Há já uns anos, perguntei a uma
aluna como se chamava; retorquiu-me, “Besta”. “Besta?”, perguntei incrédulo,
“Sim, sou aluna do 1.º ano”. Há poucos dias, uma mãe foi-se-me queixar das
praxes a que a filha tinha sido submetida. Chamei a rapariga, que se confessou
admiradora das praxes, com um senão, marcarem atividades para dias em que os
alunos precisam de estudar para os testes.
No primeiro caso, espanta que alguém
se possa identificar com um nome humilhante, mesmo não se estando no âmbito de
uma praxe, mas fica claro até onde pode ir o constrangimento a que os caloiros
são submetidos. A história mais recente ilustra a que ponto a praxe se refinou
e se tornou uma atividade quase paralela às aulas, uma espécie de complemento
curricular, sujeita a horário e marcação de faltas.
As praxes académicas são uma
versão moderna das cerimónias iniciáticas, existentes desde tempos imemoriais,
a que os jovens ou os novos aderentes a uma seita ou causa eram/são submetidos.
Ser praxado, quando se chega ao ensino superior, significa que se ascendeu
socialmente a um patamar diferenciador, que se está na antecâmara de obter o
canudo de doutor, essa sacrossanta dignidade que em Portugal tanto se venera. É
aqui que reside a popularidade da praxe. É por isso que as manifestações anti
praxe são um fiasco. A malta curte a praxe…
Por outro lado, o caldo social que
a faz prosperar é a força da assimilação cultural e a falta de formação cívica
pois continuamos a ter um défice evidente de participação na vida coletiva, o
que torna os jovens presas fáceis de práticas autoritárias que, não raro,
ultrapassam os limites do civicamente admissível e do legalmente exigível.
Ser contra ou a favor das praxes é
uma atitude de consciência e não cabe às instituições académicas protegê-las ou
bani-las, apenas esclarecer os estudantes sobre os seus direitos, garantir a
liberdade de escolha dos alunos que as recusam, acompanhar o processo e agir
contra os infratores. Fora das instituições, os abusos são um caso de polícia.
Para os que insistem em demonizar
as praxes e lhes contrapõem o que ocorria no tempo em que ser anti praxe era
ser progressista, é preciso recordar que o país mudou e que hoje chegam também
ao ensino superior os filhos dos que na época nunca tinham sonhado com essa
possibilidade. Por isso, a praxe tornou-se uma marca democrática de ascensão
social.
(Crónica publicada no Região de Leiria de 27 de Fevereiro de 2014)