domingo, 17 de abril de 2011

A confiança da D.ª Agripina

É uma daquelas mulheres portuguesas de uma geração à beira da extinção. Tem idade indefinida mas deve andar entre os setenta e os oitenta, corpo curtido pelos anos, pelos trabalhos e pelas agruras de uma vida que nunca deve ter sido fácil.
Cruzámo-nos por mero acaso quando parei para tomar um café numa beira de estrada perdida no interior. Numa tela já amarelecida pelos anos podia ler-se Café-bar, designação modernista de uma taberna bem portuguesa onde um balcão de pedra e o cheiro inconfundível a vinho armazenado não enganam quem ali entra sobre o principal ativo do negócio.
A D.ª Agripina estava ao balcão, solitária no atendimento dos clientes, mas acompanhada pelo ar grave do falecido marido cuja fotografia se impõe, de imediato, a quem cruza a porta daquele espaço de luz coada e de muitos odores que nos recordam um Portugal do passado. Cartazes de touradas, fotos de pegas de toiros e um grande emblema do Benfica, informam os clientes sobre quais os valores que por ali se cultivam.
Àquela hora só um cliente se perdia de volta de uma mini, a cervejinha mais vendida por aquelas bandas, e a patroa descansava encostada ao balcão como se a vida tivesse feito um intervalo e nada mais restasse do que a espera.
Engravatado e vestido quase de cerimónia, senti-me como um intruso a pedir café num templo onde habitualmente se oficia com licores variados. O café veio rápido e aconchegante e senti o prazer sereno que apenas se experimenta nos sítios que nos tocam.
Vamos a contas. Sessenta cêntimos. Puxo da carteira e nem uma moeda, só uma nota de dez euros. D.ª Agripina franze o sobrolho e diz-me que não tem troco. E ali fico eu, como um menino apanhado em falta, só com uma nota, com cartão de crédito e multibanco, que ali não servem para nada, e sem poder pagar a dívida. Perante o embaraço, D.ª Agripina pergunta, assim como não quer a coisa, “Atão vocemecê nã volta?”. Até planeara voltar pela autoestrada, mas logo decidi que o caminho de regresso seria o mesmo. “Atão paga depois e seu cá nã estiver paga ao mê filho”. Agradeci e zarpei a pensar nas lições que em qualquer sítio nos esperam.
Muitas horas e centenas de quilómetros depois voltei à tasca da D. Agripina. Lá estava o filho, ciente da minha dívida. Agora havia ali um verdadeiro arraial e as minis corriam às dezenas para afogar o calor dos corpos e do tempo. Paguei os sessenta cêntimos e soube que a D.ª Agripina ia ser a personagem central desta crónica. A confiança é um valor inestimável e é por falta dela que Portugal está de mão estendida.