Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

A majoração da estupidez avaliativa

Segundo o Diário de Notícias e com a devida vénia...

Quotas de Excelente e Muito Bom irão variar entre estabelecimentos

O resultado da avaliação externa das escolas, que o Ministério da Educação está a conduzir, vai ter consequências na carreira dos professores que ali leccionam. Isto porque, segundo anunciou ontem o secretário de Estado adjunto da Educação, Jorge Pedreira, os estabelecimentos que registem melhores desempenhos serão discriminados positivamente na percentagem de classificações de "Excelente" e "Muito Bom" que poderão dar aos seus docentes, sendo que estas notas permitem progredir mais rapidamente na carreira.A revelação de Jorge Pedreira surgiu no final da primeira reunião da comissão paritária de acompanhamento do processo de avaliação, que inclui o Ministério e representantes de doze estruturas sindicais. O secretário de Estado explicou que as quotas para atribuição das melhores notas serão "muito aproximadas" das que se aplicam na generalidade da administração pública. Ou seja: os valores deverão situar-se nos 5% para as classificações máximas e 20% para as imediatamente inferiores. O governante admitiu, no entanto, que "haverá também, neste caso, majorações para as escolas que tenham melhor avaliação externa".

Um puxão de orelhas

Sou de uma geração habituada a conviver com símbolos muito especiais. Quando entrei na escola primária as referências que mais me marcaram foi o odor muito característico daquela sala, entre o cheiro a madeira encerada e a pés mal lavados, as fotografias do Marechal Carmona, Presidente da República, e do Prof. Oliveira Salazar, Presidente do Conselho, como então se dizia, um crucifixo entre as duas, a marcar o ponto central da simetria da parede fronteira, um quadro preto por baixo e abaixo deste o estrado onde se destacava em todo o seu esplendor a secretária do professor, por acaso uma professora, já com uma idade provecta e que se deixava dormir nas aulas, quando fazíamos as contas. Os símbolos dos símbolos eram um ponteiro de cana da Índia e uma régua de bom porte e de madeira rija.
A professora não fazia mal a uma mosca, mas não me lembro que a Sr.ª me tenha ensinado nada durante a 1.ª classe, sei que estou a ser injusto, mas sincero, mas como aprendi a ler, escrever e contar deve ter sido ela que me ensinou.
Tudo mudou na 2.ª classe quando o marido nos veio dar aulas. O ponteiro e a régua tornaram-se instrumentos de uma pedagogia cirúrgica que actuava onde doía mais, nas mãos, particularmente nos nós dos dedos, e nas orelhas. Era um vê se te avias de reguada e ponteirada e quando a coisa ficava feia eram bofetões, calduços (em alentejano da época cachações) e pontapés no traseiro quando a malta se punha a jeito.
Por incrivel que possa parecer adorávamos o professor e no meia daquela pancadaria toda, hoje inimaginável, ainda nos sobrava tempo para fazer as mais incríveis tropelias. Era seguramente uma versão do "quanto mais me bates, mais gosto de ti", hoje completamente fora de moda.
Agora um simples puxão de orelhas é quase crime e o professor que se atrever a isso ou num acto desesperado não se controlar conta, pela certa, com uma sanção disciplinar pesada. Este facto só reforça a necessidade de não se pereder de vista a responsabilidade do colectivo de cada escola na manutenção da disciplina necessária ao bom desenvolvimento das actividades de ensino e aprendizagem, não remetendo para cada professor, individualmente considerado, o ónus de sozinho resolver um problema que em muito o ultrapassa.
Os casos comportamentalmente mais graves que se registam nas escolas ocorrem naquelas onde não há uma estrutura sólida de resposta colectiva, onde os regulamentos são letra morta, onde não há trabalho preventivo com os alunos e as respectivas famílias e onde os professores são, literalmente, atirados para a fogueira.

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Queres fazer amor comigo?

E se um aluno, assim sem mais, faz uma proposta destas a uma professora em plena aula? Como se pode reagir? E depois, que relacionamento se pode manter com o aluno se este continuar na turma?
Vá lá, não te acanhes, dá a tua opinião, ajuda a lidar com estes problemas. O melhor antídoto é uma estratégia preventiva. Será que não acreditas que estas coisas se aprendem? Para dar aulas não chega ter conhecimento científico ou dominar as metodologias de ensino, é preciso ser expert em relações humanas.

