quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Chamem a polícia

A praça Rodrigues Lobo, em Leiria, tornou-se um must desde que lá se instalou o Chico Lobo, o bar mais cool das noites da cidade. Depois vieram outros, alguns cafés antigos reconverteram-se e, a pouco e pouco, o antigo centro cívico foi ganhando vida e animação e mostrando uma nova faceta de Leiria, cidade bem tradicionalista e conservadora até há bem poucos anos.
Quem não conhece, é urgente que lá dê uma saltada, e tomar um copo no Chico é obrigatório.
Mas onde é que entra a polícia nesta história? Bem, podia entrar de várias formas, mas hoje vamos ao estacionamento.
A zona é servida por estacionamento à superfície e por dois parques subterrâneos. Mesmo junto à praça existe um parque para cargas e descargas, interdito a estacionamento privado. Claro está que à boa moda do Portugal incorrigível muita gente prefere ignorar a proibição e dar uma gorgeta aos arrumadores de serviço do que cumprir a obrigação cívica de respeitar a lei.
Todos os dias o local está repleto de carros, para meu grande espanto e de todas as pessoas que cumprem o código da estrada. Eis senão hoje que chega a polícia e multa todos os automóveis que lá estavam. Apanhados na rede, cada um dos infractores teve a surpresa de uma multazita para pagar depois do copo da praxe.
Isto aconteceu por volta das dez da noite. Como habitualmente, "depois de casa arrombada, trancas na porta", quem foi multado zarpou rapidamente, talvez para tentar cantar a canção do bandido aos polícias e poupar a multa. Mas uma hora depois, já o dito parque estava repleto e um arrumador ordenava o tráfego.
Como diaria o Scolári, de boa memória. "O burro sou eu?" O parque é interdito? É! Então não se pode estacionar, certo? Errado. Pode! Mas então a polícia não multa? Às vezes, quando se lembra.
Esta história parece comprida para coisa de somenos. Não é verdade. O que aqui se relata ilustra um comportamento típico de desrespeito pela lei e a forma aleatória como a polícia actua. É suposto que a polícia todos os dias vigia as ruas, mas apenas de vez em quando multa os infractores, embora saiba que todos os dias lá existem. Qando está de serviço uma equipa mais zelosa? Um agente que tem objectivos para cumprir? Um polícia mal disposto? Eu sei lá, pode haver milhentas explicações.
Se calhar sou eu que estou a ver mal a questão, mas então deixem estacionar e pronto. Já agora até podem assumir que se trata de serviço social. Em vez de pagarem multas, que vão para o Estado, que depois tem de sustentar os arrumadores, pagam directamente a estes e ainda sai mais barato.
É por estas e por outras que Portugal é um país castiço. "Não às multas, sim aos arrumadores".

O Verão da avaliação de professores

O Presidente promulgou o diploma do Governo. O que havia de fazer? A versão simplificada da avaliação é a tábua de salvação da equipa do ME. É o que resta depois de tudo o que já foi deitado para o caixote do lixo de um processo que nasceu torto.
Infelizmente a política educativa deste Governo, que até tem aspectos muito positivos, vai ficar para a história como um mar de antagonismos com os professores. Daqui a uns anos ninguém se vai lembrar de mais nada, à excepção do conflito com a classe que, apesar da politização sindical e do aproveitamento partidário da oposição, não deixou de ser um genuino protesto da esmagadora maioria dos professores, que se sentiram ofendidos e humilhados com medidas, algumas necessárias, aplicadas de forma tecnicamente incorrecta e politicamente inábil.
Tal como os amores de Verão, a versão simplificada da avaliação, agora promulgada, não resistirá à chegada do Outono.

domingo, 16 de agosto de 2009

O Portugal incorrigível

Em Portugal, há comportamentos atávicos que, nem a evolução dos tempos nem a formação escolar e profissional, são capazes de erradicar. É sabida a importãncia do turismo na economia do país e, nas suas múltiplas ofertas, os serviços de restauração desempenham um papel fundamental na dinamização do sector.
Seria, pois, de esperar que, com tanta sensibilização e múltiplas ofertas de formação, os serviços prestados fossem, generalizadamente, de qualidade aceitável e os profissionais do sector verdadeiramente dignos deste qualificativo. Mas não é assim. Dois exemplos ocorridos recentemente no Algarve.

