sexta-feira, 30 de maio de 2008

2 milhões de pobres

Eu sei que quem governa o país é o Partido Socialista. Também sei que, historicamente, os partidos de matriz socialista estão mais próximos dos mais desfavorecidos e é suposto implemetarem políticas com um pendor social mais acentuado exactamente para corresponder aos interesses dos que constitutem a sua base de apoio e neles se revêem. E sei ainda que, sendo tudo isto verdade, nem sempre as coisas se passam como era suposto acontecerem.
Então... gostava de perceber onde param as preocupações sociais deste governo, não me refiro aos pequenos apoios a isto e àquilo, mas a verdadeiras políticas que defendam os fracos, os desempregados, os mais carentes, enfim, os que esperam dos socialistas que os defendam melhor do que um governo ancorado noutros sectores sociais.
Um país com 2 milhões de pobres exige políticas ousadas no sentido da afirmação de mais justiça social, mais igualdade, mais apoios aos carentes e desempregados. É tempo de inverter políticas que reduzem direitos e nível de vida e deixam prosperar maiores assimetrias sociais.

Ser Professor

João Ruivo ((Coord.) João Sebastião, José Rafael, Paulo Afonso e Sara Nunes deram à estapa, em edição do Instituto Politécnico de Castelo Branco e da Associação Nacional de Professores, Ser professor. Satisfação profissional e papel das organizações de docentes.
De um universo de 148750 docentes (educadores de infância e professores dos vários graus de ensino não superior) trabalharam com uma amostra estratificada de 3252. A recolha de dados foi feita através de questionários enviados e recolhidos entre Abril e Maio de 2006.
Conclusões
- Docentes maioritariamente do sexo feminino, licenciados, profissionalizados, trabalham há mais de vinte anos, são sócios de um sindicato ou associação sindical e têm um vínculo estável.
- Sentem-se satisfeitos quando avaliam a sua auto-estima e a sua imagem profissional, mas sentem que a sociedade não reconhece o seu trabalho e consideram insuficiente o seu estatuto remuneratório e revelam apreensão relativamente ao futuro.
- Mostram-se satisfeitos com a escola e com os alunos e referem positivamente a gestão, as condições de trabalho e o bom ambiente aí vivido, mas manifestam-se insatisfeitos com a falta de empenho dos alunos na aprendizagem e com a política educativa.
- Um número expressivo não voltaria a escolher a profissão se tivesse que começar de novo, "até porque consideram que a carreira de professor não é prestigiante".
- Concordam com a criação de uma Ordem dos Professores e mostram-se insatisfeitos com os sindicatos e com as condições de progressão na carreira.
É um retrato interessante, embora com contradições evidentes nas próprias conclusões, o que não espanta, sabendo-se como se tornou contraditório ser professor em Portugal. Um bom contributo para um melhor conhecimento da classe e um estudo a ler com atenção.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Assim não vamos lá

A colega Safira deixou um post bem oportuno sobre a não existência em muitas escolas das condições necessárias para o início do processo de transição para o novo modelo de gestão.
Não surpreende. O novo modelo vem ao arrepio de trinta anos de experiência de gestão dita "democrática" e altera profundamente o paradigma igualitarista vigente.
No meio de toda a turbulência gerada pela forma canhestra como a equipa do ME tem lidado com os professores e dirigido o Ministério, cada vez mais centralizado, apesar de falarem cada vez mais em autonomia, a nova gestão só pode suscitar desconfianças e boicotes.
Continuo com a minha, a solução é a territorialização da gestão na base nas áreas correspondentes aos municípios. O novo decreto está condenado ao insucesso, mesmo que o consigam implantar "a martelo".

terça-feira, 27 de maio de 2008

Mudar o paradigma

Há coisas intrigantes nas escolas, as novas tecnologias estão por todo o lado, os alunos dominam-nas, os professores para lá caminham, mas há um lastro de rotineirismo que permanece quase inamovível.
Sejamos honestos, o paradigma anterior à revolução do conhecimento permanece como a ferramenta básica e o fosso entre a escola e a sociedade, nalguns casos, adensa-se.
A internet tornou-se uma ferramenta básica em dois sentidos, sempre à mão, mas utilizada frequentemente de forma primária.
Precisa-de de um novo paradigma de ensino, sob pena de a escola se continuar a desqualificar se isso não acontecer.

domingo, 25 de maio de 2008

Foi você que falou em autonomia?

O ME diz-se apostado em avançar com os contratos de autonomia. Existem umas comissões de acompanhamento do processo, uma para cada escola. Algumas escolas, simpaticamente, convidaram-me para fazer parte das suas comissões de acompanhamento, o que muito me honrou.
Um dia destes recebi um convite da DREC para uma reunião, assim de um dia para o outro, como se não tivesse mais nada para fazer. Não pude comparecer pois já tinha outros compromissos inadiáveis.
Até hoje não sei o que lá de passou, mas sei duas coisas, a lei não está a ser cumprida quanto aos requisitos de funcionamento das ditas comissões e ninguém pensou quem suporta as despesas com a participação dos vários membros nessas reuniões. Estão a ver um sujeito fazer centenas de quilómetros, por exemplo, mais almoços, jantares, eventualmente dormida, e pagar tudo do seu bolso?
Pois é, a autonomia custa dinheiro, mas pelos vistos ninguém pensou no assunto. Diz-se que há assessores no ME pagos a peso de ouro, mas para se participar nas reuniões das comissões de autonomia se calhar estão a pensar que cada um paga as suas despesas. Ou será que só lá querem alguns? Os que fazem os fretes ao ME e são pagos por isso?

sábado, 24 de maio de 2008

Aterrados

Finalmente um jurista, num douto parecer, veio dizer aquilo que é do mais elementar bom senso, um aterro sanitário não pode andar em bolandas, de concelho para concelho, como um circo ou uma barraca de comes e bebes, pelo que o aterro de Leiria e arredores deve ficar onde está.
O populismo às vezes gera esta urticária. Claro que ninguém quer aterros à porta, mas fechá-los só mesmo quando as suas condições de utilização tenham atingido os limites de exploração.
Quando é que os nossos decisores passam a agir mais com a cabeça no bolso dos contribuintes do que no voto dos eleitores?


In Região de Leiria, 23-05-2008

Silêncio

Nada pior nos blogues, como nas relações, do que quando deixamos que o silêncio se torne a norma. É certo que o silêncio é a mais poderosa forma de comunicação que a espécie humana inventou, mas não é desse que trato aqui e agora.
Uma viagem para terras distantes, a falta de acesso à rede e um sindroma gripal têm-me impedido de cuidar do blogue. Também não é hoje que me redimo da falta, estou sem disposição para bloguices e vou apenas deixar o post do texto desta semana do Região de Leiria.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O poder da escrita e a existência virtual

Há dois anos que deixei de escrever no RL, mas algumas pessoas tentam convencer-me do contrário. Quando me encontram disparam-me: “Há muito tempo que não o via, mas leio todas as semanas os seus artigos”.
Achei que não podia continuar a alimentar esta ficção e era aborrecido dizer às pessoas que estavam enganadas, para não dizer que eram mentirosas.
Solução, voltar aos textos, mas com uma condição auto imposta, coisa curta, de leitura simples e fácil digestão, como a dieta mediterrânica.
Telegrama. Voltei stop é um prazer regressar stop espero-te aqui todas as semanas stop
In Região de Leiria, 16-05-2008
Nota: Com este texto reinicio uma colaboração semanal no Região de Leiria, interrompida quando fui para a DREC e agora retomada depois de uma espécie de período de nojo. A rubrica que serve de enquadramento aos texto denomina-se Telegrama e insere-se na página 2 e na secção Praça Pública.
São textos muito curtos e procuram abordar questões de actualidade, muitas delas apenas compreensíveis para quem conhece o contexto local, de uma forma bem disposta, embora com seriedade e procurando apelar à reflexão.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

A majoração da estupidez avaliativa

Segundo o Diário de Notícias e com a devida vénia...

Quotas de Excelente e Muito Bom irão variar entre estabelecimentos

O resultado da avaliação externa das escolas, que o Ministério da Educação está a conduzir, vai ter consequências na carreira dos professores que ali leccionam. Isto porque, segundo anunciou ontem o secretário de Estado adjunto da Educação, Jorge Pedreira, os estabelecimentos que registem melhores desempenhos serão discriminados positivamente na percentagem de classificações de "Excelente" e "Muito Bom" que poderão dar aos seus docentes, sendo que estas notas permitem progredir mais rapidamente na carreira.A revelação de Jorge Pedreira surgiu no final da primeira reunião da comissão paritária de acompanhamento do processo de avaliação, que inclui o Ministério e representantes de doze estruturas sindicais. O secretário de Estado explicou que as quotas para atribuição das melhores notas serão "muito aproximadas" das que se aplicam na generalidade da administração pública. Ou seja: os valores deverão situar-se nos 5% para as classificações máximas e 20% para as imediatamente inferiores. O governante admitiu, no entanto, que "haverá também, neste caso, majorações para as escolas que tenham melhor avaliação externa".

Um puxão de orelhas

Sou de uma geração habituada a conviver com símbolos muito especiais. Quando entrei na escola primária as referências que mais me marcaram foi o odor muito característico daquela sala, entre o cheiro a madeira encerada e a pés mal lavados, as fotografias do Marechal Carmona, Presidente da República, e do Prof. Oliveira Salazar, Presidente do Conselho, como então se dizia, um crucifixo entre as duas, a marcar o ponto central da simetria da parede fronteira, um quadro preto por baixo e abaixo deste o estrado onde se destacava em todo o seu esplendor a secretária do professor, por acaso uma professora, já com uma idade provecta e que se deixava dormir nas aulas, quando fazíamos as contas. Os símbolos dos símbolos eram um ponteiro de cana da Índia e uma régua de bom porte e de madeira rija.
A professora não fazia mal a uma mosca, mas não me lembro que a Sr.ª me tenha ensinado nada durante a 1.ª classe, sei que estou a ser injusto, mas sincero, mas como aprendi a ler, escrever e contar deve ter sido ela que me ensinou.
Tudo mudou na 2.ª classe quando o marido nos veio dar aulas. O ponteiro e a régua tornaram-se instrumentos de uma pedagogia cirúrgica que actuava onde doía mais, nas mãos, particularmente nos nós dos dedos, e nas orelhas. Era um vê se te avias de reguada e ponteirada e quando a coisa ficava feia eram bofetões, calduços (em alentejano da época cachações) e pontapés no traseiro quando a malta se punha a jeito.
Por incrivel que possa parecer adorávamos o professor e no meia daquela pancadaria toda, hoje inimaginável, ainda nos sobrava tempo para fazer as mais incríveis tropelias. Era seguramente uma versão do "quanto mais me bates, mais gosto de ti", hoje completamente fora de moda.
Agora um simples puxão de orelhas é quase crime e o professor que se atrever a isso ou num acto desesperado não se controlar conta, pela certa, com uma sanção disciplinar pesada. Este facto só reforça a necessidade de não se pereder de vista a responsabilidade do colectivo de cada escola na manutenção da disciplina necessária ao bom desenvolvimento das actividades de ensino e aprendizagem, não remetendo para cada professor, individualmente considerado, o ónus de sozinho resolver um problema que em muito o ultrapassa.
Os casos comportamentalmente mais graves que se registam nas escolas ocorrem naquelas onde não há uma estrutura sólida de resposta colectiva, onde os regulamentos são letra morta, onde não há trabalho preventivo com os alunos e as respectivas famílias e onde os professores são, literalmente, atirados para a fogueira.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Queres fazer amor comigo?

