sexta-feira, 20 de abril de 2018
Quotas de género na política
Como sempre vivi em ambientes profissionais dominados numericamente por mulheres e fui educado e me tenho comportado como um igual às cidadãs, tenho sempre alguma dificuldade em avaliar de forma fria este tipo de discussões sobre as quotas de género. É certo que a legislação ajuda a mudar as sociedades e que a engenharia social pode ser muito importante, mas fica-me sempre a dúvida se não estamos a incorrer no mesmo erro dos escuteiros que queriam ajudar a velhinha a atravessar a rua, para fazerem a sua boa ação do dia, com a simples nota negativa de que a senhora não queria. Ora, se as mulheres são maioritárias em inúmeras atividades e lideram hoje em muitas áreas, a sua sub representação na política é apenas resultado do "machismo" ainda vigente? Não acredito, a política é uma atividade que não interessa a muita gente, aliás, interessa a cada vez menos pessoas, e talvez muitas mulheres prefiram fazer coisas mais úteis. Se vingar uma conceção fundamentalista das quotas, seremos forçados a aceitar quotas de género, de cor, de orientação religiosa, de orientação sexual, de estatuto económico e por aí fora, até termos feito da democracia um carrocel de quotizados.
quinta-feira, 19 de abril de 2018
O paradoxo escolar
Pode uma organização que quer educar para o futuro, usar metodologias e profissionais do passado? Não pode. A organização e os métodos da escola atual são do passado e a esmagadora maioria dos professores são migrantes digitais e muitos continuam a ser iletrados digitais. Muitas escolas funcionam em total ignorância do que são as regras básicas de comunicação de uma sociedade digital e basta enviar um e-mail a um diretor ou a professor de boa parte das escolas para perceber a distância que separa a comunicação instantânea que a sociedade promove, e sem a qual já não se pode viver, do tempo que alguns julgam ser o do espaço pedagógico onde se arrastam.
Ainda não há muito tempo, numa ação de avaliação de uma escola, um professor me afirmou que não autorizava que os pais dos alunos, que lhe pagam o salário, tivessem acesso aos seus contactos e se lhe pudessem dirigir diretamente. Esclarecedor.
Recentemente, um estudo promovido pela União Europeia comprovou prospectivamente que a maioria (63%) das crianças que hoje frequentam os jardins-de-infância vão exercer profissões que ainda não existem. E o que estamos a fazer para as educar para o mundo que as espera? O mesmo que fazíamos há muitos anos atrás, quando não havia computadores, telemóveis, WhatApp, Facebook, Instagram e toda a miríade de soluções tecnológicas que mudaram o mundo, nos mudam a nós e estão a mudar as crianças que hoje entram nas escolas e reclamam outra escola, outras metodologias, outros currículos e professores preparados para lidar com tudo isso.
Para a geração dos nativos digitais, multitask e que consultam o telemóvel de 10 em 10 segundos é credível escolarizá-los num modelo que tem dois séculos? Impossível, e é aqui que nasce o equívoco da escola que temos e o paradoxo de querermos construir o futuro com uma escola do passado. Morte à escola, viva a escola.(18-04-14/Região de Leiria)
quarta-feira, 18 de abril de 2018
Longevidade e cuidadores
Já todos sabemos que estamos a envelhecer e quando vivemos de perto a situação dos nossos familiares e mais próximos percebemos como não é fácil garantir a todos um fim com a dignidade, a privacidade e o conforto a que devíamos ter direito.
Como muitas outras coisas, conhecemos o problema, sabemos que o futuro nos levanta muitas interrogações, sobretudo se não anteciparmos as soluções, mas vamos adiando como se esperássemos que algum facto inesperado mude a realidade.
No entanto, os números não mentem. Em 2017, haveria no mundo 962 milhões de pessoas com 60 e mais anos; em 2050 estima-se que existam 2,1 biliões. Em 2017, 137 milhões com 80 e mais anos; em 2050, 425 milhões.
Em Portugal, em 1971, 28% da população tinha entre 0 e 4 anos, 62% entre 15 e 64, e 10% 65 ou mais anos. Em 2016, para os mesmos intervalos, 14%, 65% e 21. Os primeiros ficaram reduzidos a metade, os últimos mais do que duplicaram.
Se hoje em dias se estima que existam 800 mil cuidadores informais não remunerados, e ninguém sabe quantos existem no total, incluindo os profissionais, imagine-se como vai ser o futuro. Por isso são de saudar todas as iniciativas que contribuam para se encontrarem soluções, sendo que o Estado tem um papel importante, mas jamais se poderá pensar em deixar apenas à sua responsabilidade a solução de uma questão que a todos nos implica e que, gerando problemas, também cria oportunidades.
