terça-feira, 29 de outubro de 2013

Discurso de tomada de posse Assembleia Municipal LEIRIA

Sr. Presidente da Câmara Municipal de Leiria

Sres e sras presidentes de juntas e uniões de freguesias e nas vossas pessoas a todos os eleitos do conjunto das freguesias do concelho

Sres e sras vereadores e vereadoras

Entidades presentes

Minhas senhoras e meus senhores

As minhas felicitações aos que mereceram a confiança dos eleitores e que agora integram os vários órgãos autárquicos. A todos desejo os maiores sucessos e felicidades no desempenho dos cargos. A população confiou-nos uma grande responsabilidade e agora cabe-nos não defraudar as expectativas e tudo fazer para contribuir para o desenvolvimento sustentado do concelho e para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.

Permitam que me dirija de forma muito particular aos nossos concidadãos que aqui não vieram, que talvez até nem tenham votado, que possivelmente não tenham por nós grande consideração e que se refiram de forma pouco abonatória aos políticos em geral e a nós em especial. São esses cidadãos desiludidos com a política e, quiçá, com o país, que nos colocam o maior desafio, o de sermos capazes de os fazer reconciliar-se com a cidadania ativa e de os motivarmos para uma participação construtiva na vida do concelho e do país.

É por esta razão que vos convido a definir como prioridade estratégica para este mandato, para além das nossas estritas obrigações legais, a de trabalharmos em prol de uma Assembleia Municipal próxima dos cidadãos, capaz de demonstrar a sua importância, afirmando-se como uma verdadeira casa da democracia local, da tolerância, da formação cívica e da defesa dos interesses das populações.

Foi com o pensamento neste desígnio que tomei a iniciativa de desenvolver esforços no sentido de encontrarmos uma solução para a mesa da Assembleia que traduzisse este espírito de compromisso e de cooperação num trabalho que excede largamente os mais estritos objetivos partidários. Sempre defendi que as mesas das assembleias municipais devem ser mais do que uma expressão de força do partido mais votado.

O meu partido mostrou toda a abertura e mandatou-me para fazer as diligências que entendesse e pudessem viabilizar uma solução mais abrangente incluindo na mesa um deputado ou deputada eleito pelo PSD. Cheguei a pensar numa personalidade que pela sua juventude e formação pudesse ser um sinal para todos os jovens alheados da política, uma forma de nos afirmarmos numa pluralidade saudável que sem pôr de lado as nossas matrizes ideológicas e partidárias sublinhasse a importância do que nos une e a força da portugalidade em que todos nos revemos.

Infelizmente o PSD entendeu não contribuir para esta solução. Respeito a decisão, como não poderia deixar de fazer, mas espero que os tempos me deem razão e que todos percebam que nesta Assembleia a cooperação tem de estar acima da divisão, o encontro acima do confronto, a verdade acima da demagogia.

Neste momento em que novos mandatos se iniciam e inspirando-me na figura tutelar da democracia portuguesa e fundador do Partido Socialista, Mário Soares, tomo a liberdade de invocar a ideia da magistratura de influência, que ele tão bem protagoniza, para deixar duas notas de preocupação que devem merecer a conjugação de esforços de todos nós no sentido de encontrar as melhores soluções para dois problemas candentes do concelho.

O primeiro é a urgência de se encontrar uma solução para o Estádio Magalhães Pessoa. Ninguém pode aceitar a inevitabilidade de se continuarem a pagar cerca de 25000 euros diários para alimentar a dívida daquele recinto desportivo e a sua manutenção. Trata-se de uma iniquidade, de uma ofensa a todos os cidadãos que veem os seus rendimentos cortados, as suas regalias diminuídas, os seus direitos cerceados, ao mesmo tempo que os parcos recursos da Câmara, que o mesmo é dizer de todos nós, vão para uma obra inacabada, para um elefante branco, para solver compromissos sem sentido social.

Muito se tem discutido este assunto, muita tinta tem corrido sobre a matéria, muita demagogia tem campeado na comunicação social e nas arenas políticas, mas soluções, nenhuma.

É tempo de percebermos que este assunto não tem resolução local nem nacional e que é de tal gravidade e complexidade técnico-financeira que só pode ser tratado ao mais alto nível e no contexto de empresas e investidores internacionais que estão muito para lá do que é habitual nas transações habituais de uma câmara municipal.

Deixo, pois, a sugestão de se encarar a possibilidade de se recorrer à figura de um concurso internacional, apoiado por consultores experientes neste tipo de operações e que possa transferir para um patamar diferente a solução para o principal foco de instabilidade financeira da Câmara Municipal de Leiria.

O segundo problema é ainda mais complexo do ponto de vista ideológico e do extremar de posições a que tem dado lugar. Trata-se da concessão da gestão das redes em baixa de água e saneamento. Independentemente das posições de cada um, é necessário que o assunto seja esclarecido com toda a transparência, que todos os cidadãos percebam o que está em jogo e que não se dê margem para que a demagogia desenfreada nos distraia do essencial que é tão só assegurar a estabilidade da gestão e exploração da distribuição da água que todos consumimos e da rede de saneamento que todos utilizamos.

É certo que a água é um bem público de primeira necessidade, mas não é menos verdade que não chega às torneiras a custo zero, que a captação, tratamento e distribuição é onerosa e que o preço pago pelo metro cúbico nem sempre cobre as despesas inerentes.

O que está em causa não é, nem nunca foi, a privatização da água e do saneamento, mas apenas a concessão de toda a operação por razões que se prendem com a sustentabilidade do sistema e a presumível incapacidade financeira da Câmara para fazer face às necessidades de requalificação e modernização da rede.

Deixo aqui o repto aos deputados e deputadas para que se preparem o melhor possível para o debate inevitável sobre esta matéria e convido todos a terem presentes as posições nacionais dos seus partidos nesta questão, sendo certo que não é credível que se tenha uma posição desfavorável face à concessão no nosso concelho quando se defende o contrário em termos de política governamental. Por muito importante que esta matéria seja não parece poder argumentar-se que se trata de um problema de consciência individual.

Se estes dois problemas são os que estimo serem mais fraturantes no contexto em que nos moveremos nos próximos anos, também quero assinalar dois outros que me parecem estratégicos para catapultar Leiria para um patamar de desenvolvimento a que todos aspiramos e que tem de ser encarado no quadro das sociedades mais evoluídas do século XXI, em tempos de globalização quase total do planeta, com todos os problemas e desafios que esta revolução silenciosa tem vindo a desencadear.

A aposta na capacidade das empresas como escopo de uma política de desenvolvimento local e de alavancagem da economia, das exportações, do emprego e da fixação de novos residentes carece, nos tempos que correm, do apoio de polos de tecnologia, inovação e ciência sob pena de se perder capacidade produtiva, concorrencialidade e capacidade de inovar.

É neste quadro que me parece relevante que a Câmara aprofunde as ligações ao Instituto Politécnico de Leiria, um indiscutível parceiro para o desenvolvimento, dotado de massa crítica, de capacidade tecnológica, científica e de metodologias inovadoras, indispensáveis à sustentabilidade de uma política de reforço da capacidade produtiva das empresas da região, que concorrem no mercado global e que influenciam decisivamente o futuro do concelho.

Não se trata de dar continuidade apenas a formas de colaboração ou de cooperação mas de criar uma verdadeira joint venture para o desenvolvimento que potencie o concelho e os seus fatores críticos de desenvolvimento.

Nesta linha de potenciar os nossos recursos, assinalo uma outra área, internacionalmente em expansão acelerada mas ainda muito timidamente referenciada em Portugal; refiro-me ao turismo de saúde, também designado por turismo cirúrgico.

Leiria tem três bons hospitais – O Santo André, que é estatal, o D. Manuel de Aguiar, que é da Misericórdia de Leiria, e o S. Francisco, que é privado.

Todos eles prestam serviços relevantes, estão bem equipados e podem ser complementares nalgumas áreas. Todos eles podem prestar serviços em várias especialidades a cidadãos de outros países que atraídos por serviços de qualidade, a preços interessantes, escolham Leiria para tratamentos clínicos especializados.

Acresce que Leiria tem uma rede hoteleira subaproveitada, muito sazonalizada em termos de ocupação, refiro-me à capacidade hoteleira de Monte Real, mas com potencial para, modernizada e gerida de outra forma, prestar serviços de retaguarda hospitalar, complementados com spa e outros tratamentos hoje vulgarizados e cujo limite é a imaginação de quem os programa e de quem os procura.

Existe ainda uma proximidade ao santuário mariano de Fátima, marca reconhecida internacionalmente e que atrai milhões de peregrinos, que pode constituir um elemento adicional de valorização deste projeto se forem conseguidas as articulações desejáveis e considerada a vantagem adicional de se dispor de um parque hoteleiro diversificado e moderno ali existente.

Dirão alguns que estou a sonhar alto. Direi que apenas olho para o mundo e vejo o que se passa. Sonhar, acreditar, são os primeiros passos para alcançar objetivos. O nosso futuro está nas nossas mãos e compete-nos não falhar. O desenvolvimento de Leiria exige arrojo, ideias novas, capacidade de concretização e, estou certo, o presidente Raúl Castro, o executivo camarário e a Assembleia Municipal possuem todas as condições para levar a bom porto o ambicioso programa sufragado maioritariamente pelos leirienses.

Sres deputados e sras deputadas

Meus sres e minhas sras

Cumpre-se hoje o primeiro dia do nosso mandato, é o tempo de acreditar que tudo é possível, e eu acredito que vamos mudar a forma de estar e de fazer política na Assembleia Municipal.

