ser tempo de cada escola olhar para si e procurar soluções para os problemas que a afectam. Parece contraditório, mas é uma espécie de princípio de realidade. Se há escolas que funcionam bem no universo que todos conhecemos é porque é possível encontrar soluções mesmo num contexto pouco favorável. As boas práticas de outros podem ser a chave para os problemas de terceiros.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Outros países, os mesmos problemas

Em Portugal o Superior está em polvorosa. Foi Bolonha, cujos ecos hão-se perdurar por muitos e bons anos, agora são os novos estatutos, não tarda serão as novas carreiras; estas talvez fiquem para a próxima legislatura que agora a ordem é para apagar fogos e não para os atear.
Pelo meio há as questões do financiamento, do reajustamento da rede, dos consórcios, para já não falar dos cursos inviáveis por falta de alunos e dos professores excedentários, entre outros.
Mas se passarmos a fronteira a situação não é melhor, talvez até seja pior, pois em Espanha a politização das instituições de ensino superior, que aqui dependem das autoridades regionais, é bem superior ao que se passa em Portugal.
Com o novo regime jurídico veremos o que vai acontecer, designadamente com a Presidência do Conselho Geral entregue a uma personalidade externa às instituições e o reforço da "sociedade civil" no governo de universidades e politécnicos.
Sabendo-se que não há soluções perfeitas, o retrato do que se passa em Espanha é francamente desanimador ou então são os meus interlocutores que são muito pessimistas.
Idêntica é a má opinião dos políticos, mas este é um problema que vem de muito longe e que só é abafado nas ditaduras. Assim sendo, dizer mal dos políticos é bom sinal. Viva a democracia.

domingo, 13 de abril de 2008

A rentabilidade dos cursos superiores

Portugal é um dos países em que tirar um curso superior mais compensa. Em média, um licenciado português recebe 80% mais do que um trabalhador que tenha concluído apenas o ensino secundário. É um dos dados de um relatório da OCDE noticiados esta terça-feira pelo jornal "Público".
Na análise "
Education at a Glance 2007", a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) compara vários indicadores relativos aos sistemas de ensino dos 25 Estados-membros da organização. E, se é um facto aplicável a todos os países que o salário e a facilidade em encontrar emprego crescem à medida que aumentam as habilitações académicas, esta relação é "particularmente forte" em Portugal, nota o jornal.
Portugal registou também um aumento significativo no número de inscritos do superior. Na faixa etária entre os 25 e os 34 anos, 19% tem licenciatura. Mesmo assim, o valor ainda está bastante abaixo da média da OCDE (32%).
Apesar dos progressos, Portugal é o país com "maior selectividade no acesso ao ensino superior", para a qual contribui o baixo estatuto socioeconómico de muitos países
(sic)[pais/famílias]. Já em países como a Irlanda, Espanha e Finlândia as habilitações académicas dos pais têm pouca influência no percurso dos filhos.
Ineficácia do sistema
Nos ensinos básico e secundário a despesa com cada estudante aumentou 50% entre 1995 e 2004. Mas no superior a despesa por estudante caiu. O investimento do Estado português em cada estudante do superior é de 6.703 euros, quando a média da OCDE se situa nos 9.613 euros.
Ao todo, 5,4% do Produto Interno Bruto do país é dedicado à educação, mais quatro pontos percentuais do que em 1995. Mesmo assim, graças a vários factores (como as características socioeconómicas dos alunos), o sistema é ineficiente, apresentando piores resultados do que países com menor investimento.


Ver mais:
http://jpn.icicom.up.pt/2007/09/18/ocde_portugal_e_dos_paises_em_que_a_formacao_superior_mais_compensa.html

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A estratégia do pau e da cenoura

Pois é, agora estamos já, claramente, no tempo da cenoura. Diálogo com os sindicatos, há divergências mas adivinha-se que as coisas se vão compor, com as autarquias, já não se fecham escolas sem o parecer positivo das autarquias, a postura é seráfica, os elogios às escolas e aos professores substituiram-se às anteriores acusações e faltas de respeito profissional.
Ainda bem, não aproveitava a ninguém o clima de crispação que se foi agudizando ao longo da gestão desta equipa do ME. Os desafios colocados ao sistema de ensino português são muitos e todos relevantes para que gastemos o nosso tempo em discussões que só nos podem dividir e distrair do essencial.
Mas é necessário não perder as referências e a atitude de diálogo não é suficiente para branquear os imensos prejuízos para a imagem social dos professores decorrentes da verdadeira ofensiva contra eles levada a cabo metódica e sistematicamente durante quase três anos, nem para anular as injustiças, muito em particular, do concurso para titulares.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Vai-te foder!

