segunda-feira, 3 de março de 2014

Como se chama? Besta!


Há já uns anos, perguntei a uma aluna como se chamava; retorquiu-me, “Besta”. “Besta?”, perguntei incrédulo, “Sim, sou aluna do 1.º ano”. Há poucos dias, uma mãe foi-se-me queixar das praxes a que a filha tinha sido submetida. Chamei a rapariga, que se confessou admiradora das praxes, com um senão, marcarem atividades para dias em que os alunos precisam de estudar para os testes.

No primeiro caso, espanta que alguém se possa identificar com um nome humilhante, mesmo não se estando no âmbito de uma praxe, mas fica claro até onde pode ir o constrangimento a que os caloiros são submetidos. A história mais recente ilustra a que ponto a praxe se refinou e se tornou uma atividade quase paralela às aulas, uma espécie de complemento curricular, sujeita a horário e marcação de faltas.

As praxes académicas são uma versão moderna das cerimónias iniciáticas, existentes desde tempos imemoriais, a que os jovens ou os novos aderentes a uma seita ou causa eram/são submetidos. Ser praxado, quando se chega ao ensino superior, significa que se ascendeu socialmente a um patamar diferenciador, que se está na antecâmara de obter o canudo de doutor, essa sacrossanta dignidade que em Portugal tanto se venera. É aqui que reside a popularidade da praxe. É por isso que as manifestações anti praxe são um fiasco. A malta curte a praxe…

Por outro lado, o caldo social que a faz prosperar é a força da assimilação cultural e a falta de formação cívica pois continuamos a ter um défice evidente de participação na vida coletiva, o que torna os jovens presas fáceis de práticas autoritárias que, não raro, ultrapassam os limites do civicamente admissível e do legalmente exigível.

Ser contra ou a favor das praxes é uma atitude de consciência e não cabe às instituições académicas protegê-las ou bani-las, apenas esclarecer os estudantes sobre os seus direitos, garantir a liberdade de escolha dos alunos que as recusam, acompanhar o processo e agir contra os infratores. Fora das instituições, os abusos são um caso de polícia.

Para os que insistem em demonizar as praxes e lhes contrapõem o que ocorria no tempo em que ser anti praxe era ser progressista, é preciso recordar que o país mudou e que hoje chegam também ao ensino superior os filhos dos que na época nunca tinham sonhado com essa possibilidade. Por isso, a praxe tornou-se uma marca democrática de ascensão social.
(Crónica publicada no Região de Leiria de 27 de Fevereiro de 2014)