terça-feira, 3 de julho de 2018

O negócio dos refugiados

O problema dos refugiados tem originado clivagens políticas importantes entre os parceiros europeus e está a influenciar decisivamente os resultados eleitorais, com o reforço dos partidos menos tolerantes ao fluxo descontrolado de refugiados. O último e mais emblemático episódio, ocorreu com o navio Aquarius, impedido de aportar a Itália. A reação foi dúplice, de condenação veemente por muitos, de aplauso por outros tantos; no entanto, para compreender o que se passa e procurar as melhores soluções é necessário olhar para o problema não apenas como uma questão humanitária, mas como uma questão política de fundo e uma das faces de um negócio milenar de tráfico humano. Convém recordar que foram os americanos e os europeus a originar este movimento quando, mais uma vez, quiseram desenhar países à sua imagem e semelhança. Geraram o caos na região, destruíram países estáveis e agora têm-se mostrado incapazes de resolver o problema que criaram. Face ao tráfico, alimentado por redes mafiosas africanas, asiáticas, do Médio Oriente e europeias, que criaram diversos corredores de trânsito que terminam na Europa, a solução defendida como moralmente superior é acolher toda a gente. Pode tentar disfarçar-se o óbvio, mas é impossível, e contrário aos interesses europeus, acolher milhões de pessoas indiferenciadas e cujas condições para se integrarem nos países de acolhimento fica muito aquém do que se propaga, como se tem visto em Portugal. Isto não é apenas um problema humanitário é, sobretudo, uma questão política e uma batalha contra o crime de tráfico de pessoas. Quanto mais permissivas forem as políticas relativamente a este problema, mais rapidamente a Europa se transformará numa fortaleza autoritária, xenófoba e limitadora de muitas liberdades. O voto é como os cataventos; aponta na direção para onde sopra mais forte.(18/06/21 Região de Leiria)

O Tempo longo da História

Vivemos numa época em que tudo parece ser vivido e esgotado no momento. É o tempo da comunicação instantânea e em rede, sempre informados, sempre carentes de informação, muitas vezes mal informados e pouco esclarecidos. A maioria das questões noticiadas não são compreensíveis se apenas olhadas pelo flash informativo do momento, muito menos, se à compreensão se substituir o desejo de estimular as sensações. Quando, por exemplo, se prende sob o olhar atento das câmaras de televisão, não interessa o que representa essa prisão, apenas as sensações que se despertam num público ávido de voyeurismo e sempre pronto a excitar-se com espetáculos onde há sofrimento, vítimas e força bruta. Sempre assim foi desde que a espécie humana deixa a sua pegada no planeta. À contextualização rigorosa dos factos, prefere-se o lado escandaloso que se adensa pela forma como as histórias são narradas, como os protagonistas são caricaturados, a traço grosso, como se tudo fosse a preto e branco e apenas houvesse uma versão, a que se vai escrevendo como somatório de opiniões diversas, que se confundem com a heurística e a hermenêutica indispensáveis ao tratamento credível de qualquer matéria, seja um crime ou um ato de heroísmo. O populismo é a máscara mais visível do reflexo desta informação do instante e não surpreende que estejamos a ver empolgar-se a onda que por todo o mundo varre as democracias e ameaça fortemente a estabilidade europeia e mundial, quando o desnorte dos eleitorados se torna no veneno com que atentam contra si próprios. É oportuno recordar que o tempo breve não permite descortinar o mais importante, isso só o tempo longo nos concede alcançar, a miríade informativa não dispensa a reflexão serena da realidade, pois nem tudo se esgota no tempo de uma notícia sensacionalista.( 18/05/24 Região de Leiria )