Voltemos ao tema da gestão de turma. Mais um caso verídico.
Um professor, por acaso de Inglês, participa à direcção da escola que o aluno x, durante a aula y, lhe disse "Vai-te foder!". Perante a situação o professor mandou o aluno sair da aula, mas este não acatou e negou ter dito a frase dirigida ao professor. O professor não apresentou testemunhas dizendo que todos os alunos tinham ouvido o que o outro dissera.
De imediato a direcção instaura um processo de averiguações. O aluno é ouvido, nega e defende-se dizendo que a frase tinha sido dita para o colega da frente que o estava a chatear, reforçando o depoimento com a indicação de dois ou três alunos que estavam em mesas próximas e que podiam confirmar o que dizia.
Ouvidos os outros alunos, todos confirmam a versão do presumível infractor. Ouvido, de novo, o professor e perante os depoimentos dos alunos testemunhas sugere que sejam ouvidos outros alunos. O instrutor do processo dirige-se á turma e questiona se alguém mais está disponível para prestar declarações. Mais alguns alunos confirmam que a frase foi dita para o aluno da frente, os restantes ou não se manifestaram ou declararam não ter ouvido.
- Qual teria sido a decisão da direcção? (Depois revelo)
- Se fosse o professor como teria agido?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

As propostas do ME

O Gabinete de Comunicação do Ministério da Educação divulgou uma nota de imprensa sobre a reunião ontem realizada com os sindicatos. Sem comentários, trancreve-se o essencial.

O Ministério da Educação apresentou propostas no sentido de continuar a melhorar as condições de concretização da avaliação de desempenho do pessoal docente, designadamente reforçando as garantias dos avaliados. Assim, propôs que os eventuais efeitos negativos resultantes das classificações de regular e de insuficiente atribuídas no final do primeiro ciclo de avaliação só se produzam efectivamente se essas classificações forem confirmadas numa segunda avaliação intercalar a realizar no ano imediato. De igual modo, propôs-se criar condições para a participação das associações sindicais no acompanhamento e monitorização do sistema de avaliação de desempenho docente e para a negociação de um crédito de horas destinado à organização da avaliação de desempenho no próximo ano lectivo.

Para além de matérias relativas à avaliação de desempenho do pessoal docente, o Ministério da Educação apresentou propostas no sentido de melhorar as condições de trabalho dos professores, nomeadamente em matéria de horários. Propôs a fixação de um número mínimo de horas para a componente não lectiva de trabalho individual, isto é, para o tempo, dentro do horário de trabalho, destinado à preparação de aulas, elaboração e correcção de provas, realização de estudos e outras actividades afins. Do mesmo modo, mostrou-se disponível para negociar as circunstâncias em que a formação contínua deve ser considerada no horário de trabalho dos professores.

O Ministério da Educação apresentou ainda propostas que permitirão melhorar as perspectivas de desenvolvimento da carreira, tanto dos professores titulares como dos professores contratados. Por um lado, por meio da criação de um escalão adicional da categoria de professor titular, no topo da carreira, criando a oportunidade de progressão. Por outro, abrindo a possibilidade de que todos os professores contratados, mediante avaliação, possam ver considerado o tempo de serviço para efeitos de integração na carreira.

Finalmente, propôs-se definir regras especiais de acesso à categoria de professor titular para os professores em exercício de funções ou actividades de interesse público.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Gritos sufocados nas gargantas

Os ecos da manif dos cem mil são cada vez mais frágeis e ao ver nos telejornais a representação dos sindicatos que andam em reuniões com o ME não consigo deixar de pensar que estamos perante mais um daqueles momentos em que a esperança dos professores vai morrer ingloriamente face a uma ópera-bufa em que sindicatos e ME representam cada um o seu papel, uns ameaçando, outros reivindicando, uns seráficos, outros ameaçadores, enquanto nas escolas o rolo compressor da máquina administrativa e a política do pau e da cenoura fazem marchar o sistema sem grandes alterações nem alaridos.

Os gritos de ontem já começam a sufocar nas gargantas e a força das ruas está em vias de ser derrotada pela burocracia reivindicativa sem soluções nem alternativas que não sejam mais folclóricas do que eficazes porquanto não se antevê como vão as escolas resistir à chantagem da avaliação obrigatória dos contratados. "As escolas estão todas a trabalhar", diz a Ministra e ninguém duvida. Havia de ser diferente? Alguém acredita que os professores estejam em condições de suportar um movimento reivindicativo que vá até às últimas consequências?