Todos podemos e devemos trabalhar no sentido de aproximar a Assembleia dos Cidadãos e por isso não me limitei a palavras de circunstância e quis deixar claro que usarei os poderes que os eleitores me conferiram e que vossas excelências sufragaram para afirmar a importância da nossa missão coletiva e o dever de pensarmos fundadamente nos assuntos do concelho por respeito aos nossos concidadãos e a nós próprios.

E porque a dignidade dos órgãos não dispensa o seu funcionamento em condições adequadas, a Assembleia Municipal necessita de um novo espaço com as condições indispensáveis ao trabalho dos deputados e dos colaboradores que apoiam as reuniões, dos jornalistas que fazem a cobertura e do público que a elas quer assistir. Empenhar-me-ei, por isso, em conseguir melhorar as condições de instalação da Assembleia, sem prejuízo de mantermos a rotatividade periódica nas freguesias, dotando a Assembleia Municipal de um espaço digno e funcional próprio do século em que vivemos.

Desejo que todos e cada um de nós sinta a responsabilidade de que estamos incumbidos, a honra que nos concederam de representarmos a população do concelho de Leiria e a necessidade de elevarmos o nível técnico e político das nossas intervenções, transformando os debates em momentos de aprendizagem e de esclarecimento que motivem os cidadãos para a participação cívica e política.

O alheamento e a abstenção combatem-se no dia-a-dia, não apenas nas campanhas eleitorais. Nós temos a enorme responsabilidade de sermos líderes de opinião e de não podermos defraudar a confiança que em nós depositaram os eleitores.

O futuro julgará a nossa ação mas tenho a certeza que, em conjunto, vamos fazer mais e melhor por Leiria. Afinal, somos todos gente de confiança!

José Manuel Silva

13-10-12

 

 

 

 

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Os swaps e o lixo cívico

O folhetim dos swaps continua. Um secretário de estado já caiu e a ministra vai ardendo em lume brando. Este assunto ilustra o pior que a política portuguesa tem para oferecer, intriga, incompetência, pulhice e vacuidade.
O país debate-se com uma crise profundíssima, invoca-se a necessidade de um consenso nacional para resolver o problema e o que fazem os agentes políticos de topo, envolvem-se numa disputa sobre um assunto eminentemente técnico, transformam-no em arma de arremesso político com a conivência da comunicação social e, para que o ramalhete fique completo, a Procuradoria Geral da República abre um inquérito sobre um suposto documento forjado.
O cidadão comum, o pagador de impostos, as famílias que dia a dia lutam para criar os filhos, os pensionistas quase já sem reformas, enfim, os que constituem a base da sociedade portuguesa, interrogam-se e como o alentejano da anedota perguntam se "estes gajos andam a mangar connosco?".
Há momentos em que tenho vergonha do espetáculo deplorável em que se transformou a alta (?)política portuguesa. Será que não acordamos, será que estamos condenados a conviver eternamente com este lixo cívico? Eu não me resigno. Você faça o mesmo.

domingo, 14 de julho de 2013

O Presidente e a Salvação Nacional

Eu sei que é politicamente mais correto criticar a decisão do Presidente do que apoiá-la, há mesmo quem se recuse a considerar que se tratou de uma decisão e outros que pensam que se as coisas estavam más, ficaram piores.
Faço parte dos que acreditam que Cavaco finalmente acordou para a realidade e penso que mais vale tarde do que nunca. No final do salazarismo contava-se uma anedota sobre os vários modelos de Estado.  Podia-se falar do Estado Capitalista, do estado Fascista e do Estado a que isto (Portugal) chegou. Passadas 4 décadas podemos afirmar estar de novo no mesmo ponto, embora com democracia e liberdade que não são coisas de somenos. Economicamente estamos quase na bancarrota apesar de eufemisticamente se falar de resgate que parece ser uma palavra mais aceitável para quem está nas mãos dos credores e agiotas. Mas ninguém se iluda pois estamos mesmo no estado a que isto chegou, uma espécie de indigência nacional que estende a mão à caridade internacional mas não se dispensa de dar confirmação ao ditado popular de que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.
O Presidente percebeu, finalmente, que antes que o pão falte a todos, muitos já não têm, era necessário dar um murro na mesa para ver se o Governo e os outros atores políticos percebiam que mais do que a chicana partidária importa acautelar o futuro dos portugueses.
Não vou discutir as culpas de cada um, embora seja notório que o Governo se esqueceu da importância do PS e este se entreteve e digerir as dissensões internas e a ver a melhor forma de ganhar as próximas autárquicas, europeias e legislativas.
Perante a dissolução do Governo e da credibilidade do primeiro ministro às mãos de Portas e de Gaspar, o Presidente fez o que se impunha, tomou uma decisão - manteve o Governo em funções, não aceitou a remodelação que lhe fora proposta e que tornava o CDS patrão do Governo e responsabilizou os três partidos, que assinaram o Memorando, pela resolução da crise política e pela manutenção da estabilidade até ao final do período de assistência financeira quando, previsivelmente, se realizarão eleições antecipadas. 
A cartada é arriscada mas é isso que se espera dos líderes, capacidade de antever o futuro e de apontar caminhos. Cada um é livre de pensar o que entender, eu acredito que este é um caminho, estreito e perigoso, mas melhor do que fazer eleições agora. Provavelmente, se olharmos para a realidade apenas com olhos político-partidários somos obrigados a concordar que as eleições eram a solução, mas se nos lembrarmos de que, para além das nossas posições estritamente políticas, há uma nação agonizante e milhões de pessoas que esperam dos políticos a solução dos seus dramas pessoais e sociais, então será necessário reconhecer que só um amplo consenso nos poderá tirar do atoleiro em que todos nós nos deixámos enterrar, com particulares responsabilidades dos que agora também têm de nos ajudar a sair.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Dia da indignação e da esperança

Os últimos desenvolvimentos na sequência do acórdão do Tribunal Constitucional vieram demonstrar à saciedade aquilo que já todos sabíamos, o país não tem uma liderança política à altura, o governo não tem soluções nem capacidade para mobilizar os portugueses, o presidente da república age como se a política fosse apenas feita de formalismos e da suficiência de maiorias na Assembleia da República e o líder do PS, entalado entre o desgoverno e a pressão diária para afirmar a sua autoridade interna, ou anda a fazer bluff ou deixou-se mesmo encantar pela ideia das eleições antecipadas.
O país vive uma situação de emergência nacional, a pressão dos credores, a economia em desaceleração, os pensionistas assustados com a erosão crescente das reformas, o desemprego a alastrar como uma  fatídica e descontrolada epidemia, os jovens a emigrarem e sem perspetivas de futuro no país onde nasceram, os funcionários públicos a toda a hora ofendidos e humilhados como se fossem os causadores de todas as desgraças nacionais, quem tem emprego a viver no pavor de o perder, e quem já perdeu emprego, casa e não tem meios para prover ao sustento dos seus, no desespero.
É neste cenário que alguém fala em devolver a voz ao povo e fazer eleições? Devolver que voz? A da indignação ou a da esperança? Para isto não são precisas eleições, basta, por exemplo, que se aproveite o aniversário da revolução de 25 de abril de 1974 para o transformar num dia de indignação mas também de esperança.
Nem são precisas manifestações nem marchas de logística complicada, basta que em cada povoado, vila  e cidade os cidadãos que se sentem humilhados, desrespeitados e ofendidos com a situação do país e com os responsáveis políticos se juntem no centro cívico das respetivas terras ao meio dia e, apenas com a sua presença, manifestem a sua indignação face ao estado a que o país chegou e à receita de mais e mais austeridade, mais e mais exigências dos credores, quais agiotas dos tempos modernos, e a sua exigência de que as forças políticas encontrem os consensos necessários para estancar a hemorragia e devolver a esperança aos portugueses.
Como sinal de que a esperança não morreu e de que todos acreditam num Portugal renovado, cada um pode levar um lenço branco como símbolo de renascimento, paz e prosperidade. Os tempos são de resistência, combate e crença num futuro melhor e os atores principais deste processos são os cidadãos, os que são o sangue e a força das nações.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Relatório sobre o Ensino Superior Português elaborado pela European University Association (EUA

Relatório sobre o Ensino Superior Português elaborado pela European University Association (EUA) a pedido do CRUP.

Vale a pena ler, o futuro passa por aqui, não necessariamento como se propõe, mas convém conhecer, discutir e tomar posição. Mais um desafio para os politécnicos que são uma presa apetecível para as universidades. Em tempos de escassez de alunos, quantos menos tiverem os politécnicos mais podem ter as universidades. E é preciso contrariar a ideia de que os politécnicos são bons para cursos menos qualificados. Também nesta matéria o Governo anda às arrecuas. É tempo de olhar para o futuro, não para as pequenas guerras de capelinha. A reestruturação da rede do ensino superior exige um debate nacional, não pode ser deixada apenas aos sócios do costume.


http://www.crup.pt/images/CRUP_final.pdf




terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Short Cycle Higher Education (SCHE)

O Governo anunciou hoje a criação de um ciclo curto de ensino superior a ser leccionado exclusivamente nos politécnicos. É o alinhamento  do sistema português com a maioria dos outros países euopeus onde essa realidade já existe com a designação que dá título a este post.
Mas registem-se três comentários.
Primiero, lança-se um programa sem ter negociado com os seus próximos responsáveis formativos anunciados - os politécnicos. Estilos de governança à boa maneira do faroeste, primeiro dispara-se e depois logo se vê.
Segundo, não se ficou a perceber que papel está destinado aos CET.
Terceiro, não se ficou a saber como vai ser o acesso, sabendo-se que o Governo alterou há pouco tempo o regime de acesso ao ensino superior para os alunos oriundos do ensino profissional, tornando o processo quase insuperável para a maioria.
Moral de história, o Governo não acerta uma em termos de comunicação, para não dizer apenas que não acerta mesmo...em nada.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Mataram o Sr. Correia

Não conhecia o Sr. Correia, mas associo-me à homenagem que os colegas lhe prestam na Carta Aberta, que transcrevo. Aliás, este episódio dramático levanta, mais uma vez, a questão candente de saber se há apenas uma Escola para Todos ou se não será necessário também uma Escola Especial para alguns.