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Jovens em transe

A situação não é nova, mas é crescentemente preocupante. Falamos dos jovens que chegam à idade adulta sem um projeto de vida definido, não conseguem encontrar uma atividade profissional condizente com as suas habilitações e expectativas, mas não abdicam de um estilo de vida acima das suas possibilidades próprias e só mantido à custa do apoio dos pais, avós e outros familiares. Uma percentagem significativa destes jovens são oriundos de famílias da classe média ou alta, com rendimentos mensais apreciáveis e que sempre lhes puderam propiciar condições de vida confortáveis. Chegados ao fim dos estudos superiores, confrontam-se com dificuldades várias no acesso aos empregos a que se julgam com direito, dão conta de que o mundo mediático que todos os dias reporta casos de sucesso de jovens talentosos que fazem fortuna de um dia para o outro lhes passa uma imagem desfocada da realidade que conhecem e acomodam-se ao conforto parental enquanto vão esperando que o acaso lhes resolva o problema. Duas situações agravam este cenário, por um lado percebem que não vão conseguir facilmente chegar ao nível remuneratório e social dos pais, por outro, habituados a facilidades, julgam ser dever dos progenitores continuar a sustentá-los incluindo os seus prazeres e vícios. Incapazes de se lançarem ao mundo, vão engrossando o mercado da formação que, nalguns casos, apenas prolonga a ilusão ou deixam-se ficar numa inação doentia, enquanto as famílias, preocupadas mas incapazes de definirem linhas vermelhas, não lhes apontam caminhos realistas, ainda que desconfortáveis. Haverá situações muitos piores, mas este grupo muito específico de jovens precisa de atenção crescente, sobretudo que as suas famílias não lhes alimentem o sentimento de perda e frustração e os empurrem para a vida, em vez de os tratar como coitadinhos vítimas dos tempos. (18/05/10 Região de Leiria)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Quotas de género na política

Como sempre vivi em ambientes profissionais dominados numericamente por mulheres e fui educado e me tenho comportado como um igual às cidadãs, tenho sempre alguma dificuldade em avaliar de forma fria este tipo de discussões sobre as quotas de género. É certo que a legislação ajuda a mudar as sociedades e que a engenharia social pode ser muito importante, mas fica-me sempre a dúvida se não estamos a incorrer no mesmo erro dos escuteiros que queriam ajudar a velhinha a atravessar a rua, para fazerem a sua boa ação do dia, com a simples nota negativa de que a senhora não queria. Ora, se as mulheres são maioritárias em inúmeras atividades e lideram hoje em muitas áreas, a sua sub representação na política é apenas resultado do "machismo" ainda vigente? Não acredito, a política é uma atividade que não interessa a muita gente, aliás, interessa a cada vez menos pessoas, e talvez muitas mulheres prefiram fazer coisas mais úteis. Se vingar uma conceção fundamentalista das quotas, seremos forçados a aceitar quotas de género, de cor, de orientação religiosa, de orientação sexual, de estatuto económico e por aí fora, até termos feito da democracia um carrocel de quotizados.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

O paradoxo escolar

Pode uma organização que quer educar para o futuro, usar metodologias e profissionais do passado? Não pode. A organização e os métodos da escola atual são do passado e a esmagadora maioria dos professores são migrantes digitais e muitos continuam a ser iletrados digitais. Muitas escolas funcionam em total ignorância do que são as regras básicas de comunicação de uma sociedade digital e basta enviar um e-mail a um diretor ou a professor de boa parte das escolas para perceber a distância que separa a comunicação instantânea que a sociedade promove, e sem a qual já não se pode viver, do tempo que alguns julgam ser o do espaço pedagógico onde se arrastam. Ainda não há muito tempo, numa ação de avaliação de uma escola, um professor me afirmou que não autorizava que os pais dos alunos, que lhe pagam o salário, tivessem acesso aos seus contactos e se lhe pudessem dirigir diretamente. Esclarecedor. Recentemente, um estudo promovido pela União Europeia comprovou prospectivamente que a maioria (63%) das crianças que hoje frequentam os jardins-de-infância vão exercer profissões que ainda não existem. E o que estamos a fazer para as educar para o mundo que as espera? O mesmo que fazíamos há muitos anos atrás, quando não havia computadores, telemóveis, WhatApp, Facebook, Instagram e toda a miríade de soluções tecnológicas que mudaram o mundo, nos mudam a nós e estão a mudar as crianças que hoje entram nas escolas e reclamam outra escola, outras metodologias, outros currículos e professores preparados para lidar com tudo isso. Para a geração dos nativos digitais, multitask e que consultam o telemóvel de 10 em 10 segundos é credível escolarizá-los num modelo que tem dois séculos? Impossível, e é aqui que nasce o equívoco da escola que temos e o paradoxo de querermos construir o futuro com uma escola do passado. Morte à escola, viva a escola.(18-04-14/Região de Leiria)