E se um aluno, assim sem mais, faz uma proposta destas a uma professora em plena aula? Como se pode reagir? E depois, que relacionamento se pode manter com o aluno se este continuar na turma?
Vá lá, não te acanhes, dá a tua opinião, ajuda a lidar com estes problemas. O melhor antídoto é uma estratégia preventiva. Será que não acreditas que estas coisas se aprendem? Para dar aulas não chega ter conhecimento científico ou dominar as metodologias de ensino, é preciso ser expert em relações humanas.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Autonomia das escolas

O processo volta a mexer. Depois de meses de hibernação o ME acordou. Mais vale tarde do que nunca, mas esperemos que o processo não descarrile com a pressa que agora parece ter chegado às estruturas do Ministério.
O ambiente geral é de algum cepticismo acerca do processo. Eu quero ser optimista mas ou as escolas passam a falar mais grosso ou a autonomia será sempre uma miragem. Como todos sabem, a autonomia conquista-se, não se outorga.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Pais responsáveis

Ultimamente tenho encontrado muitos colegas que me falam constantemente da responsabilidade dos pais na educação escolar dos filhos. Estamos todos de acordo que as famílias têm uma enorme importância e que sem o seu concurso a escolarização das crianças e jovens, e tudo o que isso implica, fica muito muito mais difícil.
Mas quando os pais, pelas mais diversas razões, não podem ou não querem colaborar com a escola o que fazemos? Acusamo-los e condenamos os filhos ao fracasso ou temos de continuar a fazer o nosso serviço o melhor que sabemos e podemos e deixar-nos de lamentações que não resolvem problemas?
Pois é, de tanto se quererem responsabilizar os pais até parece que queremos ser nós a desresponsabilizar-nos.

domingo, 11 de maio de 2008

Liderança escolar na América Latina

A Rede de Liderança Escolar é uma das redes através das quais se dá continuidade ao Projeto Regional de Educação (PRELAC) no Escritório Regional de Educação da UNESCO para a América Latina e o Caribe (UNESCO/Santiago). A rede surge de diversas constatações, entre as quais se destacam:
.: Apesar de vultosos investimentos, a qualidade da educação nestes países mantém-se baixa.
.: O director e as equipes directoras desempenham um papel-chave na implementação eficaz das mudanças propostas pelas reformas educacionais.
.: As escolas de qualidade têm projetos institucionais próprios, assumidos e geridos coletivamente, com directores-líderes e intensa participação da comunidade.
Por isso, o objetivo primordial da RedLIDER está centrado no fortalecimento das capacidades de liderança técnico-institucional dos directores de centros escolares e suas equipes de direcção.
Dê uma vista olhos e constate que lá, como cá, a liderança escolar tem de estar na primeira linha. Sem liderança não há escola com qualidade.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Vocação ou expiação

Pois é, o colega que comentou o post anterior, a propósito da vocação, colocou o dedo na ferida, mas deixe-me dizer-lhe que o problema dos professores, nos tempos que vão correndo, não é apenas de vocação ou falta dela.
O cerne da desmotivação, que assume também o aspecto da aparente falta de vocação, é a consequência de uma política de desvalorização dos recursos humanos, da incapacidade para criar um laço afectivo com a classe por parte dos responsáveis do ME.
Fosse outra a política, outro o respeito pelos professores, outras as condições de trabalho, outra a perspectiva de carreira e iria ver como as vocações voltavam a florescer.
Eu sei que isto não lhe serve de consolo, mas ser professor ameaça deixar de ser uma vocação para se transformar numa autêntica expiação.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Formação ou deformação?

O ME, em colaboração com as Instituições de Ensino Superior tem vindo a desenvolver três programas de formação contínua em Português, Matemática e Ciências, destinados a docentes do 1.º ciclo do Ensino Básico.
Os professores têm acesso a formação de qualidade, que é completamente gratuita, aumentam o seu conhecimento científico e treinam novas competencias metodológicas e práticas.
Pergunta.
Porque é que tantos professores acham um frete esta formação, a encaram como um peso e passam a vida a protestar?
Hipóteses de resposta.
a) Acham que já sabem tudo e que não precisam de aprender nada.
b) Queriam ter de pagar a formação porque não gostam de borlas.
c) Preferiam ter formação ao fim-de-semana quando os alunos não estão nas escolas.
d) Nenhuma das anteriores.

Cartas na mesa

A Ministra da Educação teve ontem a sua melhor prestação televisiva. Descontraída, segura, até sorridente, respondeu sem dificuldades deixando uma excelente imagem da sua gestão. A entrevistadora, Constança Cunha e Sá, preparou mal a entrevista e sabe pouco de educação, o que contribuiu para o "brilho" da Ministra.
A pergunta que não foi feita era a mais importante - os critérios absurdos do concurso para titulares. Será que não se percebe que a contestação da avaliação radica (também) na total iniquidade dos critérios que presidiram àquele concurso e que inquinaram em definitivo tudo o que veio, e venha, a seguir em matéria de carreira e avaliação?
O manto de silêncio que existe à volta deste assunto é um dos insondáveis mistérios da galáxia educativa.
Na prova da entrevista, ponderados todos os critérios, dou medíocre (assim mesmo, à antiga) à entrevistadora e excelente à Ministra.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Avaliação paritária

Na comunidade científica a avaliação de professores é, sobretudo, uma questão técnica, mas para o ME, depois de toda a balbúrdia que ele mesmo criou, a avaliação de professores passou a ser uma questão, sobretudo, laboral.
A Comissão Paritária (13 representantes sindicais e 13 representantes da Administração Educativa) vai "preparar a negociação de eventuais alterações".
Os especialistas da educação não são para aqui chamados, de um lado está o Governo e quem o representa, do outro os representantes dos professores sindicalizados. Os professores que não se revêem no Governo nem nos sindicatos ficam sem representantes.
É tudo uma questão de representatividade. Quanto à avaliação, é como a arbitragem, somos todos especialistas. Como diz a canção "Cá vamos, cantando e rindo...".

domingo, 4 de maio de 2008

SIDA

A beleza dos corpos e o erotismo ao serviço da vida. As imagens podem ser provocantes, mas as consequências da SIDA são bem mais chocantes.
http://www.lepoison.com/sidaction/

sábado, 3 de maio de 2008

O lince da Malcata, o Algarve e o défice

Desculpem-me mas hoje não vou falar de educação, não é que não me apeteça, simplesmente há coisas mais importantes para comentar como, por exemplo, um ecologíssimo programa de reintrodução do Lince da Malcata no Algarve.
Sou um fã do Lince da Malcata há muitos anos e acho que o bicho simboliza muito do "ser português". Primeiro é um animal bisonho, desde 2001 que ninguém sabe nada dele e mesmo nesse ano só foi possível encontrar excrementos. Segundo, como se supõe que o facto de não se deixar ver é um protesto contra as condições de interioridade da serra da Malcata, o Governo, sempre lesto a apoiar os mais desfavorecidos e os descontentes, vai criar instalações no Algarve para o acolher e, mais do que isso, para que as amenas temperaturas da região lhe aqueçam o sangue e o bicho se reproduza para que a espécie não desapareça.
A causa é nobre, evidentemente, e aplaudo o esforço do Governo ao financiar tão arrojado plano com 4 a 5 milhões de euros, leu bem - milhões, ouvi eu dizer na televisão ao Secretário de Estado do Ambiente Humberto Rosa, pessoa por quem tenho a maior consideração e apreço e que também pertence ao clube de fãs do lince.
Mas não consigo deixar de pensar que, e citando o insuspeito jornal Expresso de hoje, p. 11, 18% da população portuguesa tem um rendimento abaixo do limiar da pobreza, ou seja temos 1,8 milhões de pobres em Portugal, embora não haja confirmação científica de que este tipo de portugueses estejam à beira da extinção.
Assim sendo, justifica-se apoiar o lince com políticas públicas activas visando a reabilitação de habitats capazes não só de assegurar a sua subsistência mas, sobretudo, de constituirem um suporte adequado para uma política de fomento à natalidade do bicho, agora comprometida com os frios da Malcata e o stress provocado pela diminuição do desejo das fêmeas, em grande parte resultante da possibilidade de as SCUT passarem a ser portajadas e Lisboa ficar ainda mais longe. O Algarve trará longa e regalada vida ao lince, às linças e aos respectivos lincinhos.
Quanto aos portugueses pobres, que meditem no bom exemplo do lince. Quando deles só restarem excrementos poderão ter a certeza de que o seu fadário estará a terminar. Então abrir-se-ão as portas do Allgarve para que a espécie se não perca e se possa reproduzir nas melhores condições.
Nota de rodapé: O primeiro Ministro foi ao Algarve apresentar o novo hospital. Parece que a cerimónia custou uns troquitos, coisa pouca, 50 mil euros. Não seja mal intencionado, julga que não concordo que o Estado delapide assim os dinheiros públicos? Pelo contrário, acho muito bem, acho mal é haver funcionários públicos a mais e ainda por cima muito bem pagos, por isso é que o défice custa a ir ao lugar.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Escolas eficazes

Em conversa com uma colega que integra as equipas de avaliação de escolas, confessou-me ela que os inspectores que as integram têm uma preocupação especial com os resultados alcançados pelos alunos. É uma perspectiva, tem as suas limitações, já que a aprendizagem é muito mais do que apenas os resultados, mas estes têm de ser encarados com a relevância que lhes é própria.
Por absurdo será possível pensar numa escola óptima, onde os alunos são péssimos? Ou numa péssima, onde os alunos são óptimos? Claro que não, a qualidade das escolas mede-se por um conjunto diversificado de indicadores, mas os resultados vêm à cabeça.
É certo que os resultados dos alunos não dependem apenas de factores escolares, mas não deixa de ser verdade que o peso da escola nos resultados é enorme. Para além dos factores individuais, contam a competência dos professores, o funcionamento da turma, a organização da escola e a interacção com o contexto. A estruturação do ensino e a gestão da turma são elementos decisivos para bons resultados de aprendizagem, como também o são a liderança da escola, a disciplina e a existência de um quadro sólido de valores, bem como uma boa relação com os pais e com a própria comunidade.
As escolas não são todas iguais e os resultados dos alunos estão relacionados com a maior ou menor qualidade que elas evidenciam. É bom que todos tenhamos consciência disso, não para confirmar o facto, mas para agir em prol da melhoria das aprendizagens e da eficácia das escolas.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Manuela Ferreira Leite

Depois da experiência com Maria de Lurdes Rodrigues só faltava aos professores o regresso à ribalta de Manuela Ferreira Leite.