CARTA ABERTA

            Morreu um de nós: um daqueles que zelava pela segurança de todos (alunos, funcionários e professores); O nosso elo mais forte, em pleno exercício das suas funções.
            Para evitar que um aluno maltratasse um colega fazendo perigar a sua vida, durante a aula, mesmo perante a pronta ação do professor e de um funcionário, foi pedida a intervenção dos vigilantes da escola, para que fosse conduzido à Direção Executiva para que esta acionasse os técnicos da Escola Segura.
            Desde o início do comportamento, de extrema violência, materiais foram destruídos, funcionários e docentes ameaçados de morte verbalmente e agredidos fisicamente.
            O esforço dos vigilantes em controlar tais atitudes foi imenso mas não conseguiram evitar a destruição descontrolada de mesas, quadros, armários, cadeiras e os atos de ataque físico.
Já na Direção Executiva, e perante o continuado comportamento violento, o vigilante Correia manietando o aluno, manteve-se como pilar determinante na segurança física de outros elementos da comunidade educativa, que tentavam também intervir. Mais de dez pessoas tentaram, sem sucesso, conter o aluno!
Assim, perante uma violência física e emocional tão demorada e brutal o vigilante Correia colapsou.
            De imediato foi assistido por professores e funcionários que lhe fizeram as manobras de reanimação (respiração boca a boca e massagem cardíaca) até à chegada do INEM, que prestou toda a assistência possível que, no entanto, se mostrou ineficaz para salvar o Sr. Correia.
            Estamos profundamente abalados e consternados com o falecimento do colega em pleno exercício das suas funções, num local, por excelência, educativo, onde uma morte nesta situação é inaceitável.
            Estamos de luto, estamos perante algo que não conseguimos aceitar e, por isso, não sentimos capacidade de gerir emocionalmente uma situação tão dramática; estamos na escola sem darmos aulas, incapazes de pedagogicamente abordar o assunto junto dos restantes alunos.
Todos os que se encontravam na escola ficaram em choque. Como pode isto ter acontecido numa escola? Que ambiente se vive? Que aprendizagens se fazem quando há quem possa frequentá-la enchendo-a de ameaças e de violência?
O contexto escolar do Agrupamento está pormenorizadamente descrito no Projeto Educativo. Todos os profissionais que nele trabalham estão conscientes do universo em que se movem e procuram por todos os meios ajudar a orientar crianças e jovens de um meio problemático, com fragilidades várias, com comportamentos difíceis de gerir. Temos uma equipa técnica preparada e muito ativa, no âmbito dos recursos TEIP. Lidamos com os problemas que vão surgindo e conseguimos muitos resultados positivos.
No entanto, há sempre um pequeno número de alunos, bem identificados na escola, que ultrapassam todos os limites do aceitável numa comunidade escolar, pois põem em risco os seus membros, a nível físico e psicológico, de forma sistemática: não aceitam a autoridade de ninguém, pelo que não cumprem as regras da escola, nem as mais básicas de convivência; ameaçam; aterrorizam; agridem.
Em relação a estes alunos já tudo foi feito, desde as estratégias aplicadas pelos professores e pelos diretores de turma para motivar o aluno para a aprendizagem e para a socialização, passando pelas medidas previstas no Estatuto do Aluno, completamente ineficazes para estes casos. Tiveram a intervenção do SPO, GAAF, ADEIMA, CPCJ, Tribunal de Menores. Aos diretores de turma são pedidos relatórios, pareceres, esclarecimentos de todos estes organismos. Enquanto isto acontece e durante anos, a situação destes alunos na escola mantém-se inalterada, até os jovens saírem da escolaridade obrigatória ou terminarem o ciclo de estudos. Isto é, embora várias instituições estejam envolvidas, a escola tem de manter os alunos ou transferi-los para outras escolas, deslocando o problema, não resolvido, para os outros. Estes continuam assim a ameaçar e a agredir colegas, funcionários e professores, continuam a impedir os colegas das turmas em que estão inseridos de poder ter um ensino de qualidade, minando as aulas. Têm e criam um sentimento de poder ter impunidade e de ausência de limites, que é o oposto do que lhes deveria ser ensinado.
A escola regular não pode dar a estes alunos a resposta de que eles precisam. A tutela não está a cumprir o seu papel, que inclui o de resolver a situação destes alunos e o de proteger o direito à educação e à integridade física e psicológica de todos os outros e de quem trabalha nas escolas.
          Por estes motivos, dirigimo-nos à Tutela, exigindo que, com a maior urgência, se debruce sobre este problema e o resolva eficazmente, criando acompanhamento adequado às crianças e jovens com comportamentos disruptivos, que põem em riscos elementos da comunidade escolar em que se inserem. Este acompanhamento terá de implicar o afastamento destes jovens das escolas regulares e a sua integração em ambientes controlados, específicos e preparados para este tipo de perfil psicológico.
            Morreu o Sr. Correia, dizemos. Já tinha problemas de saúde, dirão. Nos olhos uns dos outros lemos «Mataram o Sr. Correia».

Matosinhos e EB 2, 3 Professor Óscar Lopes, 31 de janeiro de 2013

Assinatura de docentes e não docentes

domingo, 17 de fevereiro de 2013

O ensino privado nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX. O contributo das escolas católicas

O título deste post é pedido de empréstimo a uma obra de Jorge Cotovio, atual diretor pedagógico do Colégio Conciliar de Maria Imaculada, em Leiria, que tive o prazer de apresentar no passado dia 15, em Leiria, numa cerimónia presidida pelo  Bispo D. António Marcelino e em que também intervieram, para além do autor, a deputada à Assembleia da República Odete João, o deputado europeu Paulo Rangel e o Dr. Virgílio Mota, da Associação Portuguesa de Escola Católicas.

Permitam que inicie esta apresentação de forma pouco convencional, primeiro desafiando-vos a identificarem o tempo e os atores de um diálogo que vem citado na obra e, como complemento, com uma homenagem duplamente justificada e que, estou certo, partilharão comigo.


Eis o diálogo:

“Senhor Ministro, nós estamos aqui como náufragos ainda com a cabeça de fora e não queremos afundar-nos”. Ele respondeu: “mas eu não quis matar ninguém”. “Então puxei pelos meus papéis e disse: ”Sr. Ministro já matou”. Sei que eram cinquenta escolas de um nível e vinte e tal do outro, que já tinham encerrado no ano anterior. Ele ficou a olhar para mim e entreguei-lhe a listagem com o nome das escolas. E continuei: “Foram estas que o senhor matou e agora quer matar a nossa escola…” (p. 245)

Não, não se trata do Ministro Crato ou das suas antecessoras próximas nem de um diretor de agrupamento em vias de agregação, esta cena atualíssima ocorreu em 1972, em pleno período de expansão da rede escolar estatal nacional, na época em que a expressão “democratização do ensino” entrava no léxico do país, e nela são atores principais os padres Luciano Guerra e Joaquim Ventura e o então Ministro Veiga Simão.

No essencial, subjacente a este diálogo está o drama, permitam-me este termo mais forte, do desaparecimento de escolas católicas perante a vaga reformista, expansionista e democratizadora que o Estado Novo marcelista, pela iniciativa direta do último Ministro da Educação do regime, levou à prática.

Como tudo nas sociedades, só o passar do tempo nos permite uma visão mais apurada e fundamentada dos factos e das suas consequências e só o tempo longo, bem conhecido dos historiadores, permite compreender as contradições de cada momento e encontrar explicações para factos aparentemente ininteligíveis no momento em que ocorreram.

Tomo este episódio simbólico como marca de água da tese de Jorge Cotovio, verdadeira obra monumental, pelo tema, pelo período que abarca, pela riqueza do corpus científico estudado, pela forma simultaneamente comprometida e distanciada como o autor recolhe informação sobre factos, entrevista personalidades diversas, escrutina periódicos, atas, enfim, tudo o que possa constituir prova documental e trata todo este manancial com um rigor científico e contextual absolutamente notável.

Mas Jorge Cotovio vai mais longe, consegue fazer desta obra um verdadeiro fresco literário, utilizando uma linguagem simples mas, ao mesmo tempo, rica se significados, de cambiantes linguísticos e estruturada numa sintaxe sem mácula, tornando num exercício bem agradável a leitura de mais de mil páginas.

Não se intimidem, por isso, os mais timoratos com o volume da obra, tanto mais que não estamos perante um romance policial em que devoramos páginas a galope para chegar rápido ao conhecimento do criminoso, aqui não há bons de um lado e maus do outro, há uma narrativa para ser lida com o vagar de quem degusta uma iguaria, sopesando factos, referências, citações, curiosidades, com um objetivo muito nobre - conhecer para compreender.

Ler e refletir, voltar atrás e reler, repensar, contrastar ideias e factos, olhar com novos olhos pela objetiva que o autor nos fornece, com as chaves interpretativas que nos sugere, com a sua fé de católico, mas com o distanciamento de um historiador que é engenheiro mecânico. Nunca tinha pensado na afinidade entre a História e a Mecânica mas creio que no fundo trata tudo de engrenagens, nuns casos metálicas, no outro sociais e Jorge Cotovio mostra ser um exímio desconstrutor destas pondo a nu o seu funcionamento.