A discussão do Estatuto dos Cuidadores é oportuna e necessária, mas está muito longe de esgotar o tema. Não são só os cuidadores familiares, designação que prefiro a informais, que precisam de atenção, e os “profissionais informais” que também não têm estatuto, carreira ou formação reconhecida e cujo nível remuneratório é ditado exclusivamente pela oferta e procura? Temos de olhar para a floresta, não apenas para a árvore. (18-03-25/Região de Leiria)
5 estrelas
O Movimento 5 Estrelas, fundado por um comediante, que começou por ser encarado como uma anedota política e se assume como antissistema, foi o partido mais votado nas eleições legislativas italianas. Seguiram-se os partidos anti imigração, xenófobos e de direita, mais ou menos radicais. O socialista Mateus Renzi, ex primeiro ministro, teve um resultado dececionante.
Moral da história, a Itália está outra vez num impasse político e as forças anti Comunidade Europeia e eurocéticas ganharam em toda a linha, razão para ficarmos ainda mais atentos e preocupados com o futuro do projeto de uma Europa unida e coesa em torno de uma economia poderosa e de valores democráticos, igualitários e solidários.
As forças centrífugas são cada vez mais poderosas e o quadro de valores fundacionais que serviu de cimento agregador no pós guerra estão claramente em xeque, com o desaparecimento dos partidos tradicionais, o recrudescimento de tendências populistas, xenófobas e autoritárias e a multiplicação de impasses políticos que comprometem a eficácia governativa e lançam o descrédito entre os cidadãos.
O Brexit, o interregno na Alemanha, a tentativa independentista na Catalunha, o autoritarismo húngaro, a negação polaca sobre o holocausto, as divergências sobre a melhor resposta ao êxodo dos refugiados, a eclosão de novos partidos fora do sistema tradicional, a pulverização dos votos, são tudo sinais a aconselharem uma reflexão ponderada, sem alarmismos, mas realista, sobre um mundo em mudança profunda e que não voltará a ser o que era.
Tal como as placas tectónicas, as sociedades movem-se e os ajustamentos são inevitáveis. Contrariar o curso da História é inglório, compreender a mudança é obrigatório, agir para construir o futuro é indispensável. É isto que temos de perceber para assegurar a coesão social e a consolidação do projeto europeu. (18-03-06/Região de Leiria)
O futuro do Ensino Superior
O Governo tornou público um relatório da OCDE sobre a situação e o futuro do Ensino Superior Português. A maior lacuna deste relatório é debruçar-se apenas sobre o ensino superior tutelado pelo Estado, não havendo praticamente uma linha sobre o ensino superior privado, que representa quase 20% do total, e que é ignorado com um parceiro importante e como um ator fundamental do processo de reforma indispensável.
O relatório, ainda em fase de recolha de contributos, não diz nada que não se saiba, mas sublinha as nossas fragilidades e aponta alguns caminhos a seguir que não se deviam perder de vista para benefício do sistema e, sobretudo, do país.
De forma telegráfica, sublinhamos o essencial. É fundamental aumentar o fluxo de estudantes do secundário para o superior, com particular destaque para os oriundos dos cursos profissionais, o que exige uma mudança de paradigma no sistema de acesso.
As universidades e os politécnicos continuam demasiado dependentes do respetivo ministério e os seus figurinos de gestão estão ultrapassados, a lógica da gestão empresarial devia substituir a lógica burocrática de um serviço público e o financiamento devia ser cada vez mais autónomo e diversificado, por outro lado a interação com as empresas continua muito aquém do desejável.
Os corpos docentes estão envelhecidos e são demasiado fechados, não há abertura a contratação de docentes estrangeiros e as promoções são endógenas, o que dificulta a renovação e a abertura à inovação.
As instituições, sobretudo as do interior, não são vistas pela comunidade como pólos essenciais de desenvolvimento regional, pelo potencial formativo, de investigação e de partilha de conhecimento e pivots da criação de riqueza e da fixação de pessoas.
O diagnóstico, mais um, está feito. Falta a ação, que depende das forças políticas mas também de cada um de nós. (18-02-10/Região de Leiria)
Super hipocrisia
Em 2017 houve mais 24 mil mortes do que nascimentos; é a peste branca a dizimar-nos, mas quem se preocupa com isso? Importante é a Super Nanny, o programa diabolizado por quase todos e que nos atira à cara o que fingimos não ver, a educação das crianças e dos adolescentes transformou-se num enorme problema e parece que a resposta, politicamente correta, é negar a realidade.
Se mudarmos família por escola, a questão é a mesma e os próceres das ideias certas insistirão que não se passa nada, a culpa é dos professores, como nas famílias é dos pais. A favor dos direitos das crianças e dos jovens, tudo, que deveres é coisa menor, e o que aponte os queridos pestinhas como necessitando de reprimenda corretiva mais severa, atenta contra os seus sacros direitos.
