domingo, 10 de julho de 2011

Os três macacos

Conhecem aqueles três macacos que por sí abundam em estatuetas de feira, um com as mãos na boca, outro nos olhos e outro nas orelhas, como quem diz não falo, não ouço nem vejo? Pois, mal comparado, fizeram-me lembrar os nossos ilustres presidentes de câmara reunidos ontem em Coimbra, sem ofensa para os símios, muito menos para os senhores presidentes.
Aliás, a espécie política presidente de câmara é uma das mais exóticas que existe em Portugal e digo isto sem nenhum azedume por já me ter candidatado e perdido. É uma realidade que todos conhecem e que como se diz em linguagem jurídica "dou aqui como integralmente reproduzidas" as razões de tal status.
Aliás, divertiu-me ver um dos dinossauros da classe invocar uma das maiores falácias do poder autárquico que serve sempre como flor na botoeira de um autarca que se preze mas que se sabe ser inteiramente falsa. Refiro-me à inverdade de que "um euro aplicado pela administração central valeria quatro se aplicado pela administração municipal". E tanto isto não corresponde à verdade que a situação de endividamente dos municípios é conhecida e em muito contribui para a falência das finanças públicas.
E para que se reuniram os senhores presidentes? Apenas e só para se queixarem, se não mesmo protestarem, contra as medidas de aperto financeiro que em sua opinião se não deveriam aplicar aos municípios e execrarem a possibilidade de alguns virem a ser extintos por escassa dimensão territorial ou populacional.
Resumindo, o país estás onde se sabe, todos apertam o cinto, as medidas restritivas foram acordadas pelos três principais partidos, mas os senhores presidentes querem um estatuto de excepção.
Nem o facto de um número significativo não se poder recandidatar, por em boa hora o anterior governo ter aprovado a limitação de mandatos, os faz recuar na politiquice do costume.
Honra seja feita aos presidentes que não embarcam neste populismo sem justificação mas o facto de a sua associação nacional ser a voz de uma orientação política sem suporte nem fundamento, prova como é longo o caminho da regeneração que o país tem pela frente.
E se dúvidas houvesse, bastaria ver o seu presidente a tirar da cartola a ideia da regionalização, defendendo que mais do que nunca ela é necessária, para percebermos como é inteligente a troika dos macaquinhos que se recusam a ver, ouvir e comentar palavras tão fora do ciclo de um país garrotado pelas dívidas e onde autarcas com a maior das responsabilidades apelam à multiplicação da classe política e de novos órgãos de governo regional com todo o cortejo de despesas que tal acarretaria.
Bem andou o Primeiro Ministro ao ignorar tais cantos de sereia e lhes respondeu com a voz firme de quem tem um país exangue para governar e contas para acertar.
O Poder Local foi uma das maiores conquistas da revolução de Abril e por isso mesmo se lhe exige maior rigor e responsabilidade na hora grave que o país atravessa.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O estranho mundo da Assembleia Municipal de Leiria

Ontem houve Assembleia e foi uma experiência diferente para mim. A reunião era continuação de uma ocorrida na semana passada a que estive ausente por me encontrar no estrangeiro. Como a de ontem era de continuidade não pude participar activamente. Acompanhei os trabalhos na bancada reservada ao público.
Que magnífica experiência, a mudança de papel faz-nos olhar para o que ali se passa de forma completamente diferente e, de repente, é como se nada daquilo fizesse sentido.
Se nos distanciamos dos ritos que ali imperam, uma espécie de missa política em que se digladiam os bons e os maus, os deuses e os demónios, consoante a cor que cada um ali veste e defende, tudo parece surreal e fora do mundo em que os que ali não têm assento vivem.
Porque razão A defende uma coisa e B o seu contrário, é inexplicável, até porque se a situação fosse diferente e a matemática dos votos outra, tudo seria ao contrário.
Se não vejamos, o PS defende a alienação do estádio e a concessões dos SMAS a privados. O PSD o inverso. Mas então não é o PSD que é "neoliberal", para usar um palavrão agora em moda? E não seriam os socialistas que deviam defender a manutenção destes activos no domínio público integral?
Mas nem tudo o que parece é. O PS tem responsabilidades de gestão na autarquia e está num beco sem saída quanto a verbas que não existem nem vão existir. Alienar e concessionar é a única forma de sair (parcialente) do sarilho. O PSD, pelo contrário, tenta defender a herança e é contra porque sim. Os outros partidos marcam o ponto e a mais não aspiram.
Mas mais confrangedor ainda é o ambiente de crispação, provocação e insulto (num caso ou outro) completamente injustificado e a mostrar que as melhores pessoas se podem transformar no que jamais avalisariam se não fosse o micro-clima político que ali se vive.
Igualmente confrangedor foi o nível do debate. Quando cheguei já tinha sido votada a alienação do estádio e sobre esse ponto não me pronuncio. Mas quanto à eventual concessão dos SMAS a argumentação do PSD não passou de uma encenação para cliente político ver. Nem um argumento substancial. Pouca informação, a água é um bem essencial, pouca informação, estudo mais aprofundado e disto se não saiu. E o mais caricato é que num momento em que o "seu" governo tem uma orientação claramente a favor da privatização de tudo o que possa e deva ser privatizado, o PSD local é contra, até as concessões.
Provavelmente este assunto não tem sido gerido politicamente da melhor maneira, é bom não esquecer que o ónus da negociação está do lado da maioria camarária e que é do seu próprio interesse negociar, negociar, negociar e procurar consensos. Mas o PSD empenha-se numa política de terra queimada que não leva a nada a não ser ao desgaste de todos.
Claro que só posso dizer isto porque em consequência de um preceito administrativo estive de fora. Caso contrário teria vestido a minha farda partidária e faria, muito provavelmente, a mesma figura dos outros.
Uma coisa tenho a certeza, é urgente alterar a forma de relacionamenteo político na Câmara e na Assembleia Municipal, a favor do munícipes e de uma gestão moderna e eficaz da autarquia.