Com veem não é fácil manter a disciplina da escrita quando o objeto de análise nos seduz e nos enlaça, deixei-me embalar pelo diálogo entre dois padres e um ministro, com Jorge Cotovio pelo meio, e pus-me a falar da obra quando vos tinha anunciado uma homenagem. Peço que me relevem a falta, ainda que vos tenha de confessar não estar nada arrependido, pois o prazer que me deu ler o texto leva-me a que vos fale em torrente, mais com a emoção do que com a regra, mais com o coração do que com a convenção.

Retomemos o caminho inicial e celebremos o estarmos hoje aqui no Colégio Conciliar de Maria Imaculada, vulgo Colégio da Cruz da Areia, onde em “5 de fevereiro de 1972 é realizada a primeira reunião alargada a outras escolas católicas e também a escolas não confessionais”, (p. 243) convocada por iniciativa dos padres Joaquim Ventura (Colégio de S. Miguel, Fátima), Luciano Guerra (Externato Afonso Lopes Vieira, Marinha Grande) e Franklim Cunha (Externato Técnico-Liceal da beira Mar, Vieira de Leiria), e que constitui um marco no movimento associativo das escolas particulares, com destaque para as de matriz católica, então dominantes no panorama do ensino não estatal.

Esta “primeira reunião aberta” constituiu à época o toque a rebate que juntou personalidades e energias num combate frontal contra a perspetiva estatizante da democratização do ensino, e do esmagamento das escolas particulares, com relevo para as de orientação católica, que ainda hoje perdura, e é tanto mais notável quando estamos a falar de um tempo em que as liberdades básicas estavam arredadas da vida dos portugueses e o associativismo livre era visto como potencialmente perigoso e contrário aos superiores interesses da Nação.

Como singela homenagem a estes pioneiros e em reconhecimento do simbolismo de nos encontrarmos no mesmo espaço tantos anos depois, de alguma forma dando continuidade aos ideais de liberdade de ensino e de afirmação de uma cidadania plena ante um Estado demasiadas vezes arrogante, por vezes opressivo, sempre centralista e pouco respeitador da diferença, convido-vos a que celebremos com uma convicta salva de palmas.



No prefácio, escrito por um dos maiores pedagogos que conheço pessoalmente – Manuel Ferreira Patrício – meu professor de Psicologia no 6.º ano do Liceu e amigo, desde então, que muito mais tarde foi reitor da Universidade de Évora, homem que marcou gerações de alunos e depois de professores, que por sinal fez parte dos seus estudos num seminário, afirma que “É uma realidade complexa, a Educação” (p. 5). Tão complexa, digo eu, que todos se arrogam o direito de falar sobre ela, um pouco como no futebol onde abundam os chamados treinadores de bancada e escasseiam os mourinhos.

Este fenómeno tem-se acentuado e basta ouvir as conversas que passam por nós, para se perceber quanto os profissionais da educação são desconsiderados, desrespeitados, desautorizados, por muitos que tendo direito à opinião se deviam conformar aos limites da prudência e respeitar o saber e a experiência de quem faz da docência a vocação de uma vida.

Esta obra de Jorge Cotovio é um importante contributo também nesta perspetiva, pela forma abrangente como trata a temática, pela riqueza interpretativa com que a analisa, pela profundidade que alcança, demonstrando de forma simples mas marcante que a Educação é um campo de enorme complexidade, pelos contexto em que se desenvolve, pelos diferentes atores envolvidos, pelos interesses em confronto, pelas questões técnicas subjacentes, enfim, porque a Educação trata do que é mais sensível nas comunidades humanas – a formação para a cidadania.

A obra em apreço corresponde à dissertação de doutoramento do autor em Ciências da Educação, na especialidade de História da Educação, e a primeira linha da introdução esclarece o objetivo que norteou a sua realização: “ A história da educação contemporânea em Portugal não está suficientemente estudada e esclarecida” (p. 25).

Com meridiana clareza fica o leitor informado sobre a meta que se deseja alcançar – estudar e esclarecer – e mais à frente afina-se a objetiva apontando para uma realidade marcante ligada ao período da “expansão escolar e da democratização do ensino”, situando-se o escopo da investigação nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado. Para além do evidente, o autor pesquisa o substrato, expansão escolar, sim, democratização do ensino, sim, mas como e a que preço?

Todas as grandes reformas têm os seus heróis e as suas vítimas, os seus pontos áureos e as suas nódoas, e existem sempre contradições insanáveis resolvidas pelo pulso do mais forte. O período estudado é o do embate entre as escolas católicas, que ao longo dos séculos asseguraram educação quando o Estado o não fazia, ou o fazia de forma insuficiente, e o Estado todo-poderoso que, como um verdadeiro rolo compressor, esmagou na onda da educação para todos, escolas privadas católicas e outras, que perderam capacidade de competir por falta de recursos e de apoios e, sobretudo, porque então como hoje existe um preconceito evidente na sociedade portuguesa contra o ensino privado ou, se quiserem, contra o princípio de que o direito universal à educação se pode concretizar através da complementaridade entre agentes diversos e não apenas por via da estatização das escolas.

A atualidade da temática não podia ser mais evidente quando continuam a ecoar por todos os cantos do país as hossanas à “Escola Pública”, querendo significar escola estatal, e os ataques ao ensino privado, num tempo em que as relações internacionais e a globalização tornam evidente que a escola para todos e a democratização do ensino se podem alcançar de formas diversificadas, que não existe nenhuma razão para apostar apenas em escolas estatais e que aos cidadãos e às famílias deve ser concedida liberdade de escolha, salvaguardando-se a qualidade do ensino e a rentabilização dos recursos públicos.

Este é o cerne desta obra de Jorge Cotovio que põe em confronto a estatização e a liberdade da educação, a luta das escolas católicas para não se deixarem abater perante a reforma de Veiga Simão, interpelando factos, fontes e atores de todos os campos, fazendo um exercício de história da educação que conduz, inevitavelmente, a uma posição de defesa da liberdade de aprender e de ensinar.

Como ele próprio afirma, a obra desdobra-se em três níveis; no primeiro, analisam-se os tipos de relação existentes entre a religião e a educação; no segundo, incide-se sobre o processo da expansão escolar/democratização do ensino, onde se agiganta a figura de Veiga Simão e posteriormente os efeitos da Revolução de 74, e da forte orientação estatizante imprimida ao processo de “educação para todos”; no terceiro, escrutina-se a posição da Escola Católica no contexto da dinâmica expansionista da oferta educativa procurando clarificar se o seu papel foi o de agente ativo ou reativo no processo de massificação do ensino.

Este é o enquadramento geral da obra; passemos agora a uma análise capitular mais específica.


O capítulo 1 aborda a temática “Uma perspetiva de base: Religião e Educação”(p. 39) e, como fica, desde logo, evidente procuram-se os nexos que ligam a dimensão religiosa da vida à dimensão religiosa da educação e estas à dimensão educativa da Igreja. Neste âmbito, explora-se o conceito de escola católica, as “que estatutariamente comungam da missão da Igreja”, caracteriza-se a sua missão e explora-se uma nova categoria, a “Escola de matriz cristã”, que abarca as “escolas privadas com acentuada inspiração religiosa, que na prática procuram educar os alunos em todas as dimensões, mormente na espiritual, segundo os cânones da Igreja Católica” (p. 83).

Em síntese, “Se a missão da Igreja é “evangelizar”, a escola foi transformada em “espaço de evangelização”. A Escola Católica, configurada com a Igreja, é assim colocada ao nível de outros areópagos eclesiais privilegiados. (…) Ela é, antes de mais, uma “escola”, mas o qualificativo “católica” acrescenta-lhe a dimensão ascendente dando-lhe uma consistência e abertura que a deve demarcar das demais. Ao lado dela, inspirada na mesma fonte pulula a escola de matriz cristã, marcada no quotidiano por sinais e atitudes que conformam o aluno ao paradigma do cristão” (p. 90).

O capítulo 2 trata “O debate em torno da expansão escolar/”democratização do ensino”, especialmente no contexto do ensino privado”, fazendo-se desde logo a clarificação das duas expressões chave para entender a matéria em causa. A expansão refere-se ao crescimento da rede, a democratização é o “ensino para todos”. A primeira consubstancia-se na realidade física, a segunda ao princípio de criar as condições indispensáveis para assegurar a todos condições idêntica de acesso à educação (p. 93).

Veiga Simão merece uma atenção particular ou não tivesse sido ele o primeiro a usar “amplamente, o termo “democratização do ensino” em público e em documentos oficiais” (p.100).

Neste capítulo faz-se a recensão das políticas educativas do Estado Novo e do período de normalização democrática que se segue à revolução de 1974, com particular incidência nas questões do ensino particular e cooperativo, respetivos estatutos e dinâmicas divergentes estatal versus privados, e é dada atenção especial à perspetiva da Igreja Católica.

De forma sumária, pode dizer-se que toda a pesquisa e tratamento de dados carreados para este capítulo convergem no sentido de demonstrar que “A defesa da liberdade de ensino, entendida como liberdade de escolha, está bem patente no discurso oficial da Igreja (…) Mas também está associada à liberdade de educação e ao pluralismo escolar, ou seja, à “coexistência e, se for possível, cooperação entre as diversas instituições escolares, que permitam aos jovens formar critérios de avaliação fundados numa conceção específica do mundo, prepararem-se para participar ativamente na construção de uma comunidade e, por meio dela, na construção da sociedade”(SCEC, 1977:13) (p.391).

