Portugal vai envelhecendo a passos
rápidos e se lhe juntarmos a baixíssima taxa de natalidade temos o cocktail
explosivo que um dia fará implodir o país já que esta peste demográfica vai
corroendo o tecido social e tornando a situação insustentável a todos os
níveis.
O prolongamento da esperança média
de vida gera situações novas e, num prazo relativamente curto, o país passou da
fase do cuidar familiar dos idosos para a da institucionalização generalizada
dos seniores, designação que ajuda a disfarçar a carga negativa da palavra
velho, muitas vezes equivalente a coisa pouco sexy, a cota, a algo
desqualificado, ao contrário do que ocorre noutras sociedades onde os “mais
velhos” gozam de um estatuto especial em reconhecimento do seu capital de
conhecimentos e experiência.
Os seniores correspondem hoje a um
segmento da população com necessidades muito próprias, a um alvo comercial
específico, mas também a um grupo muito fragilizado socialmente, sujeito a
abusos de toda a ordem e cujos elementos correm sérios riscos de atingir a
linha final totalmente despersonalizados, como consequência de doenças várias
ou como resultado da forma como são cuidados.
O internamento generalizado em
lares, corresponde muitas vezes a uma espécie de punição injustíssima por ditar
que uma pessoa seja arrancada da sua casa, separada dos seus pertences, dos
seus animais de estimação, dos seus vizinhos, no fundo do que dava significado
à sua vida, para ser internada num espaço que lhe é estranho, tratada por
pessoas que não lhe são nada, partilhando quarto, wc e quotidiano com gente
desconhecida que em comum apenas partilha o mesmo destino.
A institucionalização, que devia
ser a última alternativa, tornou-se a primeira escolha, fruto das
condicionantes da vida atual, do comodismo familiar, da ausência de políticas
arrojadas, da falta de consciência generalizada de que os seniores não podem
ser deixados simplesmente à sua sorte.
Ao contrário do que tem feito
escola, é urgente inverter as políticas de apoio aos seniores, é necessário
montar redes sociais eficazes que tornem sustentável mantê-los no seio das
famílias, nas residência próprias, em residências assistidas, reforçar os
centros de dia, as oportunidades de socialização, de estudo, de diversão e
recorrer apenas ao internamento em lares como último recurso. A
despersonalização é uma fronteira que não deve ser cruzada.
(Publicado no Região de Leiria, Março)