Talvez muitos já não se lembrem, mas enquanto Ministra da Educação de Cavaco Silva (1993-95) também não deixou boa memória. Adepta do exercício musculado do poder pouca consideração demonstrou pelos professores e pelas escolas, tendo inclusive garrotado economicamente as escolas profissionais, que então estiveram meses e meses sem receber um cêntimo, lançando gente no desemprego e diminuindo a qualidade da formação.

No geral o sistema sofreu com a gestão de Ferreira Leite que, em comum com Lurdes Rodrigues, parece ter um desprezo de estimação por direitos dos professores e olha com indiferença para o essencial da governação democrática - o respeito pelos parceiros sociais - o que ficou amplamente comprovado quando sob a direcção do Primeiro Ministro Durão Barroso foi Ministra de Estado e das Finanças.

Manuela Ferreira Leite, para além de candidata a Presidente do PSD, é aspirante a Primeira Ministra, o que justifica uma evocação dos tempos em que foi Ministra. Como dizia a canção "para pior já basta assim".

terça-feira, 29 de abril de 2008

Os jovens e a política

A propósito das comemorações do 25 de Abril o Presidente da República constatou, através de um estudo da Universidade Católica, que os jovens portugueses são ignorantes em política. Só os jovens? Se tivessem feito as perguntas aos adultos receio que o resultado fosse ainda pior.
A política está transformada numa forma mais ou menos espúria de gestão pragmática, cada vez mais despida de ideologia e o "centrão", que é um pântano sôfrego, afoga tudo e todos.
Agora mandas tu, logo mando eu, e depois vamos ambos para grandes empresas estatais, ou com quem fizémos negócios em nome do Estado, tratar da nossa reforma.
Neste caldo de cultura é mais interessante saber as notícias das revistas côr de rosa que infestam as bancas do que saber quantos países constituem a União Europeia ou quem foi o "cota" eleito pela primeira vez Presidente da República.
Entre sms, shotes e umas pastilhinhas para manter o espírito desperto na rave de sexta-feira não cabem considerações elevadas sobre como governar as sociedades, reduzir as injustiças ou acabar com a pobreza no mundo.
O que nos salva é que os jovens são o futuro.

domingo, 27 de abril de 2008

Lembram-se do "Vai-te f....!"

A frase chocou algumas pessoas. É natural, mas a linguagem dos alunos às vezes é agreste. Mais do que nos chocarmos, é necessário sabermos lidar com ela.
Pois o rapaz acabou por passar incólume, porque não se provou que a frase fosse para o professor. As testemunhas, naturalmente todos alunos, foram unânimes em afirmar que o dito tinha sido para um colega que estava à frente. E a coisa morreu por ali.
Moral da história, se o professor não consegue resolver uma questão destas na sala de aula, deve certificar-se que pode provar a sua versão, caso contrário acaba diminuído perante os alunos.
E o colega, já pensou como agiria se fosse consigo?

Ainda as unidades de gestão escolar de base concelhia

Admito que em certos concelhos o número de escolas e agrupamentos é elevado, mas o problema em termos de gestão é sempre de escala. O essencial no modelo que defendo não é a escala, mas o princípio. O que se passa com o modelo actual é que cada escola ou agrupamento é uma unidade de gestão autónoma, o que só faz sentido nos concelhos onde não existem mais estabelecimentos de ensino.
Mas veja-se o que acontece nos outros casos. Alguém ou alguma entidade coordena as várias escolas e agrupamentos de um mesmo concelho? Não. Cada uma gere-se como sabe e pode, não há articulação curricular, não há gestão conjunta de recursos, sejam materiais, sejam humanos. Há até formas diversas de tratar os mesmos assuntos, de lidar com os alunos, com os pais, e por aí fora...
Há países onde estas questões estão resolvidas há muitos anos, naturalmente que cada escola continua a ter uma direcção própria, só que subordinada a uma direcção concelhia a quem compete a administração educativa a nível local.
Sei que não é esta a nossa tradição, mas não tenho dúvidas que o caminho é por aqui. Há quase vinte anos, quando responsável pelo pelouro da educação da Câmara de Leiria e quando ainda ninguém por cá falava em escolas básicas integradas já eu defendia a criação na Maceira de um "Complexo Escolar Integrado".
Na altura a DREC invocou que não era possível porque a legislação o não previa, o que era em parte verdade, mas se não previa e a realidade aconselhava (já nesse tempo coexistiam num espaço contíguo todas as valências educativas do centro da freguesia) era por aí que se devia ter ido.
Assim aconteceu com Roberto Carneiro e com a criação das EBI e assim veio a acontecer com a criação dos agrupamentos de escolas de nível concelhio, que já são hoje mais de 40% do parque escolar estatal do país.
Por isso, não desisto da ideia e estou convicto que esse será um próximo passo.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Agregação de agrupamentos

DecretoLei n.º 75/2008, de 22 de Abril de 2008

Artigo 7.º

Agregação de agrupamentos

Para fins específicos, designadamente para efeitos da
organização da gestão do currículo e de programas, da avaliação
da aprendizagem, da orientação e acompanhamento
dos alunos, da avaliação, formação e desenvolvimento
profissional do pessoal docente, pode a administração
educativa, por sua iniciativa ou sob proposta dos agrupamentos
de escolas e escolas não agrupadas, constituir
unidades administrativas de maior dimensão por agregação
de agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas.
Aqui está uma parte da solução que defendo - unidades de gestão integrada de base concelhia - pena é que o governo tenha sido tão tímido e aquilo que devia ser a regra seja apenas a excepção. Se esta solução fosse generalizada teríamos uma revolução equivalente à que ocorreu com a criação dos agrupamentos e estaríamos no caminho certo para mudar a face da administração educativa. Só isto não chega, mas já seria um grande passo.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Aí está o novo modelo de gestão

Foi hoje publicado o Decreto-Lei n.º 75/2008, de 22 de Abril, que "aprova o regime de autonomia administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário".
É uma nova página que se inicia e uma mudança de paradigma das direcções colegiais, herança da revolução de 74, para o órgão unipessoal - director. Este é apenas um aspecto simbólico porquanto é toda uma filosofia de gestão e de organização das escolas que agora começa a mudar.
Fica a referência e mais tarde voltaremos ao assunto com uma apreciação crítica.
Infelizmente continua-se a deixar a gestão das escolas atomizada e não se avançou para o que seria uma verdadeira revolução no sistema se se tivessem criado já unidades de gestão de base territorial concelhia. É certo que 40% do país já dispõe de agrupamentos de escolas concelhios, mas devia-se ter aproveitado o momento para tornar regra a gestão integrada de todas as estruturas escolares estatais em cada concelho, independentemente do seu nível.

domingo, 20 de abril de 2008

Caius Julius Lacer

É sempre uma enorme emoção poder contemplar um monumento grandioso e que dezoito séculos depois de ter sido construído ainda continua a desempenhar a sua função de ligar as margens do poderoso Tejo e deixar passar pessoas e bens.
O mundo mudou muito desde então, mas a ponte de Alcántara lá continua sólida e esbelta sem que as águas do rio lhe provoquem mossa.
Por isso a minha modesta homenagem ao ilustre arquitecto Caius Julius Lacer que, como ele próprio escreveu, construiu "uma ponte para todos os séculos".
Ver mais em:

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Virar a página

A Ministra da Educação fala em "virar a página". Mais vale tarde do que nunca.
O ME, através do Gabinete de Comunicação, fez circular um comunicado em que, a propósito do entendimento com os sindicatos, vem elencar o que de positivo, na sua opinião, se fez até agora.
Fez algumas coisas importantes, é verdade, mas nada desculpa nem justifica os prejuízos deliberados ocasionados na imagem social dos professores que, desde o primeiro momento, foram, estupidamente, tratados como as ervas daninhas do sistema.
Tinha sido possível fazer o que o ME acha positivo e muito mais se a relação com os professores tivesse sido diferente. É assim que as contas têm de ser feitas.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Entendimento ME-Sindicatos

Se quiserem saber mais sobre o assunto...é só clicar.

1 – Memorando disponível em http://www.min-edu.pt/np3/1900.html.

2 – Dossier Estatuto da Carreira Docente em http://www.min-edu.pt/np3/56.

De Espanha nem bom vento...

"De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento!", assim se dizia em tempos e talvez alguns, mais patrioteiros, continuem a dizer. Mas a Espanha de hoje pouco tem que ver com a Espanha que conheci na minha infância, ainda a sarar as feridas da guerra civil e tanto ou mais conservadora do que Portugal.
Por razões de serviço tenho estado por aqui numa universidade e estou alojado numa residência de estudantes que tem um quarto para professores.
As refeições são tomadas na cantina da residência e no primeiro dia que aqui cheguei sentei-me discretamente numa mesa de quatro lugares e preparei-me para comer sozinho pois não conhecia ninguém e os outros comensais eram apenas alunos.
Qual não é o meu espanto quando três alunos se dirigem para a mesa, me cumprimentam e se instalam como se todos fôssemos velhos conhecidos. Pensei que tinha sido um acaso mas verifiquei que ninguém se levantou até eu ter terminado.
Como sempre que me sentava vinham alunos para a mesa, resolvi perguntar se era habitual. E assim fiquei a saber que nesta residência não se deixam pessoas comer sozinhas, por educação e porque nesta região se mantém o hábito de a família se juntar à hora das refeições.
Estes alunos, na generalidade oriundos de famílias não muito abonadas, muitos deles são bolseiros, o que lhes permite pagar os cerca de 550 € de mensalidade, deixaram-me verdadeiramente sensibilizado.
Ainda perguntei se isto era uma imposição da direcção, mas um dos alunos do 1.º ano, portanto novato aqui, logo se apressou a explicar que quando aqui chegou "aprendeu" com os mais velhos que era importante não apenas ter o "seu grupo", mas aproveitar as refeições para conviver com outros colegas, e uma forma de o fazer era juntar-se sempre a quem estivesse sozinho. Ora aqui está uma lição de civismo que jamais esquecerei. Os alunos têm muito para nos ensinar e a Espanha também.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A farra vista por quem a pratica

Estava eu a escrever o post anterior quando me cai na caixa de correio um verdadeiro furo jornalístico. O Região de Leiria (http://www.regiaodeleiria.pt/), um dos melhores semanários regionais do país, teve uma ideia verdadeiramente interessante. Pediu a duas alunas do Instituto Politécnico de Leiria, uma caloira e uma finalista, que passassem para blogues pessoais algumas das suas experiências e emoções decorrentes das vivências da semana académica, que está em curso.
O resultado é deveras curioso. São dois testemunhos que nos ajudam a perceber melhor o mundo dos alunos e isto, só por si, vale uma espreitadela.

As guerras perdidas dos alunos do superior

De repente, as propinas vieram de novo à superfície e, pasme-se, Bolonha. Com tanta coisa por onde podiam pegar, agarram-se a "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma".

