segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O cancro da escola

          O suicídio de um jovem estudante, alegadamente por não conseguir ultrapassar as humilhações a que alguns colegas o sujeitavam na escola, veio agitar na comunicação social e na opinião pública o tema da violência escolar, expressão maior do mal que afeta muitas escolas, incapazes de controlar o comportamento dos alunos e de inverter a espiral disfuncional de relacionamentos em que o sistema de ensino vem mergulhando.

Violência e alunos com comportamentos reprováveis sempre existiram, mas constituíam a exceção porque cultivavam-se valores relacionais, distinguiam-se os papéis dos diferentes atores e as escolas eram lugares seguros e onde se aprendiam também as virtudes da cidadania e do respeito pelos outros.

Hoje, muitas escolas são lugares de má fama, onde os pais, se tivessem alternativa, não colocavam os filhos e os professores, se pudessem, não escolhiam, onde existe um ambiente social de valores profundamente corroídos, em que a linha divisória entre o aceitável e o reprovável, o bem e o mal, a lei e o crime, estão de tal forma esbatidos que tudo parece justificado e enquadrado numa normalidade absolutamente imoral.

Nunca mais esquecerei um experiente diretor de uma escola pública de Coimbra, homem curtido por anos de ensino e direção, que me contou com lágrimas nos olhos um episódio, hoje tudo menos atípico; ao repreender um aluno que se tinha comportado de forma gravemente imprópria, este olhou para os colegas à volta e referindo-se ao diretor exclamou: “Tão-me a ver este palhaço?”

Não estou a carregar nos tons escuros, limito-me a dizer em voz alta o que muitos sabem ser hoje corriqueiro em muitas escolas, apesar de o Ministério da Educação e os seus sucessivos responsáveis fingirem não perceber a gravidade da questão, como se os excessos garantísticos dos direitos dos alunos face às suas obrigações fossem a solução para travar um mal que se acentua, põe em causa as condições de aprendizagem e destrói os relacionamentos.

A solução não é simples, mas existe. Trata-se de definir a linha que não pode ser ultrapassada. Se a escola não pode rejeitar nenhum aluno, estes também não podem atentar contra a essência da própria escola, porque ao fazê-lo estão a lesar gravemente os direitos de outros. Tem sido o demissionismo face à gravidade do problema que tem contribuído para o seu agravamento e é o principal estímulo ao desenvolvimento deste verdadeiro cancro da escola.
 
(Publicado na edição de 30 de Janeiro de 2013 do Região de Leiria, na coluna Passageiro do Tempo)