sábado, 26 de abril de 2014

Discurso comemorativo do 40.º aniversário da revolução de 25 de Abril

Exm.º Sr. Presidente da Câmara Municipal de Leiria

Sras e srs deputados e deputadas municipais

Sras e srs vereadores

Sras e Srs Presidentes de Juntas e de Uniões de Freguesias

Autoridades e representantes de instituições, serviços e empresas

Minhas senhoras e meus senhores

Um cumprimento muito especial para os jovens

 

Estamos aqui reunidos para comemorar a passagem do quadragésimo aniversário do levantamento militar ocorrido a 25 de abril de 1974, organizado e protagonizado maioritariamente por oficiais subalternos das Forças Armadas Portuguesas, os chamados capitães de abril, em rutura com o regime autoritário e antidemocrático que amordaçava o país e em desacordo com a continuação da guerra colonial em África, tecnicamente há muito perdida para além de ilegítima à luz dos princípios internacionais aceites na altura, movimento armado que de imediato foi secundado por uma adesão massiva da população portuguesa e que logo ficou conhecido pela Revolução dos Cravos.

Independentemente da ação meritória dos militares, é da mais elementar justiça evocar a memória dos resistentes que durante décadas não se vergaram ao poder discricionário dos que lhe tolhiam a liberdade, não se deixaram abater pela violência das milícias do Estado Novo, não recuaram perante a tortura da polícia política, não deixaram de sacrificar bens, família, conforto, empregos, enfim, tudo que cada um tem o direito de poder fruir em paz e harmonia, para que a chama da liberdade se mantivesse acesa, para que a mensagem da esperança continuasse a afagar os espíritos dos que acreditavam na restauração da democracia, para que no dia em que o rastilho da liberdade se incendiasse o fogo sagrado do resgate da pátria chegasse rapidamente a todo o país, como aconteceu há precisamente quatro décadas.

Por isso se falou tanto e acertadamente na Aliança POVO-MFA (Movimento das Forças Armadas) e se recordo a designação completa é porque, infelizmente, não temos cuidado o suficiente de alimentar a nossa memória histórica e muitos dos mais novos quase nada sabem dessa gesta heroica de há quarenta anos que lhes preparou o caminho para que hoje possam viver num país profundamente mudado e que, apesar dos problemas que persistem e dos que resultam da evolução natural dos tempos, nada tem a ver com o país fechado sobre si próprio, mergulhado numa guerra sem sentido, onde a liberdade era coartada, o pensamento agrilhoado e as diferenças sociais abissais, que nós tão bem conhecemos e que os documentos da época comprovam à saciedade.

Nestes momentos comemorativos há uma certa tendência para evocar as esperanças sem limite que as portas escancaradas da liberdade permitiam e olhar nostalgicamente para a realidade concluindo que afinal pouco mudou e, aqui e ali, é mesmo possível escutar algumas vozes reclamando um novo 25 de abril, como se o país tivesse parado quarenta anos e fosse possível fazer retroceder o relógio do tempo para começar de novo.

Independentemente das posições políticas de cada um e das suas convicções mais profundas, é absolutamente indesmentível que a Revolução dos Cravos abateu os muros que cerravam Portugal e deu início a um conjunto importantíssimo de mudanças políticas, sociais e culturais que em tropel provocaram um verdadeiro terramoto no equilíbrio débil de uma sociedade anquilosada, rapidamente obrigada a reinventar-se à medida que o novo Portugal se ia robustecendo.

O atraso em que vegetava a vida social em Portugal, completamente fora do tempo da época, é bem ilustrado pelo desconforto sentido até pelos portugueses espalhados pelos quatro cantos das colónias quando regressavam de visita à “metrópole” e se confrontavam com as imagens de mulheres idosas embiocadas nos seus trajes e lenços negros, de buço farto e gengivas descarnadas, imagens que ficaram para a história como testemunho de um povo oprimido, insuportavelmente pobre e atrasado.

O Portugal de hoje é uma nação moderna, as nossas empresas ombreiam com as melhores do mundo, os nossos técnicos são excelentes, as nossas escolas e os nossos serviços de saúde são de elevadíssima qualidade, os nossos cientistas fazem ciência de topo no país e integram equipas de grandes centros de investigação de outros países, as nossas forças armadas participam em missões internacionais de igual para igual com as de outras bandeiras, as nossas polícias interiorizaram a sua missão democrática e são muito competentes tecnicamente, os nossos desportistas são conhecidos em todo o lado, os nossos produtos têm difusão planetária, o nosso país é procurado por estudantes e turistas de todo o mundo, enfim, Portugal é um país respeitado no concerto das nações e os portugueses são cidadãos do mundo de pleno direito, com capacidade de afirmação e de intervenção em igualdade de circunstâncias com os melhores.