Quanto às primeiras, muito teríamos de discutir sobre o assunto, mas o que é verdade é que todos os dias temos provas evidentes de que muitos alunos não só não percebem a responsabilidade social que lhes incumbe por poderem beneficiar de estudarem no ensino superior, como ainda resulta claro que desperdiçam oportunidades e delapidam dinheiros públicos quando, por exemplo, se lhes criam cursos de recuperação e a maioria não põe lá os pés. "Contra as propinas!" é um bom slogan, mas Contra o mau uso que certos alunos fazem do ensino superior !" também.

Relativamente a Bolonha, em que mundo vivem este alunos? Ainda não perceberam que são cidadãos do mundo e que Bolonha é o passaporte para a sua inserção como estudantes e profissionais num mercado cada vez mais global? Se tivessem vivido no tempo do Estado Novo quando o país se limitava a olhar para o umbigo, isolado de tudo e de todos, talvez apreciassem mais o bem que têm e que desaproveitam

terça-feira, 15 de abril de 2008

Acordos e desacordos

Era fatal como o destino. A unidade dos professores sempre foi uma ilusão conjuntural fundada na revolta mas sem solução de continuidade. Todos o sabiam, embora agora alguns façam por ignorar. Cada dia que passa a imagem dos professores fica ainda mais afectada e agora já não é a Ministra, o ME ou o Governo, são os próprios professores (alguns, já se vê) a encarregar-se disso, com os sindicatos á frente.
No fundo, o que se pensa é que os professores não querem ser avaliados, que os sindicatos têm a sua agenda própria condicionada a questões políticas e muito pouco a matérias educativas, que a classe que foi capaz de se mobilizar para uma manifestação não consegue uma saída construtiva para o atoleiro a que a conduziram as políticas do ME e a acção dos sindicatos.
O novo decreto de gestão já foi promulgado. É mais uma peça do puzzle que o ME vem construindo. Entretanto a sociedade começa a ficar farta do ambiente de agitação que se vive no ensino em geral e os professores recomeçam a ser apontados como os maus da fita.
Começa a ser tempo de cada escola olhar para si e procurar soluções para os problemas que a afectam. Parece contraditório, mas é uma espécie de princípio de realidade. Se há escolas que funcionam bem no universo que todos conhecemos é porque é possível encontrar soluções mesmo num contexto pouco favorável. As boas práticas de outros podem ser a chave para os problemas de terceiros.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Outros países, os mesmos problemas

Em Portugal o Superior está em polvorosa. Foi Bolonha, cujos ecos hão-se perdurar por muitos e bons anos, agora são os novos estatutos, não tarda serão as novas carreiras; estas talvez fiquem para a próxima legislatura que agora a ordem é para apagar fogos e não para os atear.
Pelo meio há as questões do financiamento, do reajustamento da rede, dos consórcios, para já não falar dos cursos inviáveis por falta de alunos e dos professores excedentários, entre outros.
Mas se passarmos a fronteira a situação não é melhor, talvez até seja pior, pois em Espanha a politização das instituições de ensino superior, que aqui dependem das autoridades regionais, é bem superior ao que se passa em Portugal.
Com o novo regime jurídico veremos o que vai acontecer, designadamente com a Presidência do Conselho Geral entregue a uma personalidade externa às instituições e o reforço da "sociedade civil" no governo de universidades e politécnicos.
Sabendo-se que não há soluções perfeitas, o retrato do que se passa em Espanha é francamente desanimador ou então são os meus interlocutores que são muito pessimistas.
Idêntica é a má opinião dos políticos, mas este é um problema que vem de muito longe e que só é abafado nas ditaduras. Assim sendo, dizer mal dos políticos é bom sinal. Viva a democracia.

domingo, 13 de abril de 2008

A rentabilidade dos cursos superiores

Portugal é um dos países em que tirar um curso superior mais compensa. Em média, um licenciado português recebe 80% mais do que um trabalhador que tenha concluído apenas o ensino secundário. É um dos dados de um relatório da OCDE noticiados esta terça-feira pelo jornal "Público".
Na análise "
Education at a Glance 2007", a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) compara vários indicadores relativos aos sistemas de ensino dos 25 Estados-membros da organização. E, se é um facto aplicável a todos os países que o salário e a facilidade em encontrar emprego crescem à medida que aumentam as habilitações académicas, esta relação é "particularmente forte" em Portugal, nota o jornal.
Portugal registou também um aumento significativo no número de inscritos do superior. Na faixa etária entre os 25 e os 34 anos, 19% tem licenciatura. Mesmo assim, o valor ainda está bastante abaixo da média da OCDE (32%).
Apesar dos progressos, Portugal é o país com "maior selectividade no acesso ao ensino superior", para a qual contribui o baixo estatuto socioeconómico de muitos países
(sic)[pais/famílias]. Já em países como a Irlanda, Espanha e Finlândia as habilitações académicas dos pais têm pouca influência no percurso dos filhos.
Ineficácia do sistema
Nos ensinos básico e secundário a despesa com cada estudante aumentou 50% entre 1995 e 2004. Mas no superior a despesa por estudante caiu. O investimento do Estado português em cada estudante do superior é de 6.703 euros, quando a média da OCDE se situa nos 9.613 euros.
Ao todo, 5,4% do Produto Interno Bruto do país é dedicado à educação, mais quatro pontos percentuais do que em 1995. Mesmo assim, graças a vários factores (como as características socioeconómicas dos alunos), o sistema é ineficiente, apresentando piores resultados do que países com menor investimento.


Ver mais:
http://jpn.icicom.up.pt/2007/09/18/ocde_portugal_e_dos_paises_em_que_a_formacao_superior_mais_compensa.html

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A estratégia do pau e da cenoura

Pois é, agora estamos já, claramente, no tempo da cenoura. Diálogo com os sindicatos, há divergências mas adivinha-se que as coisas se vão compor, com as autarquias, já não se fecham escolas sem o parecer positivo das autarquias, a postura é seráfica, os elogios às escolas e aos professores substituiram-se às anteriores acusações e faltas de respeito profissional.
Ainda bem, não aproveitava a ninguém o clima de crispação que se foi agudizando ao longo da gestão desta equipa do ME. Os desafios colocados ao sistema de ensino português são muitos e todos relevantes para que gastemos o nosso tempo em discussões que só nos podem dividir e distrair do essencial.
Mas é necessário não perder as referências e a atitude de diálogo não é suficiente para branquear os imensos prejuízos para a imagem social dos professores decorrentes da verdadeira ofensiva contra eles levada a cabo metódica e sistematicamente durante quase três anos, nem para anular as injustiças, muito em particular, do concurso para titulares.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Vai-te foder!

Voltemos ao tema da gestão de turma. Mais um caso verídico.
Um professor, por acaso de Inglês, participa à direcção da escola que o aluno x, durante a aula y, lhe disse "Vai-te foder!". Perante a situação o professor mandou o aluno sair da aula, mas este não acatou e negou ter dito a frase dirigida ao professor. O professor não apresentou testemunhas dizendo que todos os alunos tinham ouvido o que o outro dissera.
De imediato a direcção instaura um processo de averiguações. O aluno é ouvido, nega e defende-se dizendo que a frase tinha sido dita para o colega da frente que o estava a chatear, reforçando o depoimento com a indicação de dois ou três alunos que estavam em mesas próximas e que podiam confirmar o que dizia.
Ouvidos os outros alunos, todos confirmam a versão do presumível infractor. Ouvido, de novo, o professor e perante os depoimentos dos alunos testemunhas sugere que sejam ouvidos outros alunos. O instrutor do processo dirige-se á turma e questiona se alguém mais está disponível para prestar declarações. Mais alguns alunos confirmam que a frase foi dita para o aluno da frente, os restantes ou não se manifestaram ou declararam não ter ouvido.
- Qual teria sido a decisão da direcção? (Depois revelo)
- Se fosse o professor como teria agido?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

As propostas do ME

O Gabinete de Comunicação do Ministério da Educação divulgou uma nota de imprensa sobre a reunião ontem realizada com os sindicatos. Sem comentários, trancreve-se o essencial.

O Ministério da Educação apresentou propostas no sentido de continuar a melhorar as condições de concretização da avaliação de desempenho do pessoal docente, designadamente reforçando as garantias dos avaliados. Assim, propôs que os eventuais efeitos negativos resultantes das classificações de regular e de insuficiente atribuídas no final do primeiro ciclo de avaliação só se produzam efectivamente se essas classificações forem confirmadas numa segunda avaliação intercalar a realizar no ano imediato. De igual modo, propôs-se criar condições para a participação das associações sindicais no acompanhamento e monitorização do sistema de avaliação de desempenho docente e para a negociação de um crédito de horas destinado à organização da avaliação de desempenho no próximo ano lectivo.

Para além de matérias relativas à avaliação de desempenho do pessoal docente, o Ministério da Educação apresentou propostas no sentido de melhorar as condições de trabalho dos professores, nomeadamente em matéria de horários. Propôs a fixação de um número mínimo de horas para a componente não lectiva de trabalho individual, isto é, para o tempo, dentro do horário de trabalho, destinado à preparação de aulas, elaboração e correcção de provas, realização de estudos e outras actividades afins. Do mesmo modo, mostrou-se disponível para negociar as circunstâncias em que a formação contínua deve ser considerada no horário de trabalho dos professores.

O Ministério da Educação apresentou ainda propostas que permitirão melhorar as perspectivas de desenvolvimento da carreira, tanto dos professores titulares como dos professores contratados. Por um lado, por meio da criação de um escalão adicional da categoria de professor titular, no topo da carreira, criando a oportunidade de progressão. Por outro, abrindo a possibilidade de que todos os professores contratados, mediante avaliação, possam ver considerado o tempo de serviço para efeitos de integração na carreira.

Finalmente, propôs-se definir regras especiais de acesso à categoria de professor titular para os professores em exercício de funções ou actividades de interesse público.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Gritos sufocados nas gargantas

Os ecos da manif dos cem mil são cada vez mais frágeis e ao ver nos telejornais a representação dos sindicatos que andam em reuniões com o ME não consigo deixar de pensar que estamos perante mais um daqueles momentos em que a esperança dos professores vai morrer ingloriamente face a uma ópera-bufa em que sindicatos e ME representam cada um o seu papel, uns ameaçando, outros reivindicando, uns seráficos, outros ameaçadores, enquanto nas escolas o rolo compressor da máquina administrativa e a política do pau e da cenoura fazem marchar o sistema sem grandes alterações nem alaridos.

Os gritos de ontem já começam a sufocar nas gargantas e a força das ruas está em vias de ser derrotada pela burocracia reivindicativa sem soluções nem alternativas que não sejam mais folclóricas do que eficazes porquanto não se antevê como vão as escolas resistir à chantagem da avaliação obrigatória dos contratados. "As escolas estão todas a trabalhar", diz a Ministra e ninguém duvida. Havia de ser diferente? Alguém acredita que os professores estejam em condições de suportar um movimento reivindicativo que vá até às últimas consequências?