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Longevidade e cuidadores

Já todos sabemos que estamos a envelhecer e quando vivemos de perto a situação dos nossos familiares e mais próximos percebemos como não é fácil garantir a todos um fim com a dignidade, a privacidade e o conforto a que devíamos ter direito. Como muitas outras coisas, conhecemos o problema, sabemos que o futuro nos levanta muitas interrogações, sobretudo se não anteciparmos as soluções, mas vamos adiando como se esperássemos que algum facto inesperado mude a realidade. No entanto, os números não mentem. Em 2017, haveria no mundo 962 milhões de pessoas com 60 e mais anos; em 2050 estima-se que existam 2,1 biliões. Em 2017, 137 milhões com 80 e mais anos; em 2050, 425 milhões. Em Portugal, em 1971, 28% da população tinha entre 0 e 4 anos, 62% entre 15 e 64, e 10% 65 ou mais anos. Em 2016, para os mesmos intervalos, 14%, 65% e 21. Os primeiros ficaram reduzidos a metade, os últimos mais do que duplicaram. Se hoje em dias se estima que existam 800 mil cuidadores informais não remunerados, e ninguém sabe quantos existem no total, incluindo os profissionais, imagine-se como vai ser o futuro. Por isso são de saudar todas as iniciativas que contribuam para se encontrarem soluções, sendo que o Estado tem um papel importante, mas jamais se poderá pensar em deixar apenas à sua responsabilidade a solução de uma questão que a todos nos implica e que, gerando problemas, também cria oportunidades. A discussão do Estatuto dos Cuidadores é oportuna e necessária, mas está muito longe de esgotar o tema. Não são só os cuidadores familiares, designação que prefiro a informais, que precisam de atenção, e os “profissionais informais” que também não têm estatuto, carreira ou formação reconhecida e cujo nível remuneratório é ditado exclusivamente pela oferta e procura? Temos de olhar para a floresta, não apenas para a árvore. (18-03-25/Região de Leiria)

5 estrelas

O Movimento 5 Estrelas, fundado por um comediante, que começou por ser encarado como uma anedota política e se assume como antissistema, foi o partido mais votado nas eleições legislativas italianas. Seguiram-se os partidos anti imigração, xenófobos e de direita, mais ou menos radicais. O socialista Mateus Renzi, ex primeiro ministro, teve um resultado dececionante. Moral da história, a Itália está outra vez num impasse político e as forças anti Comunidade Europeia e eurocéticas ganharam em toda a linha, razão para ficarmos ainda mais atentos e preocupados com o futuro do projeto de uma Europa unida e coesa em torno de uma economia poderosa e de valores democráticos, igualitários e solidários. As forças centrífugas são cada vez mais poderosas e o quadro de valores fundacionais que serviu de cimento agregador no pós guerra estão claramente em xeque, com o desaparecimento dos partidos tradicionais, o recrudescimento de tendências populistas, xenófobas e autoritárias e a multiplicação de impasses políticos que comprometem a eficácia governativa e lançam o descrédito entre os cidadãos. O Brexit, o interregno na Alemanha, a tentativa independentista na Catalunha, o autoritarismo húngaro, a negação polaca sobre o holocausto, as divergências sobre a melhor resposta ao êxodo dos refugiados, a eclosão de novos partidos fora do sistema tradicional, a pulverização dos votos, são tudo sinais a aconselharem uma reflexão ponderada, sem alarmismos, mas realista, sobre um mundo em mudança profunda e que não voltará a ser o que era. Tal como as placas tectónicas, as sociedades movem-se e os ajustamentos são inevitáveis. Contrariar o curso da História é inglório, compreender a mudança é obrigatório, agir para construir o futuro é indispensável. É isto que temos de perceber para assegurar a coesão social e a consolidação do projeto europeu. (18-03-06/Região de Leiria)