Não discuto estes, nem legitimidades, apenas me interessa partilhar o que vi, vimos todos, crianças insuportáveis, famílias descompensadas, quotidianos familiares inimagináveis, ausência de regras, de rotinas, de capacidade de se separarem águas entre quem educa e quem devia ser educado. Quem não se reviu por momentos em um qualquer dos takes exibidos, quem nunca experimentou o desespero de lidar com situações que roçam o descontrolo, quando as crianças ou os adolescentes entram numa espiral de confronto em que os pais passaram a ser o elo mais fraco?
O programa choca as nossas consciências formatadas nos direitos das crianças, mas alerta para um problema gravíssimo que não se resolve ignorando-o e, como é sabido, o primeiro degrau para resolver um problema é admitir que ele existe.(18-01-22/Região de Leiria)
Os invisíveis
Alguém sabe quantos portugueses vivem sós, mesmo que acompanhados? Explico, para além de idosos que vivem sozinhos, há idosos que vivem em casal, mas um dos membros está afetado por uma grave doença e comunica deficientemente ou não comunica mesmo. Nos lares têm cuidadores que lhes tratam, melhor ou pior, das dores do corpo, mas as do espírito, quem os ajuda a suportar a caminhada que não devia ser apenas um fim de linha? A solidão acompanhada não deixa de o ser, apenas parece ser o que não é.
Este problema é gravíssimo e tem tendência a agravar-se, mas as medidas para o combater são insuficientes ou inexistentes. São cidadãos que, na generalidade, tiveram uma vida profissional mais ou menos bem sucedida, constituíram família, têm filhos, netos, mas a idade avançada condenou-os ao isolamento, à solidão, ao silêncio.
Neste tempo de festas, o problema ganha novos contornos quando os idosos são “despejados” nos hospitais para que a restante família possa passar uns dias sem o peso de os cuidar. É imoral? É, mas a dura realidade não nos deve levar à condenação, antes à compreensão e à mobilização da consciência coletiva para que, ao menos no futuro, possamos fazer diferente.
Estes portugueses são “invisíveis”, vivem nas suas casas ou em lares, não aparecem nas estatísticas, não têm sindicato, não fazem greves nem manifestações, não são mediáticos, não “existem” para quem não os procura, não os visita, não os quer ver. E não é bonito o que se vê quando se espreita para lá da cortina que os esconde.
São assim as nossas sociedades “desenvolvidas”, marginalizam os mais velhos, internam-nos em lugares despersonalizados, condenam-nos ao silêncio, guardam-nos como sapatos velhos num armário bafiento. É este o futuro que desejamos? Certamente que não; então é tempo de mudar de paradigma e reincluir os idosos na sociedade que os segregou. (10-01-01/Região de Leiria)
Viagens de pesadelo
O tema viagens tem assombrado alguns deputados das regiões autónomas. Um demitiu-se por "prática incorreta", outra vai repor verbas recebidas "indevidamente", o líder parlamentar do PS afirmou que agiu de forma "eticamente irrepreensível" e o Presidente da AR veio declarar que sempre assim se fez e que alimentar estas suspeitas "apouca a democracia". Entretanto, o Secretário Geral da AR pediu um parecer, o que costuma ocorrer quando há dúvidas sobre a legalidade de qualquer ato.
Não tenho dados para tomar uma posição, mas estes acontecimentos são cíclicos e são a prova de que não há transparência nem princípios robustos sobre as práticas que sustentam a atividade parlamentar. Não sei como isto vai acabar, mas tenho a certeza de que é apenas mais uma pequena acha para o fogo lento em que se consome a credibilidade das instituições e dos políticos que as integram.
sábado, 14 de abril de 2018
Síria(al) killers
Uma coligação dos USA, Inglaterrra e França atacou a Síria com o pretexto de que Assad teria usado armas químicas contra os ocupantes de Douma. A guerra química é hedionda, mas é menos do que cortar cabeças indiscriminadamente, escravizar homens, mulheres e crianças, usar escudos humanos, derrubar as Torres Gêmeas, atropelar gente indefesa em Londres, Nice, Paris ou Berlin?
O conflito da Síria foi iniciado como o do Iraque e de outros países do Médio Oriente pelas potências ocidentais que se julgam polícias do bons regimes e que querem impor o seu modelo de sociedade a todo o planeta.
É aos mesmos que agora bombardeiam a Síria, mais aos seus aliados de ocasião, que devemos o Daesh e outros grupos terroristas que há anos dilaceram o Médio Oriente. Foi a tentativa de acabar com Assad que se armaram e financiaram os grupos que ainda hoje resistem em Douma e noutros enclaves e o único resultado à vista foi um país destruído, milhares de mortos, centenas de milhares de estropiados, e um número imenso de refugiados que fizeram da Europa o seu Eldorado e criaram um enorme problema social e, no futuro, político que ninguém sabe como resolver.