Quando se fizer a história deste período lá constará que o problema foi a forma inábil como foi negociado o novo estatuto de carreira, mais o famigerado concurso para titulares, agora objecto de referência de inconstitucionalidade numa norma (só numa norma Srs Conselheiros?). Chegados à avaliação já não há recuo, a teia já é suficientemente forte para romper e o terceiro período joga a favor do Governo. Como eu gostaria de estar enganado.

domingo, 6 de abril de 2008

Henry Mintzberg e as descobertas do ME

Para quem não conhece, Mintzberg é um dos gurus dos estudos das organizações e elaborou uma classificação que se tornou clássica e é uma referência incontornável.
Entre as configurações organizacionais por ele conceptualizadas estão as Burocracia Profissionais, onde se incluem as escolas. Não vou aqui tratar do assunto, mas para quem o quiser aprofundar pode consultar Mintzberg, H. (1995). Estrutura e dinâmica das organizações. Lisboa: Publicações D. Quixote.
Trago aqui o assunto apenas para deixar uma pequena reflexão sobre tudo o que está a acontecer na educação em Portugal e ao clima de crispação generalizada que pauta as relações da equipa dirigente do ME com os professores, na perspectiva reformadora.
Diz o autor;
Na Burocracia Profissional, a mudança não provém de novos administradores que tomam os seus postos e anunciam reformas maiores, nem das tecnoestruturas governamentais que procuram controlar os profissionais. A mudança parte mais do processo, lento, de mudança dos profissionais - dos procedimentos de avaliação dos candidatos, da formação (ideais assim como competências e conhecimentos), e depois disso, da motivação dos candidatos no aperfeiçoamento dos seus conhecimentos profissionais.
E mais,
(...) os controlos externos podem ter como consequência reduzir a incitação ao aperfeiçoamento, e mesmo a incitação à inovação (que já é fraca, mesmo nos melhores momentos da Burocracia Profissional).
Comparem-se as opiniões de um dos maiores conhecedores das organizações com a forma como o ME gere as questões profissionais dos docentes e uma de duas, ou Mintzberg está errado e é preciso avisá-lo ou o ME anda a tentar inventar uma roda quadrada convencido de que está a prestar um grande favor ao País.
Você decide.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Liderança, liderança, liderança

Dois ex-ministros da educação, Roberto Carneiro e Marçal Grilo, aliás duas referências enquanto governantes, vieram a público em entrevistas dizer coisas semelhantes sobre uma das falhas graves do sistema de administração e gestão escolar em Portugal - a falta de liderança nas escolas.
Já aqui tenho falado do tema e nesta matéria até estou em sintonia com a equipa do ME, não há escolas boas sem bons líderes e o sistema de gestão que temos não fomenta propriamente o aparecimento de lideranças de qualidade.
Apesar disso há bons líderes escolares em Portugal e nas escolas que dirigem os problemas existem como nas outras mas têm dimensões significativamente diferentes. Por razões investigativas conheço muito bem duas escolas modelares a vários títulos. Não quero ser injusto para todas as outras que não conheço tão bem, mas estas são um exemplo e os seus presidentes são líderes de primeira água com quem todos temos a aprender.
Estudá-las é um exercício estimulante, tomar contacto com as suas boas práticas um imperativo, perceber como podem dois presidentes, rodeados de boas equipas e com professores mobilizados transformar a regularidade em excepcionalidade, uma necessidade para se encontrarem melhores soluções para todos.
Por favor tentem conhecer, se não conhecem já, o Carlos Monteiro e o João Paulo Mineiro e não deixem de visitar a escola Joaquim de Carvalho, na Figueira da Foz, e a Quinta das Palmeiras, na Covilhã. Vão ver que não se arrependem e certamente encontrarão inspiração e estímulo.
Claro que conheço outros bons líderes escolares, mas não os refiro porque não disponho da informação que tenho sobre estes dois colegas e sobre as suas escolas e deixo este espaço aberto a quem queira sinalizar outros exemplos de grandes lideranças e bons projectos educativos.

Mãos ao ar!

O Procurador Geral da República foi falar com o Presidente da República sobre a violência nas escolas. À saída do Palácio de Belém disse coisas interessantes, que o Presidente está preocupado e muito bem informado e que há alunos que vão para as escolas com armas de grosso calibre " para já não falar nas facas".
Se o Presidente está bem informado, não parece. Ou só agora é que se informou? Quem é que já se esqueceu que o Presidente apoiava publicamente a Ministra, se é que ainda não apoia, que sistematicamente tem desvalorizado o problema, assim como toda a equipa do ME?
Não sei porquê lembrei-me de quando era director de uma escola e uma professora acabada de chegar perguntou "Qual é a política da escola em relação à pastilha elástica?" Bons tempos!
Hoje a pergunta podia ser "Qual é a política da escola em relação às armas brancas?" Ou num caso mais radical, "em relação às 9mm (pistolas de guerra)?"
Se fosse a Ministra a responder, não tenho dúvidas, seria qualquer coisa deste género "Quais armas brancas, quais pistolas de guerra, aqui a malta só masca pastilhas elásticas!!!", o que certamente surpreenderia o Procurador, que está muito preocupado, e o Presidente da República, que está muito bem informado.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Carta aberta a Sua Excelência a Sr.ª Ministra da Educação

Com a devida vénia transcrevo a carta de um colega devidamente identificado. Curto e duro, mas melhora o humor, como diria o meu tio Juvenal.

Ílhavo, 24 de Março de 2008

Segunda carta aberta à Sra Ministra da Educação

Senhora Ministra da Educação

Excelência:

Há dias, uma jornalista tentava relacionar o acontecido na Escola Carolina Michaelis ( se fosse viva morreria de vergonha…) com o Estatuto do Aluno e V. Excia perguntava-lhe se o facto de haver um Código da Estrada impedia que houvesse acidentes de automóvel. A jornalista não lhe respondeu mas vou responder-lhe eu.

1. É evidente que o Código da Estrada não impede os acidentes de automóvel se os instruendos puderem faltar às aulas desse código e se no fim obtiverem a carta sem esforço.
É evidente que não impede se os instruendos puderem faltar ao respeito ao instrutor porque no fim ele vai ter de o aprovar para não prejudicar as estatísticas.

2. V. Excia é muito esperta mas parece não ter a inteligência suficiente para se aperceber da situação incontrolável que criou desrespeitando, humilhando e atirando para cima dos professores as culpas de tudo o que está mal nas escolas.
Mais uma vez V. Excia não tem uma palavra para dizer aos alunos e suas famílias como parte interessada no problema. A culpa, segundo o governo, é sempre dos professores e todos os outros estão inocentes e imaculados. V. Excia continua a dar carapau a um chefe de cozinha e a exigir-lhe que prepare lagosta suada para o jantar. E percebe-se facilmente porquê: porque o que interessa é desmoralizar os professores e diminuí-los aos olhos do povo para depois se lhes poder pagar pouco e não permitir que progridam na carreira. “Não merecem!, Não fazem nada!, Nem os nossos filhos conseguem educar!”

3. “Força, Ministra!”, continue a desculpar despudoradamente os alunos e as suas famílias e estará a criar uma geração que, para além de ignorante, não respeitará ninguém no autocarro, na rua, no trabalho, em casa.
“Força, Ministra!”, continue a hostilizar os professores se acha que foi desmoralizando os seus soldados que os generais ganharam batalhas.
“Força, Ministra!”, continue surda aos gritos de “a velha vai cair, altamente!” e, em breve, as salas de aula passarão do circo actual para coliseus onde os professores serão imolados para gáudio de alguns adolescentes imbelicizados por telenovelas e publicidade idiotas.
“Força, Ministra!”, continue a dizer que a Oposição está a fazer aproveitamento político da situação e um dia estará mais só e indefesa do que a Professora de Francês mas nesse dia não conte comigo para lhe estender a mão.

Neste momento V. Excia lembra-me um pastor perdido na serra a quem as ovelhas há muito não respeitam. A seu lado só tem os cães mas esses não fazem parte do rebanho…

Grato pela atenção



Domingos Freire Cardoso
Rua José António Vidal, nº 25 C
3830 - 203 ÍLHAVO
Tel. 234 185 375
E-mail: dfcardos@gmail.com

terça-feira, 1 de abril de 2008

Estatal versus privado

Um bloguista anónimo entendeu fazer alguns comentários sobre as minhas opções familiares em matéria de escolha da escola para os filhos. Naturalmente que quem se expõe sujeita-se a comentários de toda a ordem e eu aprendi já há muitos anos a conviver bem com isto.
No entanto, acho oportuno esclarecer que defendo o direito inalienável à privacidade e entendo que o ter-se actividade pública não autoriza quem quer que seja a devassar a nossa intimidade.
Posto isto, não tenho qualquer rebuço em deixar claro que considero que numa sociedade moderna o ensino estatal e o privado são ambos opções legítimas, sendo que Portugal, como muitos outros países, promovem o direito à educação através de escolas geridas directamente pelo Estado e escolas geridas por entidades privadas, embora subvencionadas para que possam prestar um serviço equivalente às estatais.
O preconceito contra o ensino privado não faz parte do meu portfólio de ideias e práticas e respeito igualmente um e outro, bem como os profissionais que prestam serviço em cada um. Sou um homem da escola pública, onde sou professor há mais de trinta anos, o que nunca me inibiu de colaborar com o ensino privado sempre que para isso houve oportunidade.
Enquanto cidadão e pai escolho as escolas para os meus filhos em função de critérios de qualidade, seja de ensino seja de serviços complementares prestados. Se são estatais ou privadas é irrelevante.

segunda-feira, 31 de março de 2008

A aprendizagem da Matemática nos USA

A aprendizagem da Matemática preocupa o Governo dos Estados Unidos da América, que mandou elaborar um relatório sobre o assunto. O relatório pode ser consultado, com grande proveito, em
E por cá, o que se faz? Formação contínua no básico. E chega? E as metodologias não se discutem? Não é só disto, mas também que se fala no relatório americano.

domingo, 30 de março de 2008

Factores de eficácia escolar

Os exemplos dos outros servem-nos de reflexão. A América Latina tem muito para nos oferecer e ao contrário do que às vezes se pensa na Europa estão muito à frente em domínios educativos.

A notícia que reproduzimos, da responsabilidade de Amanda Cieglinski, Repórter da Agência Brasil, é disso exemplo.