O futuro do Ensino Superior

O Governo tornou público um relatório da OCDE sobre a situação e o futuro do Ensino Superior Português. A maior lacuna deste relatório é debruçar-se apenas sobre o ensino superior tutelado pelo Estado, não havendo praticamente uma linha sobre o ensino superior privado, que representa quase 20% do total, e que é ignorado com um parceiro importante e como um ator fundamental do processo de reforma indispensável. O relatório, ainda em fase de recolha de contributos, não diz nada que não se saiba, mas sublinha as nossas fragilidades e aponta alguns caminhos a seguir que não se deviam perder de vista para benefício do sistema e, sobretudo, do país. De forma telegráfica, sublinhamos o essencial. É fundamental aumentar o fluxo de estudantes do secundário para o superior, com particular destaque para os oriundos dos cursos profissionais, o que exige uma mudança de paradigma no sistema de acesso. As universidades e os politécnicos continuam demasiado dependentes do respetivo ministério e os seus figurinos de gestão estão ultrapassados, a lógica da gestão empresarial devia substituir a lógica burocrática de um serviço público e o financiamento devia ser cada vez mais autónomo e diversificado, por outro lado a interação com as empresas continua muito aquém do desejável. Os corpos docentes estão envelhecidos e são demasiado fechados, não há abertura a contratação de docentes estrangeiros e as promoções são endógenas, o que dificulta a renovação e a abertura à inovação. As instituições, sobretudo as do interior, não são vistas pela comunidade como pólos essenciais de desenvolvimento regional, pelo potencial formativo, de investigação e de partilha de conhecimento e pivots da criação de riqueza e da fixação de pessoas. O diagnóstico, mais um, está feito. Falta a ação, que depende das forças políticas mas também de cada um de nós. (18-02-10/Região de Leiria)

Super hipocrisia

Em 2017 houve mais 24 mil mortes do que nascimentos; é a peste branca a dizimar-nos, mas quem se preocupa com isso? Importante é a Super Nanny, o programa diabolizado por quase todos e que nos atira à cara o que fingimos não ver, a educação das crianças e dos adolescentes transformou-se num enorme problema e parece que a resposta, politicamente correta, é negar a realidade. Se mudarmos família por escola, a questão é a mesma e os próceres das ideias certas insistirão que não se passa nada, a culpa é dos professores, como nas famílias é dos pais. A favor dos direitos das crianças e dos jovens, tudo, que deveres é coisa menor, e o que aponte os queridos pestinhas como necessitando de reprimenda corretiva mais severa, atenta contra os seus sacros direitos. Não discuto estes, nem legitimidades, apenas me interessa partilhar o que vi, vimos todos, crianças insuportáveis, famílias descompensadas, quotidianos familiares inimagináveis, ausência de regras, de rotinas, de capacidade de se separarem águas entre quem educa e quem devia ser educado. Quem não se reviu por momentos em um qualquer dos takes exibidos, quem nunca experimentou o desespero de lidar com situações que roçam o descontrolo, quando as crianças ou os adolescentes entram numa espiral de confronto em que os pais passaram a ser o elo mais fraco? O programa choca as nossas consciências formatadas nos direitos das crianças, mas alerta para um problema gravíssimo que não se resolve ignorando-o e, como é sabido, o primeiro degrau para resolver um problema é admitir que ele existe.(18-01-22/Região de Leiria)