São estes os créditos dos que agora provocam o equilíbrio débil que se começa a gerar na Síria, com a Rússia e o Irão, a ocuparem o espaço que os ocidentais por incúria e pesporrência deixaram ao abandono. Trump precisa do belicismo para disfarçar a incapacidade para governar, Teresa May para desviar as atenções do Bréxit, Macron, o aprendiz de feiticeiro, sente-se ungido pelo espírito de Napoleão e julga-se salvador do Mundo. Não passam de uma troupe de malabaristas a brincar com o fogo, perante a inação das Nações Unidas e dos governos europeus, acólitos impreparados de uma estratégica bélica insensata.
Regresso à escrita
Durante anos deixei de escrever no blogue. Agora regresso.
Este é um espaço de liberdade que não deve ser confundido com as minhas responsabilidades profissionais ou outras. Como cidadão tenho o direito de escrever sobre o que entender que merece a minha atenção e que sinto o desejo ou o dever de partilhar com outros.
Como em muitas outras atividades, podemos ter ideias muito próprias e ter de agir segundo outras, de acordo com os diversos compromissos que temos.
Um blogue é um espaço onde podemos ser nós próprios, assumindo para o bem e para o mal a responsabilidade do que escrevemos. É assim que entendo a minha liberdade cívica.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Com António Costa e o Partido Socialista por Portugal!
Há momentos na
vida de todos nós em que, por maior que se anteveja o combate, não se pode
virar a cara à luta, em que o silêncio é iníquo e a afirmação de
alternativas a única imposição de consciência que os homens e mulheres livres
podem aceitar.
Os militantes
socialistas e todos os que se reveem na história e no ideário do Partido
Socialista não podem continuar a assistir passivamente à degradação da vida
política nacional e ao desânimo de muitos cidadãos que não veem alternativa
no quadro atual dos partidos com vocação governativa e começam a alimentar
soluções populistas e radicais.
As eleições europeias são a prova evidente de que a
maior parte dos portugueses não se sentiram mobilizados para exercerem o seu
direito de voto e não é abusivo concluir que as propostas políticas
apresentadas pelas várias formações partidárias não foram suficientemente
apelativas para gerar maior participação e empenho nas eleições, o que só pode
traduzir desinteresse, descrédito, desconfiança e falta de perspetivas quanto
ao futuro.
O Partido
Socialista ganhou as eleições mas não ganhou o País e a atual liderança não
compreendeu que era chegada a hora de fazer um balanço realista da situação
interna e externa e tirar as conclusões que se impõem, o PS pode parecer
ganhador, mas não mobilizou suficientemente a sociedade portuguesa contra as
soluções de governo que desde há anos esmagam os portugueses mais débeis
economicamente, destroem a classe média, aumentam o desemprego, não estimulam a
economia e afetam gravemente a autoestima do País.
Por tudo isto
os signatários saúdam a iniciativa patriótica de António Costa, militante
destacado e político de créditos firmados com longo e brilhante currículo ao
serviço da Nação, ao apresentar-se ao país com espírito de serviço e disposto a
assumir as suas responsabilidades liderando um movimento de renovação política
que devolva ao partido e, sobretudo, aos portugueses e portuguesas a confiança perdida
e se constitua como uma alternativa mobilizadora, forte e credível, com
condições de sucesso nas próximas eleições legislativas.
A gravidade da
situação portuguesa exige alternativas políticas robustas e não apenas a
ambição de ganhar eleições a qualquer preço e o Partido Socialista tem o
dever patriótico de se abrir ao País e à discussão dos problemas nacionais sem
se encerrar em trincheiras formalistas, antes ouvindo a voz de todos os
militantes e dos cidadãos em geral e lendo com sabedoria os sinais dos tempos,
razão pela qual os signatários apelam ao
Secretário-geral e à Comissão Política Nacional para que seja convocado um
Congresso Extraordinário onde a voz dos militantes e do País se faça ouvir e as
várias propostas políticas para o futuro discutidas.
sábado, 26 de abril de 2014
Discurso comemorativo do 40.º aniversário da revolução de 25 de Abril
Exm.º Sr. Presidente da Câmara
Municipal de Leiria
Sras e srs deputados e deputadas
municipais
Sras e srs vereadores
Sras e Srs Presidentes de Juntas e de
Uniões de Freguesias
Autoridades e representantes de
instituições, serviços e empresas
Minhas senhoras e meus senhores
Um cumprimento muito especial para os
jovens
Estamos aqui reunidos
para comemorar a passagem do quadragésimo aniversário do levantamento militar
ocorrido a 25 de abril de 1974, organizado e protagonizado maioritariamente por
oficiais subalternos das Forças Armadas Portuguesas, os chamados capitães de
abril, em rutura com o regime autoritário e antidemocrático que amordaçava o
país e em desacordo com a continuação da guerra colonial em África,
tecnicamente há muito perdida para além de ilegítima à luz dos princípios
internacionais aceites na altura, movimento armado que de imediato foi secundado
por uma adesão massiva da população portuguesa e que logo ficou conhecido pela
Revolução dos Cravos.