Brasília - Os 37 municípios apontados pela pesquisa Redes de Aprendizagem foram escolhidos com base no cruzamento de informações socioeconômicas dos alunos e dos municípios com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O objetivo era destacar localidades em que, apesar das adversidades, o direito de aprender é garantido. A pesquisa, feita pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), foi divulgada na semana passada.Durante dois meses, pesquisadores entrevistaram dirigentes municipais de educação, diretores, coordenadores, professores, pais e alunos, que apontaram as razões do bom desempenho das escolas. São dez os fatores apontados na pesquisa:
1. Foco na aprendizagem – Em todas as redes analisadas, a gestão é direcionada para a aprendizagem e baseada em um conjunto de práticas focadas nessa finalidade. Essa é a primeira diretriz do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE).
2. Gestão com consciência e práticas de rede – As escolas trabalham em parceria e existe um sentimento de coletividade. A liderança da Secretaria Municipal de Educação é considerada fundamental nesse aspecto. Cabe ao gestor municipal identificar as necessidades de cada colégio, participando do dia-a-dia dos alunos e professores.
3. Planejamento – Cada ação é planejada, com metas e prazos. Vinte e cinco das 37 redes citaram a importância do planejamento compartilhado. Nele, o professor troca experiências com outros colegas, sentindo-se mais seguro e preparado.
4. Avaliação – É o retorno imediato do trabalho desenvolvido. A cobrança de resultados é fator comum entre todas as redes participantes. Professores fazem avaliações periódicas, que orientam os projetos e ações de cada escola. O índice de evasão e repetência são controlados de perto.
5. O valor do professor – Para os alunos, o professor é parte fundamental e tem papel importante no processo de aprendizado. 6. Formação dos docentes – O investimento na formação dos professores foi apontado como fator fundamental por quase todos os municípios avaliados pela Unicef.
7. Valorização da leitura – Projetos de valorização da leitura são desenvolvidos em quase 80% dos 37 municípios. Muitas vezes são idéias simples, mas eficazes, que incentivam o prazer de ler. 8. Atenção individual ao aluno – Não desistir nunca de um aluno é regra nas escolas avaliadas pela pesquisa. O atendimento individualizado, respeitando o ritmo de cada criança, é ferramenta importante para que nenhum estudante fique para trás.
9. Atividades complementares – A escola vai além do que é exigido e oferece atividades extras que complementam a formação do aluno e fortalecem seu vínculo com a escola.
10. Parcerias – As redes analisadas na pesquisa abrem espaço, sempre que necessário, para atores externos à comunidade escolar, tanto do setor privado quanto de universidades ou organizações não-governamentais.

Assim não se é cidadão

Voltemos ao tema da disputa pelo telemóvel na Carolina Michaëlis. A fazer fé no que li nalguma comunicação social, alguns dos alunos da turma em causa aproveitaram os seus blogues para mandarem mensagens uns aos outros despedindo-se, afirmando a sua solidariedade e criticando a professora que "deu cabo de tudo".
Passados vários dias da ocorrência mais mediática alguma vez presenciada numa sala de aulas em Portugal, que foi objecto generalizado de crítica, aqueles aprendizes de cidadãos ainda não compreenderam o que aconteceu e não hesitam em agir com arrogância e pesporrência quando se esperaria que fizessem mea culpa e adoptassem um comportamento discreto e uma postura humilde.
Dir-se-á que é a solidariedade própria dos grupos de pares, que são adolescentes, que é próprio da fase de desenvolvimento em que se encontram desafiar as regras sociais, os adultos, os poderes.
Pois é, mas a família e a escola entre as suas mais nobres missões tem precisamente a de educar, a de preparar as crianças e os jovens para se tornarem cidadãos de pleno direito, integrados numa actividade profissional e autónomos enquanto pessoas.
Aparentemente uma e outra estão a falhar nestes casos. Não só não conseguiram incutir-lhes comportamentos e valores adequados, como também não conseguiram levá-los a reflectir sobre o seu comportamento impróprio.
O que se seguirá? A transferência de alguns, sem mais? E para os outros? Mais do mesmo? E as famílias como estão a lidar com os seus "meninos"? E o que vão fazer no futuro?
O que se passou e todas as repercussões que se conhecem, aconselham a que se faça uma ampla reflexão, sem preconceitos nem tabus, sobre o que está em jogo que sendo, nalguns casos, do foro judicial é, sobretudo, um problema de cidadania.
O que estão as famílias e as escolas a fazer pela educação dos nossos jovens? Para sermos mais realistas, de alguns dos nossos jovens, pois embora a situação seja delicada é bom não generalizar e sobretudo não tomar "a nuvem por Juno".

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Marco e o papelinho

Como o prometido é devido, vamos à análise do caso do "papelinho".

A professora ao ler o papel ficou indignada e fez queixa à direcção. Sejamos objectivos, que matéria havia para reagir? Um papel, se quiserem, um papel que circulava de carteira em carteira e uns risos. O papel era ofensivo? Não. Houve intenção de ofender a professora? Não. Se ela se tivesse limitado a interromper a circulação do papel e o tivesse mandado deitar para o lixo ou o tivesse guardado e lido mais tarde, o incidente teria ficado por ali.

Foi esta a análise que se fez com a professora, que era relativamente inexperiente, e que percebeu imediatamente que a forma utilizada em vez de esvaziar o incidente o avolumou e criou mesmo um problema onde ele não existia. A leitura do papel na sala é que criou uma situação delicada para a professora, que se sentiu ofendida com o seu conteúdo quando, objectivamente, a ela não era destinado.
Moral da história. O(a) professor(a) não deve avolumar os incidentes. A sua acção deve ser preventiva e dissuasora, nunca potenciadora de problemas.

Mas admitamos que o(a) professor(a), num gesto impulsivo, lê o papel. Seja qual for o seu conteúdo, só lhe resta reagir com naturalidade, de preferência utilizando pedagogicamente a situação. A professora podia ter perguntado se o aluno estava doente, se necessitava de ir "lá fora", podia mesmo acrescentar que nalgumas situações "libertar um gaz" era uma necessidade inadiável por razões de saúde, embora se devesse evitar fazê-lo na presença de outras pessoas. Enfim, cada um pode pensar nas milhentas coisas que se podiam comentar invertendo a situação a favor do professor.
O que nunca se pode fazer é perder o controlo e deixar escapar a oportunidade de afirmar a liderança do(a) professor(a).

No caso da outra colega que reagiu envergonhadamente a um comentário sobre o seu belo "rabo", podia também ter encarado o facto com naturalidade, realçando as preocupações estéticas do aluno mas fazendo-lhe ver e à turma que era deslocado e prejudicial para os alunos perder o fio condutor da aula e estar a preocupar-se com matéria que podiam observar em qualquer outra ocasião.
O(a) professor(a) tem de mostrar segurança e domínio das situações.

Num próximo post voltarei com casos mais complicados. Os colegas podem aproveitar para contar as vossas experiências ou casos que vos tenham sido relatados e todos os podemos ir comentando.

terça-feira, 25 de março de 2008

A face oculta da indisciplina

Quando fui DREC mandei fazer um levantamento em todas as escolas da Região Centro sobre incidentes críticos, vulgo situações de indisciplina ou violência, ocorridos desde o início do ano lectivo de 2005/6 até Março, envolvendo alunos dos 2.º/3.º ciclos e secundária e participados aos órgãos de gestão.
Com surpresa constatou-se que num universo de 119709 alunos só tinham sido participados incidentes envolvendo 753 alunos, ou seja, 0,63/ do total daquela população escolar. Naturalmente que a realidade oficialmente relatada e a estatística resultante não correspondiam à informação que nos chegava por várias vias, sempre informais.
Lembrei-me disto a propósito do alerta do Procurador Geral da República para a necessidade de se participarem todas as situações que pela sua gravidade justifiquem a intervenção do Ministério Público.
Vou mais longe, devem ser participadas aos órgãos competentes das escolas, depois logo se verá se se justifica o recurso ao MP, todas as situações de indisciplina, obstrução ou violência praticadas por alunos ou encarregados de educação que o professor considere que afectam o exercício da sua actividade docente.
Em linguagem mais corriqueira devia adoptar-se "tolerância zero" até a situação estabilizar em níveis considerados aceitáveis. Naturalmente que a situação é muito diversa de escola para escola, sendo claro que onde há lideranças fortes a ocorrência de incidentes é quase inexistente.
A par disto é urgente, já o ando a defender há muito tempo, formação acrescida dos professores na área da gestão de turma (classroom management). Eu próprio ja fiz muita formação neste domínio e sei, por experiência própria, que num primeiro momento ninguém tem problemas. Depois, soltam-se as línguas e é uma torrente.
Deixo-vos um exercício, baseado numa situação real, para que cada um possa pensar como resolveria o caso.
Uma professora vê uma folha de papel dobrada andar de mão-em-mão pela sala de aula. À medida que o papel circula risos mais ou menos dissimulados vão acompanhando o seu percurso. A professora resolve intervir e obriga um aluno a dar-lhe o papel. Este começa por recusar, mas após a insistência da docente, cede. A professora desdobra a folha e depara-se com este texto "O Marco cagou-se, está aqui um cheiro do caralho."
Pergunta 1 : O que fez a professora?
Pergunta 2: O que teria feito o/a colega se esta situação se tivesse passado consigo?

Incidentes críticos na sala de aula

O texto que se segue é parte de uma notícia do jornal Público de 10 de Novembro de 2001. A sua actualidade é indiscutível e a obra referenciada merece leitura atenta, embora julgue que está esgotada.

O objectivo é declarado: "criar algum ruído no sistema educativo". Na sua base reside um "aviso à navegação": "Atenção que os professores estão a perder autoridade na sala de aula." Carlos Fernandes, professor e investigador em Psicologia na Universidade do Minho, editou com dois colegas (Paulo Nossa e Jorge Silvério) um manual sobre "Incidentes Críticos na Sala de Aula", vulgarmente conhecidos por indisciplina. O resultado é do menos politicamente correcto possível, mas não se inventou nada, apenas se recorreu à Análise Comportamental Aplicada (ACA), para desconstruir a "teoria do coitadinho" e as "modas psicopedagógicas".
Depois de 20 anos a dar formação a professores de escola em escola, Carlos Fernandes concluiu que se passou "de um extremo ao outro". Dos tempos da palmatória salazarista transitou-se para "teorias pseudocientíficas", que assentam na ideia de que o aluno deve ser poupado, sob pena de sofrer "traumas" que o marquem para toda a vida.
O abismo que se cavou entre a velha guarda de professores e uma vaga mais jovem é flagrante. Um exemplo basta para que se perceba até que ponto. Um aluno dito problemático tornou-se o herói do dia ao deitar o tabuleiro da comida ao chão, em plena cantina. Um grupo de professores sugeriu que ele limpasse o que havia sujado. Um outro grupo considerou que tal seria humilhante para o adolescente. No final, a comida espalhada foi limpa pelo contínuo de serviço.
Ao longo do seu trabalho, Carlos Fernandes tem-se esforçado por provar que atitudes como esta não têm nenhuma base de sustentação científica e que, em termos educativos, se está a fazer tudo ao contrário do que diz a psicologia ao nível do comportamento. É certo que um professor não pode ignorar as consequências dos contextos sociais e familiares no aluno, mas, segundo o investigador, esses factores não devem servir para justificar tudo. Este é um princípio do conhecimento científico: "informar a prática de aplicação, não justificá-la", explicita o manual editado pela Quarteto.
Incidentes Críticos na Sala de Aula
Análise Comportamental Aplicada (ACA)
Carlos Fernandes da Silva, Paulo Nuno Sousa Nossa e Jorge Manuel Amaral Silvério
Editora Quarteto