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Autonomia das escolas

O processo volta a mexer. Depois de meses de hibernação o ME acordou. Mais vale tarde do que nunca, mas esperemos que o processo não descarrile com a pressa que agora parece ter chegado às estruturas do Ministério.
O ambiente geral é de algum cepticismo acerca do processo. Eu quero ser optimista mas ou as escolas passam a falar mais grosso ou a autonomia será sempre uma miragem. Como todos sabem, a autonomia conquista-se, não se outorga.

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Pais responsáveis

Ultimamente tenho encontrado muitos colegas que me falam constantemente da responsabilidade dos pais na educação escolar dos filhos. Estamos todos de acordo que as famílias têm uma enorme importância e que sem o seu concurso a escolarização das crianças e jovens, e tudo o que isso implica, fica muito muito mais difícil.
Mas quando os pais, pelas mais diversas razões, não podem ou não querem colaborar com a escola o que fazemos? Acusamo-los e condenamos os filhos ao fracasso ou temos de continuar a fazer o nosso serviço o melhor que sabemos e podemos e deixar-nos de lamentações que não resolvem problemas?
Pois é, de tanto se quererem responsabilizar os pais até parece que queremos ser nós a desresponsabilizar-nos.

Domingo, 11 de Maio de 2008

Liderança escolar na América Latina

A Rede de Liderança Escolar é uma das redes através das quais se dá continuidade ao Projeto Regional de Educação (PRELAC) no Escritório Regional de Educação da UNESCO para a América Latina e o Caribe (UNESCO/Santiago). A rede surge de diversas constatações, entre as quais se destacam:
.: Apesar de vultosos investimentos, a qualidade da educação nestes países mantém-se baixa.
.: O director e as equipes directoras desempenham um papel-chave na implementação eficaz das mudanças propostas pelas reformas educacionais.
.: As escolas de qualidade têm projetos institucionais próprios, assumidos e geridos coletivamente, com directores-líderes e intensa participação da comunidade.
Por isso, o objetivo primordial da RedLIDER está centrado no fortalecimento das capacidades de liderança técnico-institucional dos directores de centros escolares e suas equipes de direcção.
Dê uma vista olhos e constate que lá, como cá, a liderança escolar tem de estar na primeira linha. Sem liderança não há escola com qualidade.

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Vocação ou expiação

Pois é, o colega que comentou o post anterior, a propósito da vocação, colocou o dedo na ferida, mas deixe-me dizer-lhe que o problema dos professores, nos tempos que vão correndo, não é apenas de vocação ou falta dela.
O cerne da desmotivação, que assume também o aspecto da aparente falta de vocação, é a consequência de uma política de desvalorização dos recursos humanos, da incapacidade para criar um laço afectivo com a classe por parte dos responsáveis do ME.
Fosse outra a política, outro o respeito pelos professores, outras as condições de trabalho, outra a perspectiva de carreira e iria ver como as vocações voltavam a florescer.
Eu sei que isto não lhe serve de consolo, mas ser professor ameaça deixar de ser uma vocação para se transformar numa autêntica expiação.

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Formação ou deformação?

O ME, em colaboração com as Instituições de Ensino Superior tem vindo a desenvolver três programas de formação contínua em Português, Matemática e Ciências, destinados a docentes do 1.º ciclo do Ensino Básico.
Os professores têm acesso a formação de qualidade, que é completamente gratuita, aumentam o seu conhecimento científico e treinam novas competencias metodológicas e práticas.
Pergunta.
Porque é que tantos professores acham um frete esta formação, a encaram como um peso e passam a vida a protestar?
Hipóteses de resposta.
a) Acham que já sabem tudo e que não precisam de aprender nada.
b) Queriam ter de pagar a formação porque não gostam de borlas.
c) Preferiam ter formação ao fim-de-semana quando os alunos não estão nas escolas.
d) Nenhuma das anteriores.

Cartas na mesa

A Ministra da Educação teve ontem a sua melhor prestação televisiva. Descontraída, segura, até sorridente, respondeu sem dificuldades deixando uma excelente imagem da sua gestão. A entrevistadora, Constança Cunha e Sá, preparou mal a entrevista e sabe pouco de educação, o que contribuiu para o "brilho" da Ministra.
A pergunta que não foi feita era a mais importante - os critérios absurdos do concurso para titulares. Será que não se percebe que a contestação da avaliação radica (também) na total iniquidade dos critérios que presidiram àquele concurso e que inquinaram em definitivo tudo o que veio, e venha, a seguir em matéria de carreira e avaliação?
O manto de silêncio que existe à volta deste assunto é um dos insondáveis mistérios da galáxia educativa.
Na prova da entrevista, ponderados todos os critérios, dou medíocre (assim mesmo, à antiga) à entrevistadora e excelente à Ministra.