Independentemente da ação
meritória dos militares, é da mais elementar justiça evocar a memória dos
resistentes que durante décadas não se vergaram ao poder discricionário dos que
lhe tolhiam a liberdade, não se deixaram abater pela violência das milícias do
Estado Novo, não recuaram perante a tortura da polícia política, não deixaram
de sacrificar bens, família, conforto, empregos, enfim, tudo que cada um tem o
direito de poder fruir em paz e harmonia, para que a chama da liberdade se
mantivesse acesa, para que a mensagem da esperança continuasse a afagar os
espíritos dos que acreditavam na restauração da democracia, para que no dia em
que o rastilho da liberdade se incendiasse o fogo sagrado do resgate da pátria
chegasse rapidamente a todo o país, como aconteceu há precisamente quatro
décadas.
Por isso se falou tanto e
acertadamente na Aliança POVO-MFA (Movimento das Forças Armadas) e se recordo a
designação completa é porque, infelizmente, não temos cuidado o suficiente de
alimentar a nossa memória histórica e muitos dos mais novos quase nada sabem
dessa gesta heroica de há quarenta anos que lhes preparou o caminho para que
hoje possam viver num país profundamente mudado e que, apesar dos problemas que
persistem e dos que resultam da evolução natural dos tempos, nada tem a ver com
o país fechado sobre si próprio, mergulhado numa guerra sem sentido, onde a
liberdade era coartada, o pensamento agrilhoado e as diferenças sociais
abissais, que nós tão bem conhecemos e que os documentos da época comprovam à
saciedade.
Nestes momentos
comemorativos há uma certa tendência para evocar as esperanças sem limite que
as portas escancaradas da liberdade permitiam e olhar nostalgicamente para a
realidade concluindo que afinal pouco mudou e, aqui e ali, é mesmo possível
escutar algumas vozes reclamando um novo 25 de abril, como se o país tivesse
parado quarenta anos e fosse possível fazer retroceder o relógio do tempo para
começar de novo.
Independentemente das
posições políticas de cada um e das suas convicções mais profundas, é
absolutamente indesmentível que a Revolução dos Cravos abateu os muros que
cerravam Portugal e deu início a um conjunto importantíssimo de mudanças políticas,
sociais e culturais que em tropel provocaram um verdadeiro terramoto no
equilíbrio débil de uma sociedade anquilosada, rapidamente obrigada a
reinventar-se à medida que o novo Portugal se ia robustecendo.
O atraso em que vegetava
a vida social em Portugal, completamente fora do tempo da época, é bem
ilustrado pelo desconforto sentido até pelos portugueses espalhados pelos
quatro cantos das colónias quando regressavam de visita à “metrópole” e se
confrontavam com as imagens de mulheres idosas embiocadas nos seus trajes e
lenços negros, de buço farto e gengivas descarnadas, imagens que ficaram para a
história como testemunho de um povo oprimido, insuportavelmente pobre e
atrasado.
O Portugal de hoje é uma
nação moderna, as nossas empresas ombreiam com as melhores do mundo, os nossos
técnicos são excelentes, as nossas escolas e os nossos serviços de saúde são de
elevadíssima qualidade, os nossos cientistas fazem ciência de topo no país e
integram equipas de grandes centros de investigação de outros países, as nossas
forças armadas participam em missões internacionais de igual para igual com as
de outras bandeiras, as nossas polícias interiorizaram a sua missão democrática
e são muito competentes tecnicamente, os nossos desportistas são conhecidos em
todo o lado, os nossos produtos têm difusão planetária, o nosso país é
procurado por estudantes e turistas de todo o mundo, enfim, Portugal é um país
respeitado no concerto das nações e os portugueses são cidadãos do mundo de
pleno direito, com capacidade de afirmação e de intervenção em igualdade de
circunstâncias com os melhores.
É um orgulho imenso
sermos portugueses e esta é, para mim, a maior conquista da revolução de abril,
sem as portas que então se abriram nunca seríamos o que somos, como pessoas e
como povo, e não adianta chorar, lamentar, protestar contra o que não aconteceu
e cada um gostaria que tivesse acontecido, a evolução das sociedades é sempre
complexa, não há movimentos civilizacionais de sentido único, a ideia do fim da
história, isto é da possibilidade de se alcançar um momento em que se atingiu o
topo, como se de uma montanha se tratasse, é um delírio intelectual, as
sociedades avançam e recuam, têm os seus momentos épicos e as suas derrotas, os
seus tempos de grandeza e de apagamento, mas passados quarenta anos sobre a
libertação da utopia que parecia tudo permitir não é avisado olhar para trás
com saudosismo, pelo contrário, é o futuro que nos interessa, renovar a utopia
é o caminho para novas conquistas, acreditar que os problemas que subsistem são
a razão para continuarmos a lutar, que os novos problemas são apenas o
princípio de novas soluções, que o futuro se constrói a olhar para a frente e
não a carpir mágoas sobre as desilusões do passado ou do presente.