Do debate permanente havido ao longo deste extenso período sobre a dicotomia público/privado, de que o autor abundantemente faz prova e ilustra com citações, emerge “(…) o protagonismo da Igreja na luta pela liberdade de ensino. E se até Veiga Simão as intervenções oficiais da Igreja portuguesa são ténues e discretas, a partir daqui – porque intensificada a concorrência das escolas estatais, e sobretudo com a revolução de abril de 1974 por estar em causa a própria sobrevivência do ensino particular – ganham uma dimensão e visibilidade progressivamente maiores” (p. 544).

Destaco o trabalho minucioso de pesquisa realizado pelo autor e a forma viva e rigorosa como trata a informação, permitindo ao leitor mergulhar nos factos e no tempo como se fosse espectador de uma série por ondem perpassam décadas de história e de acontecimentos, com particular relevo para os episódios relativos ao encerramento de escolas, às negociações com o poder, às posições dos dignitários da Igreja, aos movimentos populares, ressaltando sempre que a realidade não é unívoca e que importa ter em conta a multiplicidades de fatores e agentes em causa para compreender o fundo das questões.

Por razões evidentes, não posso fazer mais do que convidar-vos a mergulharem na leitura e fruírem a possibilidade de acompanharem a par e passo o desfiar dos acontecimentos, as personalidades, os casos que fizeram manchetes de jornais e se tornaram emblemáticos de uma época, de que refiro, por exemplo, a nacionalização do Externato de Proença-a-Nova e as reações que provocou, com as forças da Igreja a um lado e o “Poder Popular” (expressão minha) do outro.

A fechar o capítulo algumas reflexões decisivas para compreender todo o período, de que destaco:

Veiga Simão surge como a personalidade mais marcante embora seja uma figura polémica para o ensino particular “porque pretensamente associado a correntes ideológicas contrárias à liberdade de ensino, ou simplesmente porque defende a escola pública” embora em muitas situações tenha dado mostras de “querer dignificar e potenciar o ensino não estatal, conferindo-lhe outro estatuto e procurando reconfigurá-lo no contexto de uma reforma que não se coaduna com modelos caducos e pouco funcionais” (p. 566).

“Embora as três décadas em estudo sejam atravessadas por dois regimes políticos bem diferentes (…) o ensino privado, da parte do estado, terá um tratamento muito semelhante em muitos aspetos: um quadro legislativo (minimamente) aceitável, que o tolera, mas uma praxis pouco consonante; uma relação de subalternidade que se traduz no estigma da supletividade” (p. 565).

“A liberdade de ensino é a bandeira que une as escolas privadas e luta-se pelo direito de os pais escolherem a escola que entenderem mais adequada para os seus filhos” (p. 566).

 

No 3.º capítulo analisa-se “A Escola católica no contexto da educação nacional e da expansão do ensino” e não erro se afirmar que deve constituir a melhor síntese já elaborada sobre esta matéria, tão importante para a história da educação nacional e tão relevante para a compreensão do papel da Igreja e das escolas de matriz cristã no quadro da oferta educativa do país.

De forma meridiana o autor sinaliza, desde logo, a missão educativa da Igreja. “A Igreja contempla na sua missão evangelizadora o ato de educar. O ensino e a evangelização correm pois juntos, como resposta à ordem do seu Mestre: ”Ide e ensinai” (p. 569).

Debruça-se, depois, sobre as “razões históricas do impacto da Escola Católica no contexto da sociedade portuguesa”, invoca o passado, perscruta o período do Estado Novo, fala de Salazar “Homem de fé” (p. 572) e da sua amizade com o cardeal Cerejeira, compõe o quadro do período e acaba a qualificar a ligação “Estado – Igreja como uma relação titubeante”. Passa também em revista o “peso da Igreja no período democrático” mas reconhece que a revolução “vem fraturar a hegemonia da religião católica na sociedade portuguesa” (p. 596).

De seguida, passa à abordagem mais pormenorizada do “Protagonismos das escolas católicas” (p. 599), em grande parte justificado por razões de qualidade do ensino ministrado, as reações ao que apelida de “efeitos colaterais do processo de democratização do ensino” (p. 637) e onde avulta todo o processo ligado ao associativismo e à criação da AEEP, tratado com abundância de elementos, e o percurso assente na defesa da liberdade de ensino e da qualidade do serviço prestado que culmina com o o 6.º estatuto do Ensino Particular e Cooperativo e o reconhecimento de um quadro legislativo que o autor qualifica de “avançado” mas que, propositadamente coloca entre aspas e, se bem interpreto, significam que a lei é uma coisa e a realidade outra, como aliás temos visto nos últimos anos com as alterações profundas introduzidas no regime de financiamento, sem qualquer discussão ou consenso prévio.

Finalmente, um subcapítulo dedicado à ”Escola Católica; promotora, impulsionadora ou oponente da massificação escolar (p. 811). Aqui se analisam aspetos como a territorialização da distribuição geográfica das escolas, as motivações subjacentes à criação de escolas por parte da Igreja ou de grupos a ela vinculados, a aparente contradição entre a “ajuda aos pobres” e o elitismo amplamente reconhecido de algumas escolas e o papel positivo que a Igreja, em associação com todas as escolas do ensino privado, desempenhou na democratização do ensino num tempo que o autor designa de “Estado ausente” (p. 959) e que precedeu a massificação da reforma Veiga Simão.

Quanto às conclusões, deixo-as para vós, pois eu já vos apresentei as minhas ao sumariar o que mais me pareceu relevante para partilhar convosco e vos desafiar a tomarem como vossa a obra e fruírem-na da melhor forma possível, seja como leitura informativa ou recreativa, seja como instrumento de trabalho de valia indiscutível.



Apenas mais algumas parcas considerações sobre os anexos. O primeiro apresenta um acervo estatístico da maior relevância sobre as escolas. O segundo compila documentação vária, cartas, atas, comunicados estatutos e outros. O terceiro disponibiliza as entrevistas realizadas a cerca de trinta personalidades. Para além do texto principal, estes anexos são fonte inesgotável de informação interessante e de reflexão produtiva.

Para concluir, resta-me agradecer a honra que me concedeu o autor ao ter-me convidado para apresentar uma obra tão importante e interpeladora, agradecer também a vossa atenção, que espero tenha sido a prova de que não vos desiludi e, como professor que sou, sempre sujeito a avaliação, peço que sejam rigorosos na nota a atribuir-me, sem deixarem de ser magnânimos face à tarefa que me coube e, finalmente, deixar o meu reconhecimento e apreço pelo Doutor Jorge Cotovio, pela obra que aqui se celebra, pelo seu testemunho pessoal e profissional, pela sua militância eclesial, e pelo seu exemplo de cidadania na defesa da liberdade de ensino e da livre escolha das famílias.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Reformar o Estado. Mudar mentalidades


A reforma do Estado está na ordem do dia, a sua sustentabilidade atual e a prazo está posta em causa e é decisivo para o nosso futuro, dos cidadãos e do país, que se encontrem respostas fundamentadas e politicamente sustentadas.

A tarefa é complexa e, qualquer que seja a dimensão da reforma, será irrealista pensar que se pode reformar o Estado sem mexer na Constituição. Poder-se-á reformar a administração do Estado, torná-la mais eficiente e eficaz, menos burocrática, mais amiga dos cidadãos, mas reformar o Estado, no sentido de repensar as suas atuais atribuições e decidir quanto é justo ou aceitável pagar de impostos pelos serviços que o Estado presta, obrigará a mexer na Lei Fundamental e, sobretudo, implicará mudar os pressupostos ideológicos que justificam a atual organização do Estado e as funções que lhe estão atribuídas.

Reformar o Estado é, antes de mais, mudar mentalidades e sabe-se como isto é o mais difícil em qualquer sociedade, mesmo em qualquer organização. O desafio que o país tem pela frente é resolver um problema de tesouraria e de solvabilidade da dívida pública a curto, médio e longo prazo no quadro de uma organização política e administrativa que não pode ser mudada de um dia para o outro, sob pena de forte conturbação política e social, e de incapacidade para continuar a assegurar a satisfação de funções para as quais a própria sociedade portuguesa não consegue gerar os fundos necessários.

No quadro da União Europeia em que estamos integrados, somos hoje uma espécie de protetorado e não vale a pena alimentar frustrações a este respeito, o mundo globalizado em que vivemos exige escala e nós não a temos, a revolução de 74 e a adesão ao grande espaço europeu tornou o país completamente diferente do Portugal rural, conservador e fechado sobre si próprio que nos caracterizou até aos anos 70 do século passado e isto é muito positivo.

Iludidos com os direitos das conquistas de Abril e dos fundos europeus, acreditámos que a espiral de progresso seria interminável e que o crédito fácil e barato alimentaria todos os nossos devaneios consumistas tendo progressivamente abandonado as preocupações de poupança e parcimónia nos gastos, substituindo-as pela ilusão dos cartões de crédito que a tudo davam acesso, dos gastos imoderados em todos os setores, da construção sem lei, da espiral de despesa pública, até que um dia fomos obrigados a perceber que somos pobres e vivíamos ou pretendíamos viver como ricos. Infelizmente, a situação não é nova, este é um filme há séculos visto por estas paragens.

E agora, José? Como diria o Cardoso Pires. E agora, país? Como clamamos todos, sem nos ouvirmos uns aos outros, atirando para cima de terceiros as nossas próprias culpas. É aqui que nasce a ideia de reformar o Estado, que sendo uma ideia estimulante para discussão, não parece ser suficientemente para nos resolver os problemas imediatos que temos pela frente.

