segunda-feira, 21 de março de 2011

Um país à rasca

“Em Portugal são desejáveis mudanças rápidas na organização da nossa vida política, sob pena de qualquer dia termos também uma praça Tahrir a abarrotar de gente desiludida e sequiosa de uma nova esperança.”
O parágrafo anterior fechava o texto aqui publicado faz um mês. Ainda não se falava da manif da “Geração à rasca”. A nossa praça Tahrir, alusão à praça do Cairo onde a contestação a Mubarak ganhou expressão e acabou por ditar a sua queda, encheu-se no sábado passado em várias cidades do país, com nomes bem portugueses e como um sinal claro que convém não ignorar.
Os portugueses, muitos portugueses, estão fartos do Governo, do Presidente da República, das oposições, dos políticos, da vida a que estão condenados por anos de desgoverno e por um ciclo económico recessivo e verdadeiramente depressivo.
Na altura em que escrevo, anuncia-se uma greve das empresas transportadoras. Sabe-se como estas desempenham um papel decisivo no funcionamento de todas as atividades económicas do país. Sem uma rede ferroviária digna desse nome, os abastecimentos são, em grande medida, assegurados por via rodoviária, pelo que os transportes são a artéria fundamental da vida económica. Sem transportes o país para.
Os jovens “à rasca” mostraram um lado da contestação, soft apesar de tudo. Os transportadores vão apontar baterias bem mais pesadas e ninguém pode garantir que a escalada do “sobressalto cívico”, a que apelou o Presidente da República, não se generalize com consequências que alguns prevêem poder vir a descambar em agitação e violência nas ruas.
Entretanto, o Governo está mais dependente da Sr.ª Merkel do que do Sr. Passos Coelho, embora este, infelizmente, finja que não percebe e faça de galã enganado sempre que o garrote dos portugueses sofre um aperto. Tem melhores soluções do que as do Governo? Quem é que ainda duvida que quem, verdadeiramente, manda no país são os credores e os agiotas internacionais?
O que há muito se percebeu é que faltam protagonistas que ponham os interesses nacionais acima dos objetivos partidários e, por qualquer incompreensível razão, cada um esbraceja para seu lado e ninguém faz esforços sérios para abandonar o tacticismo suicida e gizar uma estratégia de unidade no combate à crise.
O país precisa de um amplo consenso para ser governável no momento presente e o que menos necessita é de eleições. Por razões óbvias, compete ao Presidente da República tomar a iniciativa política que viabilize este objetivo. Alguém fica prejudicado? Talvez. Mas o importante é que ganhe Portugal.