É por isto que acredito
que comemorar o 25 de Abril não é olhar para trás e comprazer-nos com as
esperanças, as expectativas, os sonhos que nos preencheram; tal como todos os
anos comemoramos os nossos aniversários com o sentido de que o tempo não para e
que estar vivos significa ter novos projetos, novos desafios, novas
oportunidades, comemorar uma revolução com a grandeza desta implica mobilizar
as jovens gerações não apenas pela pedagogia do culto democrático, mas pela
vivência cívica que resulta do seu envolvimento em atividades que façam sentido
para quem nasceu noutro mundo, razão que nos obriga a reinventar
quotidianamente a Revolução dos Cravos para que os jovens não nos olhem como representantes
de uma espécie em extinção que se alimenta de memórias nostálgicas e de ideias
que não compreendem; a revolução viveu-se na rua e é na rua que os jovens a
encontram, a comemoram, a vivem, é a festa da liberdade todos os dias renovada
mas de tão importante nem dão por ela, como o ar que se respira, que só quando
nos falta damos por ele.
Quarenta anos volvidos
sobre esse dia luminoso que nos devolveu a esperança e nos mudou a vida é
necessário encarar os novos desafios que o país tem pela frente, à cabeça dos
quais coloco a necessidade imperiosa de inverter a quebra da natalidade. Não se
trata de alarmismo, mas de percebermos que a prazo somos um país condenado se
não invertermos esta verdadeira peste. Sem gente não há futuro.
O outro grande desafio é
superar um problema antigo, a nossa dependência dos credores externos. A
célebre passagem dos Maias “A única ocupação mesmo
dos ministérios era esta - cobrar o imposto
e fazer o empréstimo. E assim se
havia de continuar...” mantém, para mal dos nossos pecados, toda a
atualidade. Mas há hoje condições como nunca anteriormente para ultrapassarmos
este atavismo luso. Já não somos um povo perdido nos confins da Europa,
envoltos na bruma marinha à espera de um qualquer D. Sebastião, somos parte
plena da grande pátria europeia, cidadãos do mundo, porta de entrada para o
continente, plataforma intercontinental, sabemos como nenhuns outros
relacionar-nos com todos, apenas nos falta acreditar em nós próprios,
disciplinarmos as nossas competências, irmos à luta com a convicção de que o
Céu é o limite para as nossas ambições.
E tudo isto só é possível
porque num tempo de chumbo homens e mulheres de fibra deram o melhor de si
pelos ideais de liberdade, de igualdade, de justiça social, porque não temeram
a prisão, a tortura e o exilio, porque militares descontentes com o regime e
com a guerra, pegaram em armas, porque os portugueses anónimos, o POVO, se
levantaram, se uniram, sonharam e todos em conjunto construímos um país novo,
com uma história milenar pontuada de sucessos inimagináveis e um futuro que há
de ser grande como grandes são os feitos dos portugueses.
Viva a revolução dos
Cravos
Viva o futuro
Viva Leiria
Leiria, 25 de Abril de 2014
José Manuel Silva
Presidente da Assembleia Municipal de
Leiria
As portas do mundo que Abril abriu
Um dia acordei e as tropas estavam
nas ruas. Começou aí um dos períodos mais desafiantes da minha vida e ter tido
a oportunidade de viver uma revolução e de ser parte dela é uma experiência
empolgante e inolvidável; muito do que sou tem a marca desse período em que me
moldei para a vida nos valores da liberdade, da democracia, da justiça social,
inebriado pela ideia de ajudar a mudar o mundo.
E o mundo mudou, e muito. O
Portugal de hoje mantém as suas raízes centenárias mas os seus ramos cresceram
em múltiplas direções, somos europeístas, que sempre fomos, naturalmente, mas
buscámos sempre no Atlântico e a partir dele nos outros mares o que a Espanha
nos barrava, um caminho livre para a Europa mais central. O mar foi a opção
inteligente para um povo que se quis independente, sem a aventura dos
descobrimentos não teria sido possível manter a independência face ao gigante
Castelhano.
Entre “As portas que Abril abriu”,
como diz o poeta Manuel Alegre, a Europa foi das mais inspiradoras, o Portugal
contemporâneo é produto deste recentrar da história Lusa, da Europa não nos
vieram só os milhões, veio-nos uma nova mentalidade, feita de abertura de
espírito, de respeito pelos outros, pelos seus costumes, ideologias e línguas,
os jovens portugueses são um produto e um exemplo de engenharia educativa e
social ao serviço da transformação dos povos, veja-se o programa Erasmus que
tem feito mais pela cidadania europeia do que qualquer empreendimento
unificador resultante de sonhos imperiais.