Quando se fizer a história deste período lá constará que o problema foi a forma inábil como foi negociado o novo estatuto de carreira, mais o famigerado concurso para titulares, agora objecto de referência de inconstitucionalidade numa norma (só numa norma Srs Conselheiros?). Chegados à avaliação já não há recuo, a teia já é suficientemente forte para romper e o terceiro período joga a favor do Governo. Como eu gostaria de estar enganado.

domingo, 6 de abril de 2008

Henry Mintzberg e as descobertas do ME

Para quem não conhece, Mintzberg é um dos gurus dos estudos das organizações e elaborou uma classificação que se tornou clássica e é uma referência incontornável.
Entre as configurações organizacionais por ele conceptualizadas estão as Burocracia Profissionais, onde se incluem as escolas. Não vou aqui tratar do assunto, mas para quem o quiser aprofundar pode consultar Mintzberg, H. (1995). Estrutura e dinâmica das organizações. Lisboa: Publicações D. Quixote.
Trago aqui o assunto apenas para deixar uma pequena reflexão sobre tudo o que está a acontecer na educação em Portugal e ao clima de crispação generalizada que pauta as relações da equipa dirigente do ME com os professores, na perspectiva reformadora.
Diz o autor;
Na Burocracia Profissional, a mudança não provém de novos administradores que tomam os seus postos e anunciam reformas maiores, nem das tecnoestruturas governamentais que procuram controlar os profissionais. A mudança parte mais do processo, lento, de mudança dos profissionais - dos procedimentos de avaliação dos candidatos, da formação (ideais assim como competências e conhecimentos), e depois disso, da motivação dos candidatos no aperfeiçoamento dos seus conhecimentos profissionais.
E mais,
(...) os controlos externos podem ter como consequência reduzir a incitação ao aperfeiçoamento, e mesmo a incitação à inovação (que já é fraca, mesmo nos melhores momentos da Burocracia Profissional).
Comparem-se as opiniões de um dos maiores conhecedores das organizações com a forma como o ME gere as questões profissionais dos docentes e uma de duas, ou Mintzberg está errado e é preciso avisá-lo ou o ME anda a tentar inventar uma roda quadrada convencido de que está a prestar um grande favor ao País.
Você decide.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Liderança, liderança, liderança

Dois ex-ministros da educação, Roberto Carneiro e Marçal Grilo, aliás duas referências enquanto governantes, vieram a público em entrevistas dizer coisas semelhantes sobre uma das falhas graves do sistema de administração e gestão escolar em Portugal - a falta de liderança nas escolas.
Já aqui tenho falado do tema e nesta matéria até estou em sintonia com a equipa do ME, não há escolas boas sem bons líderes e o sistema de gestão que temos não fomenta propriamente o aparecimento de lideranças de qualidade.
Apesar disso há bons líderes escolares em Portugal e nas escolas que dirigem os problemas existem como nas outras mas têm dimensões significativamente diferentes. Por razões investigativas conheço muito bem duas escolas modelares a vários títulos. Não quero ser injusto para todas as outras que não conheço tão bem, mas estas são um exemplo e os seus presidentes são líderes de primeira água com quem todos temos a aprender.
Estudá-las é um exercício estimulante, tomar contacto com as suas boas práticas um imperativo, perceber como podem dois presidentes, rodeados de boas equipas e com professores mobilizados transformar a regularidade em excepcionalidade, uma necessidade para se encontrarem melhores soluções para todos.
Por favor tentem conhecer, se não conhecem já, o Carlos Monteiro e o João Paulo Mineiro e não deixem de visitar a escola Joaquim de Carvalho, na Figueira da Foz, e a Quinta das Palmeiras, na Covilhã. Vão ver que não se arrependem e certamente encontrarão inspiração e estímulo.
Claro que conheço outros bons líderes escolares, mas não os refiro porque não disponho da informação que tenho sobre estes dois colegas e sobre as suas escolas e deixo este espaço aberto a quem queira sinalizar outros exemplos de grandes lideranças e bons projectos educativos.

Mãos ao ar!

O Procurador Geral da República foi falar com o Presidente da República sobre a violência nas escolas. À saída do Palácio de Belém disse coisas interessantes, que o Presidente está preocupado e muito bem informado e que há alunos que vão para as escolas com armas de grosso calibre " para já não falar nas facas".
Se o Presidente está bem informado, não parece. Ou só agora é que se informou? Quem é que já se esqueceu que o Presidente apoiava publicamente a Ministra, se é que ainda não apoia, que sistematicamente tem desvalorizado o problema, assim como toda a equipa do ME?
Não sei porquê lembrei-me de quando era director de uma escola e uma professora acabada de chegar perguntou "Qual é a política da escola em relação à pastilha elástica?" Bons tempos!
Hoje a pergunta podia ser "Qual é a política da escola em relação às armas brancas?" Ou num caso mais radical, "em relação às 9mm (pistolas de guerra)?"
Se fosse a Ministra a responder, não tenho dúvidas, seria qualquer coisa deste género "Quais armas brancas, quais pistolas de guerra, aqui a malta só masca pastilhas elásticas!!!", o que certamente surpreenderia o Procurador, que está muito preocupado, e o Presidente da República, que está muito bem informado.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Carta aberta a Sua Excelência a Sr.ª Ministra da Educação

Com a devida vénia transcrevo a carta de um colega devidamente identificado. Curto e duro, mas melhora o humor, como diria o meu tio Juvenal.

