domingo, 26 de dezembro de 2010

Jardim de Afetos

Numa festa escolar de Natal, a que assisti, todos os presentes foram convidados a participar na construção de um Jardim de Afetos. Nada mais atual, os afetos são o laço que nos liga aos outros, são o que nos salva da solidão e nos ampara nas relações sociais, são o que resiste quando tudo o mais se esvai.
Este tempo é, por excelência, de reflexão sobre o próximo, de olhar, de forma muito particular, para os que nos são mais queridos, sem exclusões, e por isso também para todos os que de uma forma ou outra nos tocam e nos envolvem.
A magia do Natal faz desta época do ano um dos momentos de maior comunhão familiar e, por isso mesmo, também uma das ocasiões em que somos mais sensíveis aos que, apanhados por qualquer adversidade, se veem privados do conforto de uma festa de família e obrigados a viver em solidão uma noite que deve ser de esperança, otimismo e fé num mundo melhor.
Um Jardim de Afetos é, pois, o que nos deve mobilizar, não apenas em tempos de natividade, mas permanentemente. E como num verdadeiro jardim, também neste é necessário cuidar de mil e um pormenores que assegurem a vitalidade dos laços, o seu fortalecimento, a possibilidade de se criar uma rede de interações positivas.
As relações entre as pessoas necessitam de ser cuidadas, carinhosamente construídas, a cada dia, todos os dias, como em vasos comunicantes, interdependentes, em que cada um se sente parte de um todo, afirmação de individualidade e coletivo.
A solidariedade é uma das expressões privilegiadas dos afetos; a preocupação com o próximo é uma marca distintiva de sociedades onde o individualismo não é deixado à solta, onde se cultiva a responsabilidade social, onde a ação dos estados é complementada pela de múltiplas organizações de cidadãos que de forma empenhada e desinteressada se ocupam a fazer pelos outros o que estes necessitam.
Neste tempo de interrogações sobre o futuro dos jovens que procuram um lugar no mundo profissional, dos que perdem os empregos e, muitas vezes, a dignidade, dos que falham as referência familiares e são atirados para a rua ou para o esquecimento, é reconfortante ver a mobilização anónima que nos faz acreditar que, apesar de tudo, existe uma força poderosa que nos une e nos projeta como coletivo.
No Jardim de Afetos uma palavra especial para todos os nossos mais experientes que, por uma razão ou por outra, tiveram de deixar a segurança das casas de família e passar a viver em instituições. São eles, estou certo, os que mais precisam dos nossos afetos, para acreditarem que vale a pena viver, ter sonhos e ser admirados. Um Feliz Natal!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Um sopro de abril

O tempo é de Natal, mas a vida política é marcada pelos alinhamentos partidários na expectativa da queda do Governo e, sobretudo, pelas presidenciais.
Como já se viu, Sócrates vai beber até à última gota o fel da governação enquanto a alternativa vai medrando, alimentada pela desilusão, pelo descontentamento e sabe-se lá se não mesmo pela agitação social.
A nova AD aí está, para aconchego de muitos, numa versão soft, cada um a correr por si e depois uma parceria de governo. Assim, medem-se forças nas urnas e o resto será em conformidade.
O Bloco e o PCP espreitam os deserdados da esquerda e o PS, agora encostado às tábuas (permitam-me a liberdade tauromáquica), terá de fazer das fraquezas forças e ir à luta, com nova liderança, novos protagonistas, nova agenda para o futuro.
Tudo em aberto, ao contrário do que alguns pensam. Nem a vitória da AD é certa, nem a derrota do PS inevitável. Mas preocupemo-nos agora com as presidenciais.
Dos cinco candidatos, três só contam para o introito. Francisco Lopes tem como missão fixar o eleitorado do PCP, Fernando Nobre equivocou-se ao confundir as eleições com as tragédias onde costuma atuar com mérito e conhecimento, Defensor Moura já ganhou o que lhe interessava, notoriedade nacional para melhor alcançar os seus objetivos regionais.
Cavaco Silva e Manuel Alegre jogam noutro campeonato. Com eles não há equívocos, sabe-se que querem vencer e os que neles votarem saberão muito bem porque o fazem.
Cavaco é o candidato do conforto, o homem que já foi tudo na política portuguesa e que inspira confiança como último guardião do templo arruinado das finanças nacionais. Sabe-se o que se pode esperar dele, mais do mesmo, até deixar chegar o país ao estado em que o conhecemos hoje sem que da sua ação ou da sua voz se tenha visto ou escutado mais de que um ou outro pálido lamento.
Alegre é o candidato do desassossego, do direito à indignação, do sopro de abril, essa revolução ingénua que nos deu trinta anos de bem-estar, que agora nos cobram com juros de agiota.
Temos pois o conforto de saber que alguém vela por nós e o desassossego de termos de agir para defender conquistas que uma espécie de rasoira sem rosto nem princípios quer atirar para o caixote do lixo da História.
A escolha é simples, quem quiser defender-se do desconhecido basta olhar para o passado recente, quem quiser lutar pelo futuro tem a voz de um poeta maior anunciando que as pessoas não são mercadorias e que o mundo somos nós que o construímos.