É certo que Portugal foi sempre um
desbravador de mundos, mas sem a integração atual na União Europeia nunca
teríamos chegado onde estamos em termos de abertura a todas as latitudes, por
uma razão simples, Portugal não tinha escala para construir as bases
indispensáveis a uma alavancagem das suas potencialidades.
Apesar de terem passado apenas quarenta
anos o salto dado pelos país e pelos portugueses foi marcante, o Portugal de
hoje é profundamente diferente do país onde nasci, quase medieval, fechado
sobre si próprio, onde as desigualdades sociais eram brutais. Hoje alguns
tendem a querer diminuir o património de Abril, como se de uma revolução
falhada se tratasse. Pelo contrário, foi Abril que nos abriu as portas do
futuro e é por isso que os portugueses se sentem hoje verdadeiros cidadãos do
mundo.
Este país não é para seniores
Portugal vai envelhecendo a passos
rápidos e se lhe juntarmos a baixíssima taxa de natalidade temos o cocktail
explosivo que um dia fará implodir o país já que esta peste demográfica vai
corroendo o tecido social e tornando a situação insustentável a todos os
níveis.
O prolongamento da esperança média
de vida gera situações novas e, num prazo relativamente curto, o país passou da
fase do cuidar familiar dos idosos para a da institucionalização generalizada
dos seniores, designação que ajuda a disfarçar a carga negativa da palavra
velho, muitas vezes equivalente a coisa pouco sexy, a cota, a algo
desqualificado, ao contrário do que ocorre noutras sociedades onde os “mais
velhos” gozam de um estatuto especial em reconhecimento do seu capital de
conhecimentos e experiência.
Os seniores correspondem hoje a um
segmento da população com necessidades muito próprias, a um alvo comercial
específico, mas também a um grupo muito fragilizado socialmente, sujeito a
abusos de toda a ordem e cujos elementos correm sérios riscos de atingir a
linha final totalmente despersonalizados, como consequência de doenças várias
ou como resultado da forma como são cuidados.
O internamento generalizado em
lares, corresponde muitas vezes a uma espécie de punição injustíssima por ditar
que uma pessoa seja arrancada da sua casa, separada dos seus pertences, dos
seus animais de estimação, dos seus vizinhos, no fundo do que dava significado
à sua vida, para ser internada num espaço que lhe é estranho, tratada por
pessoas que não lhe são nada, partilhando quarto, wc e quotidiano com gente
desconhecida que em comum apenas partilha o mesmo destino.
A institucionalização, que devia
ser a última alternativa, tornou-se a primeira escolha, fruto das
condicionantes da vida atual, do comodismo familiar, da ausência de políticas
arrojadas, da falta de consciência generalizada de que os seniores não podem
ser deixados simplesmente à sua sorte.
Ao contrário do que tem feito
escola, é urgente inverter as políticas de apoio aos seniores, é necessário
montar redes sociais eficazes que tornem sustentável mantê-los no seio das
famílias, nas residência próprias, em residências assistidas, reforçar os
centros de dia, as oportunidades de socialização, de estudo, de diversão e
recorrer apenas ao internamento em lares como último recurso. A
despersonalização é uma fronteira que não deve ser cruzada.
(Publicado no Região de Leiria, Março)
segunda-feira, 3 de março de 2014
Como se chama? Besta!
Há já uns anos, perguntei a uma
aluna como se chamava; retorquiu-me, “Besta”. “Besta?”, perguntei incrédulo,
“Sim, sou aluna do 1.º ano”. Há poucos dias, uma mãe foi-se-me queixar das
praxes a que a filha tinha sido submetida. Chamei a rapariga, que se confessou
admiradora das praxes, com um senão, marcarem atividades para dias em que os
alunos precisam de estudar para os testes.
No primeiro caso, espanta que alguém
se possa identificar com um nome humilhante, mesmo não se estando no âmbito de
uma praxe, mas fica claro até onde pode ir o constrangimento a que os caloiros
são submetidos. A história mais recente ilustra a que ponto a praxe se refinou
e se tornou uma atividade quase paralela às aulas, uma espécie de complemento
curricular, sujeita a horário e marcação de faltas.
As praxes académicas são uma
versão moderna das cerimónias iniciáticas, existentes desde tempos imemoriais,
a que os jovens ou os novos aderentes a uma seita ou causa eram/são submetidos.