Os invisíveis

Alguém sabe quantos portugueses vivem sós, mesmo que acompanhados? Explico, para além de idosos que vivem sozinhos, há idosos que vivem em casal, mas um dos membros está afetado por uma grave doença e comunica deficientemente ou não comunica mesmo. Nos lares têm cuidadores que lhes tratam, melhor ou pior, das dores do corpo, mas as do espírito, quem os ajuda a suportar a caminhada que não devia ser apenas um fim de linha? A solidão acompanhada não deixa de o ser, apenas parece ser o que não é. Este problema é gravíssimo e tem tendência a agravar-se, mas as medidas para o combater são insuficientes ou inexistentes. São cidadãos que, na generalidade, tiveram uma vida profissional mais ou menos bem sucedida, constituíram família, têm filhos, netos, mas a idade avançada condenou-os ao isolamento, à solidão, ao silêncio. Neste tempo de festas, o problema ganha novos contornos quando os idosos são “despejados” nos hospitais para que a restante família possa passar uns dias sem o peso de os cuidar. É imoral? É, mas a dura realidade não nos deve levar à condenação, antes à compreensão e à mobilização da consciência coletiva para que, ao menos no futuro, possamos fazer diferente. Estes portugueses são “invisíveis”, vivem nas suas casas ou em lares, não aparecem nas estatísticas, não têm sindicato, não fazem greves nem manifestações, não são mediáticos, não “existem” para quem não os procura, não os visita, não os quer ver. E não é bonito o que se vê quando se espreita para lá da cortina que os esconde. São assim as nossas sociedades “desenvolvidas”, marginalizam os mais velhos, internam-nos em lugares despersonalizados, condenam-nos ao silêncio, guardam-nos como sapatos velhos num armário bafiento. É este o futuro que desejamos? Certamente que não; então é tempo de mudar de paradigma e reincluir os idosos na sociedade que os segregou. (10-01-01/Região de Leiria)

Viagens de pesadelo

O tema viagens tem assombrado alguns deputados das regiões autónomas. Um demitiu-se por "prática incorreta", outra vai repor verbas recebidas "indevidamente", o líder parlamentar do PS afirmou que agiu de forma "eticamente irrepreensível" e o Presidente da AR veio declarar que sempre assim se fez e que alimentar estas suspeitas "apouca a democracia". Entretanto, o Secretário Geral da AR pediu um parecer, o que costuma ocorrer quando há dúvidas sobre a legalidade de qualquer ato. Não tenho dados para tomar uma posição, mas estes acontecimentos são cíclicos e são a prova de que não há transparência nem princípios robustos sobre as práticas que sustentam a atividade parlamentar. Não sei como isto vai acabar, mas tenho a certeza de que é apenas mais uma pequena acha para o fogo lento em que se consome a credibilidade das instituições e dos políticos que as integram.

sábado, 14 de abril de 2018

Síria(al) killers

Uma coligação dos USA, Inglaterrra e França atacou a Síria com o pretexto de que Assad teria usado armas químicas contra os ocupantes de Douma. A guerra química é hedionda, mas é menos do que cortar cabeças indiscriminadamente, escravizar homens, mulheres e crianças, usar escudos humanos, derrubar as Torres Gêmeas, atropelar gente indefesa em Londres, Nice, Paris ou Berlin? O conflito da Síria foi iniciado como o do Iraque e de outros países do Médio Oriente pelas potências ocidentais que se julgam polícias do bons regimes e que querem impor o seu modelo de sociedade a todo o planeta. É aos mesmos que agora bombardeiam a Síria, mais aos seus aliados de ocasião, que devemos o Daesh e outros grupos terroristas que há anos dilaceram o Médio Oriente. Foi a tentativa de acabar com Assad que se armaram e financiaram os grupos que ainda hoje resistem em Douma e noutros enclaves e o único resultado à vista foi um país destruído, milhares de mortos, centenas de milhares de estropiados, e um número imenso de refugiados que fizeram da Europa o seu Eldorado e criaram um enorme problema social e, no futuro, político que ninguém sabe como resolver. São estes os créditos dos que agora provocam o equilíbrio débil que se começa a gerar na Síria, com a Rússia e o Irão, a ocuparem o espaço que os ocidentais por incúria e pesporrência deixaram ao abandono. Trump precisa do belicismo para disfarçar a incapacidade para governar, Teresa May para desviar as atenções do Bréxit, Macron, o aprendiz de feiticeiro, sente-se ungido pelo espírito de Napoleão e julga-se salvador do Mundo. Não passam de uma troupe de malabaristas a brincar com o fogo, perante a inação das Nações Unidas e dos governos europeus, acólitos impreparados de uma estratégica bélica insensata.