É um orgulho imenso sermos portugueses e esta é, para mim, a maior conquista da revolução de abril, sem as portas que então se abriram nunca seríamos o que somos, como pessoas e como povo, e não adianta chorar, lamentar, protestar contra o que não aconteceu e cada um gostaria que tivesse acontecido, a evolução das sociedades é sempre complexa, não há movimentos civilizacionais de sentido único, a ideia do fim da história, isto é da possibilidade de se alcançar um momento em que se atingiu o topo, como se de uma montanha se tratasse, é um delírio intelectual, as sociedades avançam e recuam, têm os seus momentos épicos e as suas derrotas, os seus tempos de grandeza e de apagamento, mas passados quarenta anos sobre a libertação da utopia que parecia tudo permitir não é avisado olhar para trás com saudosismo, pelo contrário, é o futuro que nos interessa, renovar a utopia é o caminho para novas conquistas, acreditar que os problemas que subsistem são a razão para continuarmos a lutar, que os novos problemas são apenas o princípio de novas soluções, que o futuro se constrói a olhar para a frente e não a carpir mágoas sobre as desilusões do passado ou do presente.

É por isto que acredito que comemorar o 25 de Abril não é olhar para trás e comprazer-nos com as esperanças, as expectativas, os sonhos que nos preencheram; tal como todos os anos comemoramos os nossos aniversários com o sentido de que o tempo não para e que estar vivos significa ter novos projetos, novos desafios, novas oportunidades, comemorar uma revolução com a grandeza desta implica mobilizar as jovens gerações não apenas pela pedagogia do culto democrático, mas pela vivência cívica que resulta do seu envolvimento em atividades que façam sentido para quem nasceu noutro mundo, razão que nos obriga a reinventar quotidianamente a Revolução dos Cravos para que os jovens não nos olhem como representantes de uma espécie em extinção que se alimenta de memórias nostálgicas e de ideias que não compreendem; a revolução viveu-se na rua e é na rua que os jovens a encontram, a comemoram, a vivem, é a festa da liberdade todos os dias renovada mas de tão importante nem dão por ela, como o ar que se respira, que só quando nos falta damos por ele.

Quarenta anos volvidos sobre esse dia luminoso que nos devolveu a esperança e nos mudou a vida é necessário encarar os novos desafios que o país tem pela frente, à cabeça dos quais coloco a necessidade imperiosa de inverter a quebra da natalidade. Não se trata de alarmismo, mas de percebermos que a prazo somos um país condenado se não invertermos esta verdadeira peste. Sem gente não há futuro.

O outro grande desafio é superar um problema antigo, a nossa dependência dos credores externos. A célebre passagem dos Maias “A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...” mantém, para mal dos nossos pecados, toda a atualidade. Mas há hoje condições como nunca anteriormente para ultrapassarmos este atavismo luso. Já não somos um povo perdido nos confins da Europa, envoltos na bruma marinha à espera de um qualquer D. Sebastião, somos parte plena da grande pátria europeia, cidadãos do mundo, porta de entrada para o continente, plataforma intercontinental, sabemos como nenhuns outros relacionar-nos com todos, apenas nos falta acreditar em nós próprios, disciplinarmos as nossas competências, irmos à luta com a convicção de que o Céu é o limite para as nossas ambições.

E tudo isto só é possível porque num tempo de chumbo homens e mulheres de fibra deram o melhor de si pelos ideais de liberdade, de igualdade, de justiça social, porque não temeram a prisão, a tortura e o exilio, porque militares descontentes com o regime e com a guerra, pegaram em armas, porque os portugueses anónimos, o POVO, se levantaram, se uniram, sonharam e todos em conjunto construímos um país novo, com uma história milenar pontuada de sucessos inimagináveis e um futuro que há de ser grande como grandes são os feitos dos portugueses.

Viva a revolução dos Cravos

Viva o futuro

Viva Leiria

 

Leiria, 25 de Abril de 2014

 

José Manuel Silva

Presidente da Assembleia Municipal de Leiria

As portas do mundo que Abril abriu


Um dia acordei e as tropas estavam nas ruas. Começou aí um dos períodos mais desafiantes da minha vida e ter tido a oportunidade de viver uma revolução e de ser parte dela é uma experiência empolgante e inolvidável; muito do que sou tem a marca desse período em que me moldei para a vida nos valores da liberdade, da democracia, da justiça social, inebriado pela ideia de ajudar a mudar o mundo.