A situação do país exige uma moratória na disputa política e a gravidade do que está em causa não se compagina com a habitual alternância partidária, é necessário e urgente que todos nos sentemos à mesma mesa, forças políticas, Governo e oposição, empresários e sindicatos, cidadãos e cidadãs de todos os quadrantes e olhemos para a realidade com a objetividade que os números e a situação real do país impõem.

Então e a Reforma do Estado? Far-se-á, claro, no tempo próprio e quando estiverem criadas as condições necessárias, controlada a dívida, mudadas as mentalidades, alterada a constituição.

Publicado em Jornal de Leiria, 12-11-15






quinta-feira, 10 de maio de 2012

A gestão local do sistema escolar. O equívoco dos mega agrupamentos


A discussão da reorganização da rede escolar e as determinações do Ministério da Educação e Ciência para que sejam constituídas novas agregações de estabelecimentos de ensino, popularmente designadas como mega agrupamentos, tem trazido ao debate público mais poeira do que factos e a politização do problema enviesa a análise e impede o esclarecimento.

Há muito tempo que me interesso por este assunto, tenho estudado e escrito sobre a matéria e fui responsável, enquanto Diretor Regional de Educação do Centro, pela constituição de algumas unidades de gestão escolar de âmbito concelhio.

A administração do sistema escolar tem vindo a evoluir para unidades de gestão mais concentradas, ao invés do que era tradição em Portugal, tendo a constituição de agrupamentos de escolas, ocorrida na viragem do século, sido uma das mais importantes reformas da gestão escolar das últimas décadas.

Atualmente mais de cinquenta por cento dos concelhos portugueses têm apenas um agrupamento de escolas, que abarca todos os estabelecimentos de ensino do respetivo município, e o decreto-lei que regulamenta a gestão escolar do básico e secundário, publicado em 2008, já previa a possibilidade dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas poderem associar-se constituindo unidades de maior dimensão.

Este movimento é inspirado nas práticas correntes de gestão das organizações em geral e visa dotar o sistema escolar de unidades com dimensões mais adequadas a um funcionamento em que as economias de escala e as sinergias resultantes de uma liderança mais clara, de uma gestão mais abrangente e de uma dinâmica mais orientada para objetivos e prestação de contas, respondam à necessidade de rentabilização dos investimentos no ensino.

A primeira questão que se pode colocar é acerca de qual seja a dimensão ideal de uma escola ou agrupamento e a resposta só pode ser que depende de um conjunto diverso de circunstâncias, embora esteja amplamente comprovado que não existe qualquer relação entre dimensão das escolas e qualidade de ensino. O mesmo se verifica com as turmas onde se sabe que não é por haver poucos alunos que estes têm melhor aproveitamento.

Então será desejável perceber como se deverá lidar com a questão da dimensão, fator que tem merecido honras no debate atual, com muitos a considerarem que está em causa a qualidade do ensino e as condições de aprendizagem, com novas agregações que elevem o número de alunos por unidade de gestão.

A dimensão é um fator crítico em qualquer organização e para a analisar é necessário entrar em linha de conta com elementos diversos e não apenas com a população. Se os argumentos da dimensão excessiva, invocados para chumbar os mega agrupamentos fossem válidos, a maior parte das organizações não funcionavam e as instituições educativas do ensino superior e grupos de escolas particulares não existiam.

No entanto, o que está em causa não é a dimensão mas sim a articulação e a coordenação. No concelho de Leiria existem nove agrupamentos e três escolas secundárias estatais, sem qualquer coordenação formal ou articulação institucional a nível local. Este é que é o busílis da questão e a reforma necessária não é criar mais agrupamentos, é rentabilizar a estrutura existente, criando uma gestão comum mas mantendo as unidades atuais, com a sua geometria territorial, a sua ligação às comunidades onde estão implantadas, a sua dimensão e os seus órgãos de direção.

A gestão do sistema escolar tem vindo a evoluir no sentido de uma territorialização de base municipal, acompanhada de um maior protagonismo das câmaras municipais e de uma oferta educativa mais relevante do ponto de vista dos públicos locais, pelo que é o momento para, nos concelhos de maior dimensão, dar um salto qualitativo na organização local do sistema escolar, promovendo a gestão comum dos vários agrupamentos e escolas não agrupadas, bastando para tanto a criação de um órgão de topo a que todas as unidades existentes passem a reportar e algumas alterações cirúrgicas na organização atual.

As vantagens desta solução são evidentes em termos de economias de escala, de liderança, de potencial ao nível da melhoria da qualidade, de transparência e de prestação de contas. Do ponto de vista pedagógico e das aprendizagens os impactos só podem ser positivos por resultantes de uma gestão mais racional e eficiente. Politicamente é uma medida que não levanta dificuldades, nem suscita paixões, ao contrário do que o Governo quer implementar.



José Manuel Silva

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Viragem à esquerda

A vitória de François Holland é uma lufada de ar fresco numa Europa depauperada pela crise, pelo desemprego, pela descrença e pela falta de alternativas políticas ao modelo monetarista, que faz do equilibrio das contas públicas e do desprezo pelas pessoas o eixo de uma ação condenada ao fracasso.
Sabe-se que entre as promessas e a sua concretização vai um longo e doloroso caminho e que muitas das medidas nunca passarão do mero enunciado. No entanto, o que é interessante em Holland, o candidato que parecia não ter carisma para ser eleito, é que marcou a França e a Europa com a sua agenda para o crescimento e isso bastou para ganhar e para destronar Sarkozy, profundamente identificado com o beco em que ele e Merkel meteram a Europa.
O futuro não é linear, mas não será exagero afirmar que a França e a Europa acordaram hoje de um pesadelo com a certeza de que a esperança renasceu e novas soluções, para além da austeridade sem limites, são possíveis e vão concretizar-se. Vive la France!!!

domingo, 10 de julho de 2011

Os três macacos

Conhecem aqueles três macacos que por sí abundam em estatuetas de feira, um com as mãos na boca, outro nos olhos e outro nas orelhas, como quem diz não falo, não ouço nem vejo? Pois, mal comparado, fizeram-me lembrar os nossos ilustres presidentes de câmara reunidos ontem em Coimbra, sem ofensa para os símios, muito menos para os senhores presidentes.
Aliás, a espécie política presidente de câmara é uma das mais exóticas que existe em Portugal e digo isto sem nenhum azedume por já me ter candidatado e perdido. É uma realidade que todos conhecem e que como se diz em linguagem jurídica "dou aqui como integralmente reproduzidas" as razões de tal status.
Aliás, divertiu-me ver um dos dinossauros da classe invocar uma das maiores falácias do poder autárquico que serve sempre como flor na botoeira de um autarca que se preze mas que se sabe ser inteiramente falsa. Refiro-me à inverdade de que "um euro aplicado pela administração central valeria quatro se aplicado pela administração municipal". E tanto isto não corresponde à verdade que a situação de endividamente dos municípios é conhecida e em muito contribui para a falência das finanças públicas.
E para que se reuniram os senhores presidentes? Apenas e só para se queixarem, se não mesmo protestarem, contra as medidas de aperto financeiro que em sua opinião se não deveriam aplicar aos municípios e execrarem a possibilidade de alguns virem a ser extintos por escassa dimensão territorial ou populacional.
Resumindo, o país estás onde se sabe, todos apertam o cinto, as medidas restritivas foram acordadas pelos três principais partidos, mas os senhores presidentes querem um estatuto de excepção.
Nem o facto de um número significativo não se poder recandidatar, por em boa hora o anterior governo ter aprovado a limitação de mandatos, os faz recuar na politiquice do costume.
Honra seja feita aos presidentes que não embarcam neste populismo sem justificação mas o facto de a sua associação nacional ser a voz de uma orientação política sem suporte nem fundamento, prova como é longo o caminho da regeneração que o país tem pela frente.
E se dúvidas houvesse, bastaria ver o seu presidente a tirar da cartola a ideia da regionalização, defendendo que mais do que nunca ela é necessária, para percebermos como é inteligente a troika dos macaquinhos que se recusam a ver, ouvir e comentar palavras tão fora do ciclo de um país garrotado pelas dívidas e onde autarcas com a maior das responsabilidades apelam à multiplicação da classe política e de novos órgãos de governo regional com todo o cortejo de despesas que tal acarretaria.
Bem andou o Primeiro Ministro ao ignorar tais cantos de sereia e lhes respondeu com a voz firme de quem tem um país exangue para governar e contas para acertar.
O Poder Local foi uma das maiores conquistas da revolução de Abril e por isso mesmo se lhe exige maior rigor e responsabilidade na hora grave que o país atravessa.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O estranho mundo da Assembleia Municipal de Leiria