segunda-feira, 24 de março de 2008

Línguas de bacalhau

Imagine o que sucederia, em Portugal, se alguém descobrisse que uma criança de sete anos, todos os dias depois da escola, ia para um matadouro cortar, por exemplo, línguas de coelho, que devem ser mais ou menos do tamanho das do bacalhau corrente. Claro que sabemos que algumas cosem sapatos e outras devem fazer coisas piores, mas agora estamos a tratar de línguas.
Pois na Noruega não só é aceitável, como pedagógico. Faço fé no que li hoje no Metro, aquele jornal gratuito que se diz "Líder absoluto com 774 mil leitores diários", (fica a publicidade em troca da matéria noticiosa).
Ali se conta que na cidade de Rost ( a grafia não está correcta, mas o meu computador não tem letras norueguesas), situada nas ilhas Lofoten, acima do círculo polar ártico, "Cortar as línguas do bacalhau é um hobby para as crianças. Não é encarado como trabalho infantil". Até nos apresentam Preben, um menino de 12 anos que corta líguas desde os sete. Como só tem TPCs aos fins-de-semana, ocupa as tardes de semana a cortar as línguas numa fábrica onde se processa o bacalhau acabado de pescar, chegando a juntar mil euros por mês.
Claro que é um hobby... e muitos pais portugueses, que ganham menos de quinhentos euros por mês, não se importariam nada que os filhos tivessem um hobby destes em vez de irem frequentar as AECs.
Mas para que não restem dúvidas, a Ministra da Educação da Noruega, Helga Pedersen, concorda, pois acha importante que as crianças "conheçam o peixe", acrescentando "Tem a ver com a identidade, é uma tradição. Se os jovens não souberem como o peixe é, ou como é produzido, é mais difícil convencê-los a serem pescadores, exportadores de peixe, ou a trabalhar na indústria".
Não vale a pena olhar para esta realidade com os olhos postos em Portugal, o mundo é plural e as identidades são o que são. O sistema educativo norueguês é dos mais eficientes do mundo e as suas práticas podem ser muito inspiradoras. Por hoje, fiquemo-nos pelas línguas de bacalhau e pelo hobby do menino Preben.

domingo, 23 de março de 2008

Afinal a culpa foi do telemóvel

O Conselho das Escolas, ou o seu presidente, já encontraram solução para evitar situações idênticas à que ocorreu na Escola Carolina Michaélis - acabar com os telemóveis nas escolas.
Não fosse a existências deste aparelhos incómodos e nada daquilo se teria passado, portanto uma medida radical só mesmo impedir os alunos de os levar para a escola.
Já agora podia seguir-se idêntico processo com os computadores, os projectores de vídeo, talvez mesmo os rectroprojectores e com diligência chegaríamos mesmo aos livros que, como se sabe, costumam ser queimados por conterem ideias perigosas.
A aluna pode dormir descansada, a professora pode curar calmamente as feridas e sentir-se vingada, "não mais telemóveis nas escolas", pois, como fica provado, foi este o culpado do sucedido, é este o verdadeiro réu do processo, é sobre este que se deve abater a censura pública.
Correndo o risco de ser retro, esta "anedota" lembra-me aquela história do puto que parte um vidro. Antigamente era responsabilizado e, eventualmente, castigado. Hoje, alguém muito preocupado perguntará "por que estará ele a querer chamar a atenção?".
Afinal quem é que está a ver o mundo e os valores de pernas para o ar?

sábado, 22 de março de 2008

A 1.ª reunião do CCAP

O Gabinete de Comunicação do ME fez divulgar a nota seguinte, que reproduzo sem comentários, embora não me dispense de sublinhar a ironia fina que, involuntariamente, estou certo, percorre o último parágrafo.
O Conselho Científico para a Avaliação de Professores realizou a sua primeira reunião plenária na passada sexta-feira, dia 14 de Março.

Durante o encontro, os conselheiros analisaram a missão do Conselho, bem como o seu papel no acompanhamento e monitorização do regime de avaliação de desempenho dos professores.

Entre as suas decisões está a aprovação das Recomendações sobre a elaboração e aprovação pelos Conselhos Pedagógicos de instrumentos de registo normalizados previstos no DR 2/2008, formuladas pela presidente, Conceição Castro Ramos, em 25 de Janeiro de 2008 (ver
http://www.min-edu.pt/np3/1605.html).

Estas Recomendações serão agora aprofundadas e desenvolvidas, à luz dos princípios orientadores de autonomia e diversidade, equidade e justiça, flexibilidade e adequação à realidade e de simplificação de procedimentos.

quinta-feira, 20 de março de 2008

O telemóvel da disputa

As televisões passaram hoje este vídeo, gravado por um aluno, com um episódio quase inacreditável.
Uma professora retirou um telemóvel a uma aluna que, presume-se, o estava a utilizar indevidamente. Esta não se conforma e, para além de protestar, exige à professora que lho devolva, tratando-a por tu e agarrando-se a ela, tentando tirar-lho. A professora ainda tenta chegar à porta, provavelmente para pedir ajuda, mas a aluna consegue apoderar-se do telemóvel depois de uma quase luta corpo-a-corpo com a docente, envolvendo outros alunos que não se percebe se tentavam ajudar a aluna ou serenar os ânimos.
Entretanto um aluno grava a cena e outros incentivam ou, simplesmente, riem à gargalhada.
O episódio vale como ilustração do estado a que as nossas escolas já chegaram, da insubordinação dos alunos, da incapacidade de muitos professores em assegurarem um controlo mínimo da gestão das turmas, da total ineficácia dos regulamentos internos como garantes da disciplina necessária.
Para além de tudo isto é intrigante que a professora abusada não tenha apresentado queixa. Para não se sujeitar a mais enxovalhos? Porque não acredita na justiça escolar? Ou simplesmente porque este tipo de comportamentos se tornou rotina? E o ME, A DREN (a escola é do Porto), a direcção da escola, fizeram alguma coisa? Ou deixaram a professora entregue a si própria, para não dizer aos "bichos"?

quarta-feira, 19 de março de 2008

A teimosia como princípio

No "Radar" de José Gil, revista Visão, vem hoje um notável texto com o título acima sobre a governação, em geral, e sobre José Sócrates, em particular, que recomendo vivamente.
Apenas um pequeno excerto
"Fora do partido, a teimosia pessoal elevada a princípio político implica uma ruptura com o povo: deixa-se de o ouvir, deixa-se de ver os sinais de perturbação social, deixa-se de sentir os movimentos finos de forças que percorrem a sociedade e a que toda a governação democrática deve estar atenta. Nasce o risco de desnaturação da democracia."
Fora dos círculos mais cristalizados da militância PS não encontro ninguém a subscrever certas políticas do Governo, apesar das sondagens, e como militante socialista fico envergonhado com posições do tipo das de Vitalino Canas "O Governo fez tanta coisa bem feita que nem vale a pena falar das que fez mal." (cito de memória).
Quando se perde o sentido crítico e a noção do ridículo acelera-se a erosão da credibilidade política.

Aniversário

Hoje tive um jantar de aniversário. À mesa éramos cinco professores e três alunos. Os professores fartaram-se de discutir sobre os temas quentes. Os alunos ou estiveram calados ou "desertaram" para o parque infantil.
Entre entradas e sobremesas os professores passaram em revista acaloradamente as causas maiores das desgraças da educação. Alguns dos professores também são pais, mas esqueceram-se disso. Só os alunos agiram como sempre - marimbaram-se para a discussão - o negócio deles é outro, discutir para quê? Com esta ou com outra Ministra, com esta ou com outra política, eles têm de continuar a aprender e, como diria o velho professor Miranda, mais conhecido pelo "dez para as duas", figura veneranda do Liceu de Évora quando por lá andei nos idos de sessenta - "A escola ensinou-me mal, mas eu tramei-os e aprendi bem!". (Este episódio é contado pelo Prof. Manuel Patrício, com quem a conversa se terá passado, que tive o privilégio de ter como professor e Amigo quando fiz o 6.º e 7.º anos, e que muito me marcou, bem como a muitos outros que com ele se cruzaram nos vários ciclos de ensino por onde passou, da primária ao superior).

segunda-feira, 17 de março de 2008

A personalização da gestão

Como é sabido, todas as instituições do ensino superior estatal estão em fase de discussão dos estatutos. A elaboração destes está condicionada pelo novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (Lei n.º 62/2007, de 10 de Setembro) que no seu artigo 85.º, n.º 1 estabelece que "O reitor da universidade ou instituto universitário ou presidente do instituto politécnico é o órgão superior de governo e de representação externa da respectiva instituição" e no n.º 2 "O Reitor ou presidente é o órgão de condução da política da instituição e preside ao conselho de gestão."
Também a proposta de Decreto-Lei da gestão das escolas dos ensinos básico e secundário (Projecto de Decreto-Lei 771/2007-ME) prevê no seu artigo 18.º que "O director é o órgão de administração e gestão do agrupamento de escolas ou escola não agrupada nas áreas pedagógica, cultural, administrativa e financeira e patrimonial".
Como fica claro, e tratando-se embora de dois subsistemas do sistema de ensino, visa-se claramente uma mudança de paradigma neste domínio personalizando a gestão e concentrando amplos poderes nos reitores/presidentes/directores.
Futuramente os gestores de topo respondem não perante os pares, mas perante os "conselhos gerais" que os elegem, que integram até 50% de personalidades exteriores às instituições, no caso do básico e secundário, e obrigatoriamente presididos por uma personalidade externa, no caso do superior.
Pense-se o que se pensar, trata-se de uma revolução de veludo com profundas implicações na vida das instituições. Fecha-se o ciclo aberto pela revolução do 25 de Abril de 1974 e mantendo-se a legitimidade eleitoral dos gestores de topo, submetem-se a estes todos os restantes órgãos executivos numa preocupação de verticalização da decisão e de eficácia de resultados, que só o futuro permitirá dizer se serão vantajosos.

domingo, 16 de março de 2008

Avaliação ou titulares?