Regresso à escrita

Durante anos deixei de escrever no blogue. Agora regresso. Este é um espaço de liberdade que não deve ser confundido com as minhas responsabilidades profissionais ou outras. Como cidadão tenho o direito de escrever sobre o que entender que merece a minha atenção e que sinto o desejo ou o dever de partilhar com outros. Como em muitas outras atividades, podemos ter ideias muito próprias e ter de agir segundo outras, de acordo com os diversos compromissos que temos. Um blogue é um espaço onde podemos ser nós próprios, assumindo para o bem e para o mal a responsabilidade do que escrevemos. É assim que entendo a minha liberdade cívica.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Com António Costa e o Partido Socialista por Portugal!

Há momentos na vida de todos nós em que, por maior que se anteveja o combate, não se pode virar a cara à luta, em que o silêncio é iníquo e a afirmação de alternativas a única imposição de consciência que os homens e mulheres livres podem aceitar.

Os militantes socialistas e todos os que se reveem na história e no ideário do Partido Socialista não podem continuar a assistir passivamente à degradação da vida política nacional e ao desânimo de muitos cidadãos que não veem alternativa no quadro atual dos partidos com vocação governativa e começam a alimentar soluções populistas e radicais.

As eleições europeias são a prova evidente de que a maior parte dos portugueses não se sentiram mobilizados para exercerem o seu direito de voto e não é abusivo concluir que as propostas políticas apresentadas pelas várias formações partidárias não foram suficientemente apelativas para gerar maior participação e empenho nas eleições, o que só pode traduzir desinteresse, descrédito, desconfiança e falta de perspetivas quanto ao futuro.

O Partido Socialista ganhou as eleições mas não ganhou o País e a atual liderança não compreendeu que era chegada a hora de fazer um balanço realista da situação interna e externa e tirar as conclusões que se impõem, o PS pode parecer ganhador, mas não mobilizou suficientemente a sociedade portuguesa contra as soluções de governo que desde há anos esmagam os portugueses mais débeis economicamente, destroem a classe média, aumentam o desemprego, não estimulam a economia e afetam gravemente a autoestima do País.

Por tudo isto os signatários saúdam a iniciativa patriótica de António Costa, militante destacado e político de créditos firmados com longo e brilhante currículo ao serviço da Nação, ao apresentar-se ao país com espírito de serviço e disposto a assumir as suas responsabilidades liderando um movimento de renovação política que devolva ao partido e, sobretudo, aos portugueses e portuguesas a confiança perdida e se constitua como uma alternativa mobilizadora, forte e credível, com condições de sucesso nas próximas eleições legislativas.

A gravidade da situação portuguesa exige alternativas políticas robustas e não apenas a ambição de ganhar eleições a qualquer preço e o Partido Socialista tem o dever patriótico de se abrir ao País e à discussão dos problemas nacionais sem se encerrar em trincheiras formalistas, antes ouvindo a voz de todos os militantes e dos cidadãos em geral e lendo com sabedoria os sinais dos tempos, razão pela qual os signatários apelam ao Secretário-geral e à Comissão Política Nacional para que seja convocado um Congresso Extraordinário onde a voz dos militantes e do País se faça ouvir e as várias propostas políticas para o futuro discutidas.