Ontem houve Assembleia e foi uma experiência diferente para mim. A reunião era continuação de uma ocorrida na semana passada a que estive ausente por me encontrar no estrangeiro. Como a de ontem era de continuidade não pude participar activamente. Acompanhei os trabalhos na bancada reservada ao público.
Que magnífica experiência, a mudança de papel faz-nos olhar para o que ali se passa de forma completamente diferente e, de repente, é como se nada daquilo fizesse sentido.
Se nos distanciamos dos ritos que ali imperam, uma espécie de missa política em que se digladiam os bons e os maus, os deuses e os demónios, consoante a cor que cada um ali veste e defende, tudo parece surreal e fora do mundo em que os que ali não têm assento vivem.
Porque razão A defende uma coisa e B o seu contrário, é inexplicável, até porque se a situação fosse diferente e a matemática dos votos outra, tudo seria ao contrário.
Se não vejamos, o PS defende a alienação do estádio e a concessões dos SMAS a privados. O PSD o inverso. Mas então não é o PSD que é "neoliberal", para usar um palavrão agora em moda? E não seriam os socialistas que deviam defender a manutenção destes activos no domínio público integral?
Mas nem tudo o que parece é. O PS tem responsabilidades de gestão na autarquia e está num beco sem saída quanto a verbas que não existem nem vão existir. Alienar e concessionar é a única forma de sair (parcialente) do sarilho. O PSD, pelo contrário, tenta defender a herança e é contra porque sim. Os outros partidos marcam o ponto e a mais não aspiram.
Mas mais confrangedor ainda é o ambiente de crispação, provocação e insulto (num caso ou outro) completamente injustificado e a mostrar que as melhores pessoas se podem transformar no que jamais avalisariam se não fosse o micro-clima político que ali se vive.
Igualmente confrangedor foi o nível do debate. Quando cheguei já tinha sido votada a alienação do estádio e sobre esse ponto não me pronuncio. Mas quanto à eventual concessão dos SMAS a argumentação do PSD não passou de uma encenação para cliente político ver. Nem um argumento substancial. Pouca informação, a água é um bem essencial, pouca informação, estudo mais aprofundado e disto se não saiu. E o mais caricato é que num momento em que o "seu" governo tem uma orientação claramente a favor da privatização de tudo o que possa e deva ser privatizado, o PSD local é contra, até as concessões.
Provavelmente este assunto não tem sido gerido politicamente da melhor maneira, é bom não esquecer que o ónus da negociação está do lado da maioria camarária e que é do seu próprio interesse negociar, negociar, negociar e procurar consensos. Mas o PSD empenha-se numa política de terra queimada que não leva a nada a não ser ao desgaste de todos.
Claro que só posso dizer isto porque em consequência de um preceito administrativo estive de fora. Caso contrário teria vestido a minha farda partidária e faria, muito provavelmente, a mesma figura dos outros.
Uma coisa tenho a certeza, é urgente alterar a forma de relacionamenteo político na Câmara e na Assembleia Municipal, a favor do munícipes e de uma gestão moderna e eficaz da autarquia.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sete Ideias para mudar a educação em Portugal

Agora que vamos iniciar um novo ciclo governativo é altura de contribuir com algumas ideias que ajudariam a mudar a educação em Portugal.
Redefinir as competências e a orgânica do Ministério da Educação
O ME devia ser reconfigurado para se ocupar apenas das funções de planeamento, desenho curricular nacional, supervisão e controlo do sistema educativo, deixando de lhe competir a gestão das escolas.
Uma nova gestão para o sistema escolar
Uma nova gestão do sistema através de unidades territoriais de nível municipal. Não significa entregar a gestão das escolas aos municípios, mas encontrar um modelo de gestão de base municipal que substitua a gestão burocrática e centralizadora atual por um modelo mais participativo, mais coordenado local e regionalmente, mais eficiente e que seja capaz de alcançar melhores resultados.
Mais autonomia para as escolas
Cada escola é única. Como pode ser governada como se fossem todas iguais? Autonomia significa capacidade de se organizar e de se gerir de forma própria, de poder formar as suas equipas, de possuir liberdade para gerir elementos do currículo de forma diversa.
Maior profissionalismo na gestão escolar
A gestão de uma escola tem muito de comum com a gestão de qualquer outra organização e tem as particularidades próprias do tipo de uma organização escolar. Um gestor escolar tem de ser uma espécie de diretor geral com conhecimentos da área administrativa e financeira e, simultaneamente, um líder pedagógico. Não sendo uma carreira autónoma, tem especificidades que não se confundem com a normal atividade de ser professor. No mínimo, tem de ser-se um professor-gestor.
Maior reconhecimento do papel dos professores
Sem professores competentes e motivados não pode haver boas escolas, bons alunos, bons resultados escolares. Os professores portugueses são tão bons quanto os melhores, mas falta-lhes o reconhecimento que merecem. Sem reconhecimento, sem autoridade, sem perspetivas, não há motivação. E sem motivação não há futuro.
Criar uma Agência Nacional de Avaliação
A avaliação das escolas e dos professores é um processo irreversível e indispensável. O modelo mais independente é o de uma agência nacional que se ocupe exclusivamente da avaliação, segundo critérios técnica e cientificamente sustentados e internacionalmente reconhecidos.
Redefinir as relações público-privado
Mais educação e melhor educação para Portugal, significa gerir melhor os dinheiros públicos. O financiamento não pode ser discriminatório. Quem fizer melhor deve ser compensado, quem não tiver alunos deve ser penalizado.
José Manuel Silva
jmsilva.leiria@gmail.com

domingo, 17 de abril de 2011

A confiança da D.ª Agripina

É uma daquelas mulheres portuguesas de uma geração à beira da extinção. Tem idade indefinida mas deve andar entre os setenta e os oitenta, corpo curtido pelos anos, pelos trabalhos e pelas agruras de uma vida que nunca deve ter sido fácil.
Cruzámo-nos por mero acaso quando parei para tomar um café numa beira de estrada perdida no interior. Numa tela já amarelecida pelos anos podia ler-se Café-bar, designação modernista de uma taberna bem portuguesa onde um balcão de pedra e o cheiro inconfundível a vinho armazenado não enganam quem ali entra sobre o principal ativo do negócio.
A D.ª Agripina estava ao balcão, solitária no atendimento dos clientes, mas acompanhada pelo ar grave do falecido marido cuja fotografia se impõe, de imediato, a quem cruza a porta daquele espaço de luz coada e de muitos odores que nos recordam um Portugal do passado. Cartazes de touradas, fotos de pegas de toiros e um grande emblema do Benfica, informam os clientes sobre quais os valores que por ali se cultivam.
Àquela hora só um cliente se perdia de volta de uma mini, a cervejinha mais vendida por aquelas bandas, e a patroa descansava encostada ao balcão como se a vida tivesse feito um intervalo e nada mais restasse do que a espera.
Engravatado e vestido quase de cerimónia, senti-me como um intruso a pedir café num templo onde habitualmente se oficia com licores variados. O café veio rápido e aconchegante e senti o prazer sereno que apenas se experimenta nos sítios que nos tocam.
Vamos a contas. Sessenta cêntimos. Puxo da carteira e nem uma moeda, só uma nota de dez euros. D.ª Agripina franze o sobrolho e diz-me que não tem troco. E ali fico eu, como um menino apanhado em falta, só com uma nota, com cartão de crédito e multibanco, que ali não servem para nada, e sem poder pagar a dívida. Perante o embaraço, D.ª Agripina pergunta, assim como não quer a coisa, “Atão vocemecê nã volta?”. Até planeara voltar pela autoestrada, mas logo decidi que o caminho de regresso seria o mesmo. “Atão paga depois e seu cá nã estiver paga ao mê filho”. Agradeci e zarpei a pensar nas lições que em qualquer sítio nos esperam.
Muitas horas e centenas de quilómetros depois voltei à tasca da D. Agripina. Lá estava o filho, ciente da minha dívida. Agora havia ali um verdadeiro arraial e as minis corriam às dezenas para afogar o calor dos corpos e do tempo. Paguei os sessenta cêntimos e soube que a D.ª Agripina ia ser a personagem central desta crónica. A confiança é um valor inestimável e é por falta dela que Portugal está de mão estendida.

sábado, 2 de abril de 2011

Portugal positivo

Costumo manter a minha vida profissional separada das minhas atividades cívico-políticas e de intervenção jornalística. Hoje vou abrir uma exceção e estou certo que compreenderão a razão.
O Instituto Politécnico de Leiria, a cujo quadro pertenço há mais de um quarto de século, organizou uma conferência destinada a debater aspetos relacionados com a investigação realizada pelos seus docentes. Para além das questões internas, foi amplamente debatida a importância da investigação realizada em estreita cooperação com empresas e o potencial de desenvolvimento que esta colaboração encerra.
No âmbito dos trabalhos da conferência, intervieram responsáveis de diversas empresas que mantém com o Instituto uma relação de cooperação estreita no campo da inovação e desenvolvimento. Apoiando-se no conhecimento e experiência dos docentes do IPL e na capacidade laboratorial instalada, estas empresas procuram nesta parceria vantagens competitivas e mais-valias que lhes permitam otimizar a sua atividade, tornarem-se mais competitivas e internacionalizarem-se.
A investigação ao serviço do desenvolvimento, assim se pode definir esta busca de sinergias entre uma instituição académica que possui massa crítica teórico-científica-laboratorial e empresas que necessitam inovar, desenvolver novas tecnologias, ensaiar novos produtos, explorar novos mercados.
Dos testemunhos dos empresários que têm mantido parcerias com o IPL ficou a imagem de empreendedores de topo que ilustram a realidade, tantas vezes ignorada, de um país moderno, com empresas tecnologicamente muito evoluídas, algumas líderes mundiais no seu segmento.
Para progredirem e se afirmarem não dispensam o apoio da investigação e potenciam a sua atividade com a transferência de conhecimento que resulta de um trabalho conjunto com os docentes-investigadores.
Durante umas horas ninguém falou de crise, mas sim de boas práticas, de tecnologias de ponta, de novos produtos, de liderança de mercados, de empresas modernas e competitivas e de como o IPL tem sido um parceiro indispensável neste processo.
Mas não se falou apenas, ilustraram-se os projetos, descreveram-se os procedimentos, discutiram-se as opções e, sobretudo, avaliaram-se os resultados. Não foi conversa, mas sim apresentação de factos amplamente comprovados.
Foi um Portugal Positivo, competente, ambicioso, que sabe fazer tão bem como os melhores, o que ali se mostrou e se afirmou. No fundo, foi de confiança no futuro que se falou.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Um país à rasca

