quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sexo inseguro

Foi publicado um estudo(*) feito a 1400 alunos do Ensino Superior. Destes, 1200 consideraram-se sexualmente ativos e responderam depois a outras questões que permitiram concluir o seguinte. 47,1% M e 13,9% F têm relações com parceiros ocasionais. 44,5% M e 20,2% F têm relações sob o efeito de álcool ou drogas. 31,3% M e 11,3% F não usam contracetivos. 23,6% M e 9,7% F não recusam uma relação sexual com pessoa desconhecida, mesmo não tendo preservativos.
Já discuti este números com algumas pessoas, as reações são as mais diversas, desde os que consideram assustadores estes resultados, passando pelos que encolhem os ombros, como se tudo fosse admissível ou não houvesse solução para nada, até aos que acham que a coisa não está assim tão má, podia ser pior, reação tipicamente portuguesa que traduz, afinal, a aceitação de qualquer coisa por pior que seja.
Por mim, fiquei chocado e preocupado. A população objeto de estudo, e que respondeu a questionários cientificamente validados, pertence ao grupo que mais informação recebe, pois ao longo dos anos de escolaridade são imensas as ocasiões em que estas matérias vão sendo abordadas, cada vez com maior abertura e simplicidade.
O sexo deixou de ser tabu e é frequente em família, na escola, entre os adolescente, nos meios de comunicação, falar-se do assunto com naturalidade, estando já muito longe os tempos em que às crianças se dizia que os bebés vinham trazidos por uma simpática cegonha, em que se falava em surdina dos “desmanchos”, ou que para se pedir um preservativo na farmácia era necessário recorrer à maior discrição, não raro com a sensação de que se estava a cometer um ato quase ilícito ou atentatório da moral e dos bons costumes.
Hoje o preservativo é um produto de consumo corrente, que até costuma estar na linha de caixas dos supermercados, não raro fazendo companhia a pastilhas elástica e chupa-chupas, coisas que são sempre úteis, e é, sem dúvida, o ícone mais marcante da revolução comportamental que banalizou o sexo e pôs milhões a curtir sem culpas nem preocupações.
É por tudo isto que os comportamentos assinalados no estudo são ainda mais surpreendentes; os respondentes mentiram, andam distraídos, são inconscientes ou, pura e simplesmente, julgam que os problemas só acontecem aos outros? Gravidezes precoces ou indesejadas, doenças sexualmente transmissíveis, sequelas pessoais e sociais, parecem não assustar os amantes.
Talvez a razão seja simples – quando a coisa aquece, a malta esquece.

*Dixie, Gaspar, Monteiro e Lopes (2010). A saúde dos estudantes do ensino superior. Leiria: IPL.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Receitas milagrosas contra a crise

Tenho o pressentimento de que esta crónica se vai tornar no oposto do politicamente correto ou do academicamente sustentado. E digo que se trata de um pressentimento por não ser ainda claro para que lado vai descambar o texto. Sim, ao contrário do que muitos pensam, é o texto que manda em nós. Sentado frente ao branco da folha virtual, matraqueio o teclado, primeiro à procura da melhor ideia, depois indeciso perante a profusão de hipóteses, uma catástrofe ou um atentado terrorista são sempre boas opções. Mas a Presidenta Dilma Roussef está ali piscando o olho, uma presidenta é sempre um tema atual. Não confundir com presidente, uma mulher presidente é uma snobeira, como uma juiz, uma juíza é que é popular. Basta de hermafroditas. Bom, mas o Porto perdeu, também é assunto interessante, e a águia Vitória que já não voa, ou o leão do Sporting que quer abandonar o emblema, tudo temas que me escaldam os dedos quando martelo cada tecla com a fúria de quem vê o tempo a passar e a “dívida soberana” a aumentar.
Gosto da expressão “dívida soberana”, dá estatuto a qualquer país pelintra que põe no prego as suas joias de família. “Dívida pública” é uma coisa rasca. Quem é que quer comprar “dívida pública”? Soberana enobrece. Apesar do republicanismo impenitente dos portugueses, “dívida soberana” evoca-nos a monarquia e confronta-nos com os nossos atavismos ancestrais - pouca produção, miséria quanto baste, dívida à farta.
Bem me parecia que não me escapava da crise. Qual crise, dirão os gurus da inovação. Não tarda acusam-me de pessimista. Já me vejo a fazer um curso breve do tipo “Tudo o que precisa saber para se tornar milionário, mas que nunca ousou perguntar”. O melhor é banir a palavra do dicionário, decretar o seu fim, usar o ideograma chinês que associa problema a oportunidade. Quem não sabe que uma crise é sempre uma oportunidade? Ainda há por aí maus portugueses a falar de crise? Que saudades da Inquisição.
Aquele camarada que perdeu o emprego e passa horas na fila da Segurança Social devia pensar em inovar, tornar-se empreendedor. Isto aprende-se em qualquer escola. Diz que não sabe como alimentar a família? Há cursos muito chiques em que ensinam imensos truques para fazer omeletas sem ovos. E empregos só não tem quem não quer, com alguma imaginação tudo se consegue. Olhem para o futuro com confiança, deixem-se de lamúrias, onde há um português, há uma solução.
Se não puderem comprar um Ferrari contentem-se com um Bentley.