Num restaurante que pratica preços bastante elevados e que passa por ser uma das melhores escolhas para quem quer degustar um bom peixe grelhado, um comentário de um cliente motivado pelo atraso no serviço, mereceu do empregado encarregado da mesa o seguinte e instrutivo desabafo:
- "Pois, é muita gente".
Moral da história. O empregado não lhe ocorre que é o restaurante que se tem de adaptar aos clientes e ao seu fluxo, inclusive a não aceitar mais clientes se a sua capacidade não chega para tanto, já que devia estar obrigado a manter padrões de atendimento compatíveis com os preços que pratica. O mais óbvio que lhe ocorreu foi responsabilizar os clientes "Que vêm todos ao mesmo tempo".

Noutro restaurante, este popular, aconteceu um autêntico descalabro, com os clientes a esperarem horas (em sentido real) para serem (mal)servidos, os funcionários sem qualquer formação específica para o serviço de mesas e sem qualquer conhecimento do peixe que serviam, um nem sequer sabia distinguir um carapau de uma dourada e foi à mesa pedir aos clientes que o ajudassem a destrinçar e o que se supunha ser o gerente, e tentava dar alguma ordem àquela completa bagunça, acabou por confessar que estava ali a fazer um biscate e que trabalhava na secção de peças de uma empresa do ramo automóvel.
Não fora a descontracção própria das férias o homem não teria acabado a noite a conversar alegremente com os clientes sobre as virtudes e defeitos das máquinas topo de gama comercializadas pela empresa para a qual trabalhava e sim a explicar à autoridade competente a sua presença como (i)rresponsável de um restaurante sem rei nem roque.

Em ambos os casos, o nacional-porreirismo, a falta de profissionalismo, o desrrespeito pelos clientes (que pagam como se fossem bem servidos) são o reflexo de uma cultura empresarial de vão de escada que não dignifica nem a região, nem o país, e que exibe a marca deprimente de um sector vital mas carente de quadros e de qualidade.

Protesto contra a neocensura!

Talvez ainda não se tenha apercebido que existe em Portugal um Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, cuja função é regular matérias desta área.
A partir de agora não o poderá ignorar, pois o dito conselho entende que quem participa em listas candidatas a eleições não pode escrever nos jornais nem participar em programas de rádio ou televisão, com textos de opinião ou como comentador.
Para que conste, aqui fica o meu veemente protesto contra uma forma de neocensura que, sob a capa do igualitarismo das candidaturas, amordaça e silencia vozes livres.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Bolas sem creme

Nos meus tempos de menino, ir dos confins do Alentejo até à beira-mar, fazer praia, era sempre uma aventura e um tempo de experiências mágicas.
Para além dos prazeres marinhos, as batatas fritas, redondas e estaladiças, e as bolas de Berlim, bem recheadas de creme, faziam as delícias da criançada no intervalo das banhocas.
Hoje, comer batatas fritas é quase um crime de lesa coração e já ninguém as vende nas praias, quanto às bolas, só mesmo sem creme, ASAE dixit. As gerações do soft e do light não sabem o que perdem. A praia lá continua, mas não é a mesma coisa.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

E o terceiro mundo aqui tão perto

O hospital de Santo André é uma boa unidade de saúde. Alguns dos seus serviços são referências de excelência. Por razões familiares já conhecia as urgências obstétrica e pediátrica. Ambas de grande qualidade.
Numa destas noites vi-me obrigado a uma visita inesperada à urgência geral. Nem queria acreditar. Aquele não é o Santo André a que me habituei. A degradação das instalações é evidente e as condições de atendimento péssimas.
Sobrevive-se, é um facto, mas o ambiente lembra os hospitais do terceiro mundo. Algo está errado e a culpa não é, certamente, dos doentes.