domingo, 6 de dezembro de 2009

Grito de alerta

Ontem estive em Torres Novas a participar num debate organizado pela Associação CIVILIS e pela Escola Secundária Maria Lamas, a primeira escola onde leccionei. O tema era Escola/Estratégia e modelos educativos, e participaram também o ex-Ministro da Educação, David Justino e a ex-deputada do PCP, Luísa Mesquita.
Foi interessante, e durante o debate, um colega que estava na assistência, fez uma intervenção muito tocante sobre questões que se colocam quotidianamente nas escolas, nomeadamente as decorrentes de algum mau comportamento de certos alunos, tendo sintetizado muito bem a situação, ao afirmar: “Há indisciplina na escola porque não há condições para impor regras”.
Naturalmente, que nem todos estarão de acordo em colocar a questão assim, pois a indisciplina nas escolas é um fenómeno com raízes múltiplas e profundas, mas esta é uma forma acutilante e, a meu ver, legítima de olhar para o problema.
É um facto que se instalou uma surpreendente tolerância relativamente a situações de indisciplina e de incumprimento por parte de alunos, como se tudo fosse aceitável e não houvesse regras a cumprir, algumas delas universais, como seja o respeito pelo próximo.
Os professores acabam por ser o elo mais fraco e são eles que têm de lidar todos os dias com alunos que não os respeitam e, muitas vezes, os insultam, sem que sofram quaisquer consequências de vulto.
Na sequência da minha intervenção final, o colega, cujo nome não divulgo por razões óbvias, escreveu-me um e-mail que reproduzo, parcialmente, por me parecer útil partilhá-lo.

Caro Dr. José Manuel Silva,

… o que disse no final do debate da primeira conferência desta tarde corresponde ao que eu diria se tivesse tido necessidade de dizer. Apreciei a sua frontalidade e agradeço-lhe a solidariedade.

Os políticos «correctos» não suportam o discurso da manifestação da realidade das escolas. E, o que é mais grave, como tenho testemunhado e voltei a fazê-lo hoje, é que a grande maioria dos professores tem medo de contar o que vive e de dizer o que sente. Porque, se o faz, os políticos «correctos» reagem corporativamente e acusam-nos das coisas mais abjectas. Muitas vezes, incapazes de esconder o incómodo com as questões levantadas, nem sequer são delicados.

Entretanto, a Escola pública continua a degradar-se. Cada vez mais rapaziada, que não conhece regras nem quer fazer coisa nenhuma, vai tomando conta da Escola: domina o território, estabelece as suas próprias «normas», assume de facto o poder. Os alunos interessados não têm condições para aprender. Os professores mais novos, lamentando não ter mão nas turmas, saem das aulas a chorar. Os mais velhos, pelo seu lado, fazem contas aos euros e ao tempo que ainda lhes falta para a reforma antecipada e libertadora.