domingo, 31 de agosto de 2008

A humilhação dos vencidos

Enquanto em Beijing os recordes iam caindo, Portugal assistia, entre o atónito e o divertido, a uma espécie de campeonato humorístico com as justificações dos maus resultados obtidos por alguns dos nossos atletas.
É certo que foram inconvenientes, mas alguém tinha obrigação de os ter poupado à humilhação. Eles não são especialistas em comunicação, a pressão era enorme e ninguém os deve ter ajudado a lidar com a derrota.
Todos vibrámos com o sucesso do Nelson e da Vanessa, mas é uma injustiça não perceber que cada atleta fez o melhor que pôde. Afinal não eram eles os principais interessados em fazer boa figura?

domingo, 24 de agosto de 2008

O fingimento é a arte da fuga

Agosto tem este fascínio, o de ser um limbo onde tudo adormece durante o tempo em que o país pára para férias e os problemas descansam. Em Setembro logo se vê.
Sintomas de crise nem vê-los, a prosperidade aí está nos carros topo de gama que aceleram nas auto-estradas, nos hotéis lotados, nos restaurantes com filas à porta, nos programas de férias em destinos exóticos esgotados.
É certo que tudo não passa de uma ilusão, afinal há cerca de dois milhões de pobres em Portugal e muitos outros que o não sendo vêem as suas condições de vida agravar-se todos os dias, mas o fingimento é a arte da fuga.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O regresso do Império do Meio

Por estes dias Pequim volta a ser a capital do Império do Meio, uma forma de dizer que é o centro do mundo, hoje como consequência de ser a anfitriã dos Jogos Olímpicos, outrora porque a dimensão territorial e o imenso poder do Imperador não admitiam outro posicionamento.
Estes jogos não são apenas um acontecimento desportivo, mediático e uma oportunidade para dinamizar a economia chinesa e de muitos outros países, mas um acontecimento político da maior importância.
Eles constituem um marco para a afirmação definitiva de uma China moderna, próspera, politicamente ambiciosa e que é cada vez mais uma das grandes potências emergentes do século XXI. Portugal tem aqui mais um desafio, saber rentabilizar o que aprendeu durante séculos em Macau.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O medo dos ciganos

Nas últimas semanas o país redescobriu os ciganos e os medos e ódios ancestrais que lhes andam associados e confirmou-os como a comunidade menos bem amada da sociedade portuguesa.
Num mundo onde a diversidade cultural é pedra de toque de sociedades abertas e num país que “abriu novos mundos ao mundo” não deixa de ser irónico e preocupante que se trate uma comunidade de portugueses, com uma forte identidade ancestral, como sendo constituída por um bando de marginais.
Hoje, como ontem, os ciganos acantonam-se para se defender a si e ao seu modo de vida e o resto da sociedade escorraça-os como forma de se defender deles. É tempo de quebrar este ciclo de incompreensão.

sábado, 2 de agosto de 2008

O regresso a casa dos três pára-quedistas

Os funerais de três pára-quedistas mortos na Guiné durante a guerra colonial, e só agora trasladados para Portugal, é um daqueles acontecimentos que envergonha um país.
Os israelitas trouxeram para casa, em circunstâncias bem penosas, dois cadáveres de soldados raptados e mortos pelo Hezbolah, há dois anos, “porque os judeus não deixam para trás os seus mortos”.
Em Portugal não foi assim. O Estado que os enviou desapareceu e o Estado Democrático pouco se incomodou com os mortos que ficaram por sepultar na terra mãe. Quantos ainda haverá nas mesmas condições? Não será obrigação imprescritível do Estado trazê-los para casa?