terça-feira, 7 de julho de 2009

Candidaturas não acumuláveis

O PS está a digerir com alguma azia a deliberação de não serem acumuláveis candidaturas às autarquias e à Assembleia da Repúbica.
Depois da derrota traumática das europeias e dos chifres do ministro Pinho, a direcção faz um "manguito" aos esforçados candidatos e candidatas que se estavam a preparar para um difícil número de equilibrismo, com um pezinho no territótio autárquico e outro em São Bento.
A decisão só peca por tardia e Manuel Alegre faz muito bem em instar Ana Gomes e Elisa Ferreira a assumirem-se numa das suas duas qualidades -deputadas ao Parlamento Europeu ou candidatas, respectivamente, a Sintra e ao Porto.
É certo que a decisão já devia ter sido tomada há muito, mas vale mais tarde do que nunca e é tempo de se perceber que os eleitores não aceitam ser tratados como lixo e, muito menos, serem tomados por parvos.
Um candidato ou candidata é-o, por definição, a um cargo ou função, não a dois ou mais, como um apostador que quer aumentar as suas hipóteses de sucesso em caso de vitória e a precaver-se em caso de derrota.
Veja-se o caso emblemático de Elisa Ferreira. Ganhar o Porto é um desafio muito difícil, que obriga a um empenhamento total e a uma consciência muito clara de que se não ganhar tem de "comer o pó levantado pelos vencedores". Ora, se a derrota se traduzir no "exílio" europeu, é impossível que a candidata não faça a campanha com o sentimento de que o pior que lhe pode acontecer é ir tomar ares para o centro do continente. Confortável, não acham?
E o mesmo é válido, mutatis mutantis, para todos e todas que se abalançassem a duas candidaturas e que sempre pensariam numa dupla oportunidade para conseguirem um lugar.
Com toda a candura, uma candidata que sempre esteve nas primeiras linhas do PS veio dizer que se não ganhar precisa de um emprego para sobreviver pois ser vereador da oposição não enche barriga (a expressão é minha).
Pois, é verdade, mas toda a gente deve ter um emprego e não viver exclusivamente da política. É essa a essência da democracia. Uma das razões do empobrecimento da nossa vida política é, precisamente, o facto de alguns se servirem da política em vez de servirem o país. Sem qualidades para conseguirem um emprego decente, tornam-se "nossos representantes" nas autarquias, na Assembleia da República, no Governo e nos serviços públicos, enxameando a mesa do poder e sugando o erário público. E nesta matéria não há partidos inocentes, são todos iguais.
O PS fez bem em clarificar esta questão. Os dois amores que o Marco Paulo cantava pertencem ao mundo cor-de-rosa, salvo seja, não à política, quando esta respeita a ética e os eleitores.