Um dia acordei e as tropas estavam
nas ruas. Começou aí um dos períodos mais desafiantes da minha vida e ter tido
a oportunidade de viver uma revolução e de ser parte dela é uma experiência
empolgante e inolvidável; muito do que sou tem a marca desse período em que me
moldei para a vida nos valores da liberdade, da democracia, da justiça social,
inebriado pela ideia de ajudar a mudar o mundo.
E o mundo mudou, e muito. O
Portugal de hoje mantém as suas raízes centenárias mas os seus ramos cresceram
em múltiplas direções, somos europeístas, que sempre fomos, naturalmente, mas
buscámos sempre no Atlântico e a partir dele nos outros mares o que a Espanha
nos barrava, um caminho livre para a Europa mais central. O mar foi a opção
inteligente para um povo que se quis independente, sem a aventura dos
descobrimentos não teria sido possível manter a independência face ao gigante
Castelhano.
Entre “As portas que Abril abriu”,
como diz o poeta Manuel Alegre, a Europa foi das mais inspiradoras, o Portugal
contemporâneo é produto deste recentrar da história Lusa, da Europa não nos
vieram só os milhões, veio-nos uma nova mentalidade, feita de abertura de
espírito, de respeito pelos outros, pelos seus costumes, ideologias e línguas,
os jovens portugueses são um produto e um exemplo de engenharia educativa e
social ao serviço da transformação dos povos, veja-se o programa Erasmus que
tem feito mais pela cidadania europeia do que qualquer empreendimento
unificador resultante de sonhos imperiais.
É certo que Portugal foi sempre um
desbravador de mundos, mas sem a integração atual na União Europeia nunca
teríamos chegado onde estamos em termos de abertura a todas as latitudes, por
uma razão simples, Portugal não tinha escala para construir as bases
indispensáveis a uma alavancagem das suas potencialidades.
Apesar de terem passado apenas quarenta
anos o salto dado pelos país e pelos portugueses foi marcante, o Portugal de
hoje é profundamente diferente do país onde nasci, quase medieval, fechado
sobre si próprio, onde as desigualdades sociais eram brutais. Hoje alguns
tendem a querer diminuir o património de Abril, como se de uma revolução
falhada se tratasse. Pelo contrário, foi Abril que nos abriu as portas do
futuro e é por isso que os portugueses se sentem hoje verdadeiros cidadãos do
mundo.