domingo, 14 de julho de 2013

O Presidente e a Salvação Nacional

Eu sei que é politicamente mais correto criticar a decisão do Presidente do que apoiá-la, há mesmo quem se recuse a considerar que se tratou de uma decisão e outros que pensam que se as coisas estavam más, ficaram piores.
Faço parte dos que acreditam que Cavaco finalmente acordou para a realidade e penso que mais vale tarde do que nunca. No final do salazarismo contava-se uma anedota sobre os vários modelos de Estado.  Podia-se falar do Estado Capitalista, do estado Fascista e do Estado a que isto (Portugal) chegou. Passadas 4 décadas podemos afirmar estar de novo no mesmo ponto, embora com democracia e liberdade que não são coisas de somenos. Economicamente estamos quase na bancarrota apesar de eufemisticamente se falar de resgate que parece ser uma palavra mais aceitável para quem está nas mãos dos credores e agiotas. Mas ninguém se iluda pois estamos mesmo no estado a que isto chegou, uma espécie de indigência nacional que estende a mão à caridade internacional mas não se dispensa de dar confirmação ao ditado popular de que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
O Presidente percebeu, finalmente, que antes que o pão falte a todos, muitos já não têm, era necessário dar um murro na mesa para ver se o Governo e os outros atores políticos percebiam que mais do que a chicana partidária importa acautelar o futuro dos portugueses.
Não vou discutir as culpas de cada um, embora seja notório que o Governo se esqueceu da importância do PS e este se entreteve e digerir as dissensões internas e a ver a melhor forma de ganhar as próximas autárquicas, europeias e legislativas.
Perante a dissolução do Governo e da credibilidade do primeiro ministro às mãos de Portas e de Gaspar, o Presidente fez o que se impunha, tomou uma decisão - manteve o Governo em funções, não aceitou a remodelação que lhe fora proposta e que tornava o CDS patrão do Governo e responsabilizou os três partidos, que assinaram o Memorando, pela resolução da crise política e pela manutenção da estabilidade até ao final do período de assistência financeira quando, previsivelmente, se realizarão eleições antecipadas. 
A cartada é arriscada mas é isso que se espera dos líderes, capacidade de antever o futuro e de apontar caminhos. Cada um é livre de pensar o que entender, eu acredito que este é um caminho, estreito e perigoso, mas melhor do que fazer eleições agora. Provavelmente, se olharmos para a realidade apenas com olhos político-partidários somos obrigados a concordar que as eleições eram a solução, mas se nos lembrarmos de que, para além das nossas posições estritamente políticas, há uma nação agonizante e milhões de pessoas que esperam dos políticos a solução dos seus dramas pessoais e sociais, então será necessário reconhecer que só um amplo consenso nos poderá tirar do atoleiro em que todos nós nos deixámos enterrar, com particulares responsabilidades dos que agora também têm de nos ajudar a sair.