Ílhavo, 24 de Março de 2008

Segunda carta aberta à Sra Ministra da Educação

Senhora Ministra da Educação

Excelência:

Há dias, uma jornalista tentava relacionar o acontecido na Escola Carolina Michaelis ( se fosse viva morreria de vergonha…) com o Estatuto do Aluno e V. Excia perguntava-lhe se o facto de haver um Código da Estrada impedia que houvesse acidentes de automóvel. A jornalista não lhe respondeu mas vou responder-lhe eu.

1. É evidente que o Código da Estrada não impede os acidentes de automóvel se os instruendos puderem faltar às aulas desse código e se no fim obtiverem a carta sem esforço.
É evidente que não impede se os instruendos puderem faltar ao respeito ao instrutor porque no fim ele vai ter de o aprovar para não prejudicar as estatísticas.

2. V. Excia é muito esperta mas parece não ter a inteligência suficiente para se aperceber da situação incontrolável que criou desrespeitando, humilhando e atirando para cima dos professores as culpas de tudo o que está mal nas escolas.
Mais uma vez V. Excia não tem uma palavra para dizer aos alunos e suas famílias como parte interessada no problema. A culpa, segundo o governo, é sempre dos professores e todos os outros estão inocentes e imaculados. V. Excia continua a dar carapau a um chefe de cozinha e a exigir-lhe que prepare lagosta suada para o jantar. E percebe-se facilmente porquê: porque o que interessa é desmoralizar os professores e diminuí-los aos olhos do povo para depois se lhes poder pagar pouco e não permitir que progridam na carreira. “Não merecem!, Não fazem nada!, Nem os nossos filhos conseguem educar!”

3. “Força, Ministra!”, continue a desculpar despudoradamente os alunos e as suas famílias e estará a criar uma geração que, para além de ignorante, não respeitará ninguém no autocarro, na rua, no trabalho, em casa.
“Força, Ministra!”, continue a hostilizar os professores se acha que foi desmoralizando os seus soldados que os generais ganharam batalhas.
“Força, Ministra!”, continue surda aos gritos de “a velha vai cair, altamente!” e, em breve, as salas de aula passarão do circo actual para coliseus onde os professores serão imolados para gáudio de alguns adolescentes imbelicizados por telenovelas e publicidade idiotas.
“Força, Ministra!”, continue a dizer que a Oposição está a fazer aproveitamento político da situação e um dia estará mais só e indefesa do que a Professora de Francês mas nesse dia não conte comigo para lhe estender a mão.

Neste momento V. Excia lembra-me um pastor perdido na serra a quem as ovelhas há muito não respeitam. A seu lado só tem os cães mas esses não fazem parte do rebanho…

Grato pela atenção



Domingos Freire Cardoso
Rua José António Vidal, nº 25 C
3830 - 203 ÍLHAVO
Tel. 234 185 375
E-mail: dfcardos@gmail.com

terça-feira, 1 de abril de 2008

Estatal versus privado

Um bloguista anónimo entendeu fazer alguns comentários sobre as minhas opções familiares em matéria de escolha da escola para os filhos. Naturalmente que quem se expõe sujeita-se a comentários de toda a ordem e eu aprendi já há muitos anos a conviver bem com isto.
No entanto, acho oportuno esclarecer que defendo o direito inalienável à privacidade e entendo que o ter-se actividade pública não autoriza quem quer que seja a devassar a nossa intimidade.
Posto isto, não tenho qualquer rebuço em deixar claro que considero que numa sociedade moderna o ensino estatal e o privado são ambos opções legítimas, sendo que Portugal, como muitos outros países, promovem o direito à educação através de escolas geridas directamente pelo Estado e escolas geridas por entidades privadas, embora subvencionadas para que possam prestar um serviço equivalente às estatais.
O preconceito contra o ensino privado não faz parte do meu portfólio de ideias e práticas e respeito igualmente um e outro, bem como os profissionais que prestam serviço em cada um. Sou um homem da escola pública, onde sou professor há mais de trinta anos, o que nunca me inibiu de colaborar com o ensino privado sempre que para isso houve oportunidade.
Enquanto cidadão e pai escolho as escolas para os meus filhos em função de critérios de qualidade, seja de ensino seja de serviços complementares prestados. Se são estatais ou privadas é irrelevante.