quarta-feira, 18 de abril de 2018

Os invisíveis

Alguém sabe quantos portugueses vivem sós, mesmo que acompanhados? Explico, para além de idosos que vivem sozinhos, há idosos que vivem em casal, mas um dos membros está afetado por uma grave doença e comunica deficientemente ou não comunica mesmo. Nos lares têm cuidadores que lhes tratam, melhor ou pior, das dores do corpo, mas as do espírito, quem os ajuda a suportar a caminhada que não devia ser apenas um fim de linha? A solidão acompanhada não deixa de o ser, apenas parece ser o que não é. Este problema é gravíssimo e tem tendência a agravar-se, mas as medidas para o combater são insuficientes ou inexistentes. São cidadãos que, na generalidade, tiveram uma vida profissional mais ou menos bem sucedida, constituíram família, têm filhos, netos, mas a idade avançada condenou-os ao isolamento, à solidão, ao silêncio. Neste tempo de festas, o problema ganha novos contornos quando os idosos são “despejados” nos hospitais para que a restante família possa passar uns dias sem o peso de os cuidar. É imoral? É, mas a dura realidade não nos deve levar à condenação, antes à compreensão e à mobilização da consciência coletiva para que, ao menos no futuro, possamos fazer diferente. Estes portugueses são “invisíveis”, vivem nas suas casas ou em lares, não aparecem nas estatísticas, não têm sindicato, não fazem greves nem manifestações, não são mediáticos, não “existem” para quem não os procura, não os visita, não os quer ver. E não é bonito o que se vê quando se espreita para lá da cortina que os esconde. São assim as nossas sociedades “desenvolvidas”, marginalizam os mais velhos, internam-nos em lugares despersonalizados, condenam-nos ao silêncio, guardam-nos como sapatos velhos num armário bafiento. É este o futuro que desejamos? Certamente que não; então é tempo de mudar de paradigma e reincluir os idosos na sociedade que os segregou. (10-01-01/Região de Leiria)