E o mundo mudou, e muito. O Portugal de hoje mantém as suas raízes centenárias mas os seus ramos cresceram em múltiplas direções, somos europeístas, que sempre fomos, naturalmente, mas buscámos sempre no Atlântico e a partir dele nos outros mares o que a Espanha nos barrava, um caminho livre para a Europa mais central. O mar foi a opção inteligente para um povo que se quis independente, sem a aventura dos descobrimentos não teria sido possível manter a independência face ao gigante Castelhano.

Entre “As portas que Abril abriu”, como diz o poeta Manuel Alegre, a Europa foi das mais inspiradoras, o Portugal contemporâneo é produto deste recentrar da história Lusa, da Europa não nos vieram só os milhões, veio-nos uma nova mentalidade, feita de abertura de espírito, de respeito pelos outros, pelos seus costumes, ideologias e línguas, os jovens portugueses são um produto e um exemplo de engenharia educativa e social ao serviço da transformação dos povos, veja-se o programa Erasmus que tem feito mais pela cidadania europeia do que qualquer empreendimento unificador resultante de sonhos imperiais.

É certo que Portugal foi sempre um desbravador de mundos, mas sem a integração atual na União Europeia nunca teríamos chegado onde estamos em termos de abertura a todas as latitudes, por uma razão simples, Portugal não tinha escala para construir as bases indispensáveis a uma alavancagem das suas potencialidades.

Apesar de terem passado apenas quarenta anos o salto dado pelos país e pelos portugueses foi marcante, o Portugal de hoje é profundamente diferente do país onde nasci, quase medieval, fechado sobre si próprio, onde as desigualdades sociais eram brutais. Hoje alguns tendem a querer diminuir o património de Abril, como se de uma revolução falhada se tratasse. Pelo contrário, foi Abril que nos abriu as portas do futuro e é por isso que os portugueses se sentem hoje verdadeiros cidadãos do mundo.

 (Publicado no Região de Leiria, Abril)

Este país não é para seniores


Portugal vai envelhecendo a passos rápidos e se lhe juntarmos a baixíssima taxa de natalidade temos o cocktail explosivo que um dia fará implodir o país já que esta peste demográfica vai corroendo o tecido social e tornando a situação insustentável a todos os níveis.

O prolongamento da esperança média de vida gera situações novas e, num prazo relativamente curto, o país passou da fase do cuidar familiar dos idosos para a da institucionalização generalizada dos seniores, designação que ajuda a disfarçar a carga negativa da palavra velho, muitas vezes equivalente a coisa pouco sexy, a cota, a algo desqualificado, ao contrário do que ocorre noutras sociedades onde os “mais velhos” gozam de um estatuto especial em reconhecimento do seu capital de conhecimentos e experiência.

Os seniores correspondem hoje a um segmento da população com necessidades muito próprias, a um alvo comercial específico, mas também a um grupo muito fragilizado socialmente, sujeito a abusos de toda a ordem e cujos elementos correm sérios riscos de atingir a linha final totalmente despersonalizados, como consequência de doenças várias ou como resultado da forma como são cuidados.

O internamento generalizado em lares, corresponde muitas vezes a uma espécie de punição injustíssima por ditar que uma pessoa seja arrancada da sua casa, separada dos seus pertences, dos seus animais de estimação, dos seus vizinhos, no fundo do que dava significado à sua vida, para ser internada num espaço que lhe é estranho, tratada por pessoas que não lhe são nada, partilhando quarto, wc e quotidiano com gente desconhecida que em comum apenas partilha o mesmo destino.

A institucionalização, que devia ser a última alternativa, tornou-se a primeira escolha, fruto das condicionantes da vida atual, do comodismo familiar, da ausência de políticas arrojadas, da falta de consciência generalizada de que os seniores não podem ser deixados simplesmente à sua sorte.

Ao contrário do que tem feito escola, é urgente inverter as políticas de apoio aos seniores, é necessário montar redes sociais eficazes que tornem sustentável mantê-los no seio das famílias, nas residência próprias, em residências assistidas, reforçar os centros de dia, as oportunidades de socialização, de estudo, de diversão e recorrer apenas ao internamento em lares como último recurso. A despersonalização é uma fronteira que não deve ser cruzada.
(Publicado no Região de Leiria, Março)