“Em Portugal são desejáveis mudanças rápidas na organização da nossa vida política, sob pena de qualquer dia termos também uma praça Tahrir a abarrotar de gente desiludida e sequiosa de uma nova esperança.”
O parágrafo anterior fechava o texto aqui publicado faz um mês. Ainda não se falava da manif da “Geração à rasca”. A nossa praça Tahrir, alusão à praça do Cairo onde a contestação a Mubarak ganhou expressão e acabou por ditar a sua queda, encheu-se no sábado passado em várias cidades do país, com nomes bem portugueses e como um sinal claro que convém não ignorar.
Os portugueses, muitos portugueses, estão fartos do Governo, do Presidente da República, das oposições, dos políticos, da vida a que estão condenados por anos de desgoverno e por um ciclo económico recessivo e verdadeiramente depressivo.
Na altura em que escrevo, anuncia-se uma greve das empresas transportadoras. Sabe-se como estas desempenham um papel decisivo no funcionamento de todas as atividades económicas do país. Sem uma rede ferroviária digna desse nome, os abastecimentos são, em grande medida, assegurados por via rodoviária, pelo que os transportes são a artéria fundamental da vida económica. Sem transportes o país para.
Os jovens “à rasca” mostraram um lado da contestação, soft apesar de tudo. Os transportadores vão apontar baterias bem mais pesadas e ninguém pode garantir que a escalada do “sobressalto cívico”, a que apelou o Presidente da República, não se generalize com consequências que alguns prevêem poder vir a descambar em agitação e violência nas ruas.
Entretanto, o Governo está mais dependente da Sr.ª Merkel do que do Sr. Passos Coelho, embora este, infelizmente, finja que não percebe e faça de galã enganado sempre que o garrote dos portugueses sofre um aperto. Tem melhores soluções do que as do Governo? Quem é que ainda duvida que quem, verdadeiramente, manda no país são os credores e os agiotas internacionais?
O que há muito se percebeu é que faltam protagonistas que ponham os interesses nacionais acima dos objetivos partidários e, por qualquer incompreensível razão, cada um esbraceja para seu lado e ninguém faz esforços sérios para abandonar o tacticismo suicida e gizar uma estratégia de unidade no combate à crise.
O país precisa de um amplo consenso para ser governável no momento presente e o que menos necessita é de eleições. Por razões óbvias, compete ao Presidente da República tomar a iniciativa política que viabilize este objetivo. Alguém fica prejudicado? Talvez. Mas o importante é que ganhe Portugal.

sábado, 5 de março de 2011

Contas furadas

Desde há muito que as contas da Câmara de Leiria, da responsabilidade do anterior executivo, são motivo de controvérsia. A orientação dos investimentos, a racionalidade da gestão, até os procedimentos contabilísticos, tudo tem suscitado dúvida e interesse.
O atual presidente da Câmara sempre manteve sobre esta matéria uma posição muito clara, manifestando a sua discordância quanto a aspetos vários da gestão anterior e defendendo a necessidade de uma auditoria que permitisse uma radiografia fiável e apurasse a real situação financeira da autarquia. Em causa está o cumprimento de uma promessa eleitoral e a necessidade de demonstrar o ponto de partida para a nova gestão e todos os constrangimentos decorrentes da situação financeira herdada.
Mas o problema das contas da autarquia não é apenas do interesse do atual e do anterior executivo da CML e das respetivas forças políticas de suporte, é um assunto que diz respeito a toda a gente, pois estão em causa muitos milhões de euros financiados pelos impostos e taxas municipais pagos pelos contribuintes e por todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuem para o financiamento da autarquia.
Discutir as contas não é uma questão de politiquice, não é uma forma de criar embaraços a quem quer que seja, não é uma birra política do atual executivo, ou do Partido Socialista, é uma exigência de cidadania em prol da transparência das contas públicas por forma a que os cidadãos em geral possam ajuizar como é gasto o seu dinheiro por quem elegeram para os representar.
As contas de uma câmara não são um saco azul de ninguém, são um instrumento de gestão que deve ser escrutinado ao cêntimo por quem as financia, os cidadãos em geral, e os autarcas sobre quem impende a responsabilidade de as executar têm de ter a consciência de que esse dinheiro não lhes pertence e que em cada momento devem cuidar de o administrar da melhor forma, o que pressupõe uma permanente abertura para informarem a comunidade sobre os critérios que utilizam, razoabilidade destes, legalidade e resultados esperados ou alcançados.
Atribuir culpas não resolve os problemas, mas é importante e pedagógico que se saiba quem errou, como se errou, por que se errou. Foi isto que PSD e CDS não quiseram escutar quando abandonaram os trabalhos da última Assembleia Municipal, quiçá convencidos de que bastava recusarem-se a ouvir para que as contas do anterior executivo batessem certo. Foi feio e não mudou nada, as contas deixam muito a desejar, é o que diz a Inspeção Geral de Finanças.

Contas furadas

Desde há muito que as contas da Câmara de Leiria, da responsabilidade do anterior executivo, são motivo de controvérsia. A orientação dos investimentos, a racionalidade da gestão, até os procedimentos contabilísticos, tudo tem suscitado dúvida e interesse.
O atual presidente da Câmara sempre manteve sobre esta matéria uma posição muito clara, manifestando a sua discordância quanto a aspetos vários da gestão anterior e defendendo a necessidade de uma auditoria que permitisse uma radiografia fiável e apurasse a real situação financeira da autarquia. Em causa está o cumprimento de uma promessa eleitoral e a necessidade de demonstrar o ponto de partida para a nova gestão e todos os constrangimentos decorrentes da situação financeira herdada.
Mas o problema das contas da autarquia não é apenas do interesse do atual e do anterior executivo da CML e das respetivas forças políticas de suporte, é um assunto que diz respeito a toda a gente, pois estão em causa muitos milhões de euros financiados pelos impostos e taxas municipais pagos pelos contribuintes e por todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuem para o financiamento da autarquia.
Discutir as contas não é uma questão de politiquice, não é uma forma de criar embaraços a quem quer que seja, não é uma birra política do atual executivo, ou do Partido Socialista, é uma exigência de cidadania em prol da transparência das contas públicas por forma a que os cidadãos em geral possam ajuizar como é gasto o seu dinheiro por quem elegeram para os representar.
As contas de uma câmara não são um saco azul de ninguém, são um instrumento de gestão que deve ser escrutinado ao cêntimo por quem as financia, os cidadãos em geral, e os autarcas sobre quem impende a responsabilidade de as executar têm de ter a consciência de que esse dinheiro não lhes pertence e que em cada momento devem cuidar de o administrar da melhor forma, o que pressupõe uma permanente abertura para informarem a comunidade sobre os critérios que utilizam, razoabilidade destes, legalidade e resultados esperados ou alcançados.
Atribuir culpas não resolve os problemas, mas é importante e pedagógico que se saiba quem errou, como se errou, por que se errou. Foi isto que PSD e CDS não quiseram escutar quando abandonaram os trabalhos da última Assembleia Municipal, quiçá convencidos de que bastava recusarem-se a ouvir para que as contas do anterior executivo batessem certo. Foi feio e não mudou nada, as contas deixam muito a desejar, é o que diz a Inspeção Geral de Finanças.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Povo é quem mais ordena

Às vezes há quem se esqueça que, tal como um rio, o Povo, essa realidade sócio-política difusa, tudo inunda, tudo submerge, tudo leva à frente para o bem e para o mal.
No Egito, as inundações do Nilo são uma bênção, sempre foram. Desta vez o rio fez-se Povo e a inundação trouxe a força da mudança e o húmus da liberdade e transformou numa torrente de esperança o que não passava de um sonho adiado.
No primeiro momento temeu-se o pior, um banho de sangue ou uma onda avassaladora do fundamentalismo muçulmano, mas foi-se percebendo que as armas das primeiras linhas dos combatentes da mudança eram os telemóveis e os computadores, ou melhor, a informação instantânea e em rede.
Lembrei-me de Gandhi, da resistência passiva e da queda do maior império de então frente aos ativistas que usavam a força da palavra e do exemplo para levarem de vencida a tropa mais bem treinada e armada do mundo.
Não há poder capaz de se opor a um Povo que se levanta contra a tirania e a opressão e em cada época podem mudar as causas, podem mudar as armas, pode mudar a geopolítica, mas permanece imutável a força das gentes quando lutam por uma causa e por um ideal.
Ao ver aquela massa imensa de gente na praça Tahrir não pude deixar de me sentir feliz como eles, e dei comigo a rebobinar o filme da nossa história recente e a experimentar, de novo, a alegria incontida de ver a revolução brotar da força dos tanques enfeitados de cravos que terminaram com a opacidade do Estado Novo e nos devolveram a liberdade e, sobretudo, a esperança.
Já se conhecia o poder dos telemóveis, dos sms, das redes sociais, mas ninguém conseguiu antecipar que depressa se transformariam em armas mais eficazes que as mais sofisticadas usadas pelos exércitos, ao darem expressão à força mobilizadora de uma mensagem a que não se pode dar combate com armas de fogo.
O mundo está a mudar aceleradamente e os sistemas políticos convencionais tardam em se adaptar às novas realidades. A democratização do acesso à informação instantânea e em rede tornam cada vez mais inoperante o sistema representativo em que se baseia o nosso modelo político.
As últimas eleições foram apenas mais um indício do cansaço social que mina o país, das constantes artimanhas politiqueiras, dos escândalos financeiros, da inoperância da Justiça. Em Portugal são desejáveis mudanças rápidas na organização da nossa vida política, sob pena de qualquer dia termos também uma praça Tahrir a abarrotar de gente desiludida e sequiosa de uma nova esperança.