Há apenas uma semana o país espantava-se e o Governo tremia com o grito de cem mil professores que desfilaram por Lisboa num gesto de protesto de uma classe inteira, jamais visto em Portugal.
Uma semana apenas passada e o grito parece ter sido parcialmente abafado. Bem sei que nem todos se manifestaram pelos mesmos objectivos. Para além do traço comum e genérico "contra o ME e a política educativa" muitos estiveram lá por diferentes razões e o facto de os sindicatos terem vindo a colocar o sublinhado na questão da avaliação está a empurrar o movimento de protesto para posições defensivas e a desfocar o essencial da questão, como já aqui escrevemos.
O ME está a recuar na questão da avaliação, está a flexibilizar as exigências, está a remeter para as escolas alguma da matéria acessória, mas o essencial não vai mudar e os sindicatos estão a chegar a um beco sem saída.
A radicalização das formas de luta em torno da avaliação não faz qualquer sentido no contexto actual, sob pena de se poder dizer, agora com razão, que os professores não querem é ser avaliados. Outra situação bem diferente seria colocar a tónica no malfadado concurso para titulares, ele sim, verdadeiro causador do "pecado original" que paira sobre o processo de avaliação.
Mas será que se vai esquecer esta questão, permitindo-se que uma entorse desta natureza persista? Eu sei que estamos na Quaresma e que o tempo é de trevas, mas o sábado de Aleluia não tarda aí e com a Ressurreição regressará a esperança.
Espero bem que o grito de revolta que ecoou pelo país não seja sufocado pelo silêncio das férias, nem por algumas concessões menores por parte do ME.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Liderança escolar (1)

Uma colega de uma universidade de São Salvador da Baía, que lecciona um curso a distância de Gestão e Organização das Instituições do Ensino Fundamental, dasafiou-me para colaborar na leccionação da sua cadeira com uma pequena entrevista sobre um tema que me ocupa em termos de investigação - líderes e lideranças escolares.
Com a colaboração de técnicos que trabalham comigo fizemos a entrevista que se reproduz, seccionada em três partes, e que também podem encontrar no You Tube pesquisando por "liderança escolar".
Como admito que o assunto possa suscitar algum interesse por causa do novo modelo de gestão escolar, deixo-o aqui à vossa consideração.
Nota: Eventuais dificuldades de visionamento resultam das características dos computadores utilizados e não do vídeo.

Liderança escolar (2)

Liderança escolar (3)

terça-feira, 11 de março de 2008

Sobre a nudez forte da verdade...

O manto diáfano da fantasia prepara-se para descer sobre a luta dos professores. Ao que se ouviu nos telejornais já houve reuniões com os sindicatos e amanhã vai haver com o Conselho das Escolas.
O Governo e a equipa do ME querem a todo o custo afastar o fantasma de cem mil docentes em protesto e, Vitorino dixit, há que flexibilizar. Só que a avaliação, como já aqui se escreveu e qualquer pessoa sabe, é como a febre, não passa de um sintoma.
Ora, qualquer adiamento, ou para sermos politicamente correctos, qualquer flexibilização, é como o Benuron, baixa a temperatura mas não cura a doença. Com ou sem adiamentos ou flexibilizações a avaliação, esta avaliação, é inaceitável, não em si mesma, mas porque os avaliadores, uma parte dos avaliadores, resultaram de um concurso imoral.
Aqui é que bate o ponto e, infelizmente, parece que os sindicatos estão a esquecer-se disto, o Conselho de Escolas finge que não sabe, os partidos ignoram ou assobiam para o lado e muitos professores também parecem distraídos.
Depois do beco sem saída a que os sindicatos conduziram a luta dos professores contra o estatuto da carreira docente, temo que venha a acontecer o mesmo com o actual processo, com o inevitável cortejo de frustrações que os processos perdidos sempre acarretam.
É preciso gritar bem alto urbi et orbi que o mal não está na avaliação, o verdadeiro problema reside a montante, no concurso para titulares. Tudo o mais é o manto diáfano da fantasia a disfarçar a nudez crua da verdade, como diria o Eça.

Ó pra eles...todos baralhados...

Notícia da Antena 1

Ontem, em declarações à RTP, António Vitorino defendia um teste ao modelo de avaliação dos professores. Jorge Pedreira. O Sec. de Estado da Educação, diz que um período experimental não faz sentido. O modelo de avaliação dos professores deve ser consequente, embora não rejeite totalmente as ideias de António Vitorino. Vitalino Canas tem uma interpretação diferente das palavras de António Vitorino. O porta-voz do PS não encontra contradições no discurso de António Vitorino face ao discurso do Ministério da Educação. Vitalino Canas considera mesmo que a ideia vem mesmo ao encontro daquilo que o próprio Ministério tem dito.

Pois é...talvez consigam a quadratura do círculo. Até pode ser que digam isto e o seu contrário, ou como disse outro dia um postador "concordo com a Ministra e com todos os que estão contra ela", só que a realidade é o que é, goste-se ou não.

segunda-feira, 10 de março de 2008

O professoricídio em curso

A palavra custa a dizer, é um neologismo, mas deve-me assistir o direito de a utilizar para significar o autêntico "assassinato do professor" que alguns comentadores da nossa praça andam por aí a fazer.
Apesar da tarimba das misérias humanas ainda me surpreendo com a atitude abjecta de alguns escribas de serviço que têm tentado a todo o custo proceder a uma assassinato de carácter de toda a classe dos professores, especialmente aos que usando o direito cívico à indignação, tão oportunamente invocado já lá vão muitos anos por Mário Soares, e o direito constitucional ao protesto e à manifestação, têm afirmado nas escolas, nas ruas e nos órgãos de comunicação social a sua discordância face às políticas do Governo para o sector educativo.
As ervas daninhas da Inquisição, da delação, da polícia política, dos bufos e quejandos não foram completamente extirpadas e germinam com furor sempre que surge ocasião favorável. Travestidos de "opinion makers" andam por aí uns abencerragens que se julgam detentores da pedra filosofal e que regurgitam em palavras de hoje o lastro da pior tradição autoritária e repressiva ao invectivarem os professores por se manifestarem, chegando ao ponto de colocarem em dúvida a sua dignidade pessoal e profissional como educadores, apenas por não abdicarem dos seus direitos e da sua cidadania activa.
É a vida, e para os professores, habituados a alunos difíceis e alguns mal educados, é apenas mais uma oportunidade para com serenidade e sentido de serviço demonstrarem a essa gentalha de que lado está a razão.

Vitorino dá a táctica ao Governo

Com a devida vénia transcrevemos uma notícia da Lusa. António Vitorino que é um homem inteligente e bem preparado também ainda não percebeu que o problema não é a avaliação. O pior cego é mesmo aquele que não quer ver...Tomem lá um rebuçadinho e deixem-se de protestos.

Educação: Vitorino (PS) sugere avaliação experimental dos professores durante ano e meio
10 de Março de 2008, 21:38
Lisboa, 10 Mar (Lusa) - O dirigente socialista António Vitorino sugeriu hoje ao Governo que adopte um modelo experimental de avaliação dos professores, de um ano ou ano e meio, cuja instância de supervisão seria aberta à participação dos professores.
A posição do ex-comissário europeu foi assumida no seu programa de comentário político, "Falar Claro", na RTP, quando analisava as consequências da manifestação dos professores, no sábado, que juntou em Lisboa cerca de cem mil pessoas.
"Sem recuar, sem ceder, penso que há margem para o Governo encontrar uma solução equilibrada" para resolver o actual diferendo em torno do sistema de avaliação dos professores, defendeu António Vitorino.
Segundo o dirigente do PS, o Governo deve aceitar que a aplicação do novo modelo de avaliação "seja aferida" ao longo do tempo e não concretizado "instantaneamente".
"É possível um sistema avaliação que dê confiança", através da criação de "uma instância que seja aberta à participação dos professores, que poderão monitorizar a sua aplicação", indicou Vitorino.
António Vitorino acrescentou que o sistema de avaliação poderia primeiro ser aplicado de forma "experimental, durante um ano ou ano e meio, mesmo que não seja integral", ou seja, mesmo que não cubra todo o território nacional.
O ex-comissário europeu admitiu ainda que o Governo deverá aceitar "uma simplificação" do sistema de avaliação, assim como rever o grau de descentralização em termos de adaptabilidade do modelo previsto na sua proposta.
"O sistema tem de ser adaptado à realidade em que se vai aplicar mas não pode gerar situações de desigualdade em termos de progressão nas carreiras. O Governo deve estar aberto a ouvir as críticas construtivas", advertiu.
No entanto, o dirigente socialista defendeu que o Governo não poderá ceder na questão de princípio: "É impensável que os professores sejam os únicos funcionários do Estado que não sejam avaliados pelo desempenho das suas funções".

Lusa

domingo, 9 de março de 2008

Salvaguardar a memória

Já uma ou outra vez alguns dos generosos amigos que prestam atenção ao meu blogue se referiram ao facto de eu enquanto DREC ter tido atidudes não consentâneas com as que agora defendo.
Naturalmente, não estou de acordo. Claro que enquanto responsável na região Centro pela Administração Educativa tinha obrigação de executar as políticas superiormente definidas, mas sempre afirmei, e cumpri, que quando entendesse que o seu cumprimento colidia com a minha consciência deixaria as funções.
Quanto ao meu desempenho enquanto DREC, não me compete fazer agora a minha auto-avaliação, mas terei todo o prazer em remeter aos colegas interessados o documento com as conclusões do inquérito realizado junto de todos os conselhos executivos, pouco antes de ter abandonado o cargo a meu pedido, e a que foi dada a divulgação adequada na altura em que foi promovido.
Para o efeito basta que mo peçam para jmsilva@esel.ipleiria.pt

Um problema chamado Ministra da Educação

Seja qual for o olhar que se tenha sobre a manifestação de ontem é impossível não reconhecer o óbvio, está-se perante um dos mais impressionantes e genuinos protestos de uma classe profissional face a políticas de um Governo que quebrou todas as pontes de diálogo e não percebeu, ou fingiu não perceber, que esta equipa do ME, com a Ministra à frente, se transformou num problema e não numa solução.
Ao ponto a que as coisas chegaram dificilmente se encontrará uma solução em que todos salvem a face e não se antevê como pode o Governo continuar a fingir que ignora que mais de metade dos professores sairam à rua para dizer basta de enxovalhos e de mentiras.
A aparição da Ministra na Televisão foi patética ao dizer que não "desiste" e que "os obstáculos se contornam", esquecendo-se de que quem foi à manifestação é quem está nas escolas e que depois do que aconteceu na rua o movimento se vai espraiar dentro das escolas, o que pode levar à completa ingovernabilidade do sistema se os professores utilizarem a força que se provou terem e o ME e o Governo continuarem teimosamente a "olhar para o Céu".
Reside aqui o essencial do futuro. O que fazer com a força que se viu? Desistir não deve fazer parte do léxico, forçar é preciso, com prudência, mas com firmeza, desmistificando a questão da avaliação e colocando o dedo na verdadeira ferida - o concurso para titulares.
É preciso que a sociedade saiba que foi a partir deste concurso que tudo ficou inquinado e que nada justifica os critérios utilizados na sua realização. A avaliação é indispensável, mas tem de ser credível e não pode falhar exactamente num ponto crítico - nos avaliadores. Ora para que alguém aceite ser avaliado é necessário que reconheça a competência de quem o vai avaliar, o que manifestamente não se verifica em muitos casos. Este é que é o busilis da questão.
O resto é miopia política, teimosia e incapacidade de reconhecer que em democracia não se pode governar contra as pessoas.
O Primeiro Ministro não tem opositor à altura, pelo menos de momento, mas quer manter a maioria absoluta em 2009. É altura de perceber que a crise do sistema escolar pode transformar-se num obsctáculo intransponível para alcançar esse desiderato. Está, pois, na hora de substituir a Ministra e algumas políticas no campo da educação, se não quiser ser ele próprio sacrificado no altar da arrogância, da insensibilidade e da falta de tacto político.