Ser praxado, quando se chega ao ensino superior, significa que se ascendeu
socialmente a um patamar diferenciador, que se está na antecâmara de obter o
canudo de doutor, essa sacrossanta dignidade que em Portugal tanto se venera. É
aqui que reside a popularidade da praxe. É por isso que as manifestações anti
praxe são um fiasco. A malta curte a praxe…
Por outro lado, o caldo social que
a faz prosperar é a força da assimilação cultural e a falta de formação cívica
pois continuamos a ter um défice evidente de participação na vida coletiva, o
que torna os jovens presas fáceis de práticas autoritárias que, não raro,
ultrapassam os limites do civicamente admissível e do legalmente exigível.
Ser contra ou a favor das praxes é
uma atitude de consciência e não cabe às instituições académicas protegê-las ou
bani-las, apenas esclarecer os estudantes sobre os seus direitos, garantir a
liberdade de escolha dos alunos que as recusam, acompanhar o processo e agir
contra os infratores. Fora das instituições, os abusos são um caso de polícia.
Para os que insistem em demonizar
as praxes e lhes contrapõem o que ocorria no tempo em que ser anti praxe era
ser progressista, é preciso recordar que o país mudou e que hoje chegam também
ao ensino superior os filhos dos que na época nunca tinham sonhado com essa
possibilidade. Por isso, a praxe tornou-se uma marca democrática de ascensão
social.
(Crónica publicada no Região de Leiria de 27 de Fevereiro de 2014)
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
O cancro da escola
O suicídio de um jovem estudante,
alegadamente por não conseguir ultrapassar as humilhações a que alguns colegas
o sujeitavam na escola, veio agitar na comunicação social e na opinião pública
o tema da violência escolar, expressão maior do mal que afeta muitas escolas,
incapazes de controlar o comportamento dos alunos e de inverter a espiral
disfuncional de relacionamentos em que o sistema de ensino vem mergulhando.
(Publicado na edição de 30 de Janeiro de 2013 do Região de Leiria, na coluna Passageiro do Tempo)
Violência e alunos com
comportamentos reprováveis sempre existiram, mas constituíam a exceção porque
cultivavam-se valores relacionais, distinguiam-se os papéis dos diferentes
atores e as escolas eram lugares seguros e onde se aprendiam também as virtudes
da cidadania e do respeito pelos outros.
Hoje, muitas escolas são lugares
de má fama, onde os pais, se tivessem alternativa, não colocavam os filhos e os
professores, se pudessem, não escolhiam, onde existe um ambiente social de
valores profundamente corroídos, em que a linha divisória entre o aceitável e o
reprovável, o bem e o mal, a lei e o crime, estão de tal forma esbatidos que
tudo parece justificado e enquadrado numa normalidade absolutamente imoral.
Nunca mais esquecerei um
experiente diretor de uma escola pública de Coimbra, homem curtido por anos de
ensino e direção, que me contou com lágrimas nos olhos um episódio, hoje tudo
menos atípico; ao repreender um aluno que se tinha comportado de forma
gravemente imprópria, este olhou para os colegas à volta e referindo-se ao
diretor exclamou: “Tão-me a ver este palhaço?”
Não estou a carregar nos tons
escuros, limito-me a dizer em voz alta o que muitos sabem ser hoje corriqueiro
em muitas escolas, apesar de o Ministério da Educação e os seus sucessivos
responsáveis fingirem não perceber a gravidade da questão, como se os excessos
garantísticos dos direitos dos alunos face às suas obrigações fossem a solução para
travar um mal que se acentua, põe em causa as condições de aprendizagem e
destrói os relacionamentos.
A solução não é simples, mas
existe. Trata-se de definir a linha que não pode ser ultrapassada. Se a escola
não pode rejeitar nenhum aluno, estes também não podem atentar contra a essência
da própria escola, porque ao fazê-lo estão a lesar gravemente os direitos de
outros. Tem sido o demissionismo face à gravidade do problema que tem
contribuído para o seu agravamento e é o principal estímulo ao desenvolvimento
deste verdadeiro cancro da escola.
domingo, 5 de janeiro de 2014
A organização escolar no âmbito da CIMRL
A descentralização de
competências educativas e a autonomia das escolas
Considerando as atribuições das
Comunidades intermunicipais em matéria de educação e ensino, designadamente os
constantes do artigo 81.º, da Lei n.º 75/2013;
1 — As
comunidades intermunicipais destinam-se à prossecução dos seguintes fins
públicos:
a)
Promoção do planeamento e da gestão da estratégia de desenvolvimento económico,
social e ambiental do território abrangido;
b)
Articulação dos investimentos municipais de interesse intermunicipal;
c)
Participação na gestão de programas de apoio ao desenvolvimento regional, designadamente
no âmbito do QREN;
d)
Planeamento das atuações de entidades públicas, de caráter supramunicipal.
2 — Cabe às comunidades
intermunicipais assegurar a articulação das atuações entre os municípios e os
serviços da administração central, nas seguintes áreas:
(…)
c)
Rede educativa e de formação profissional;
(,,,)
g)
Redes de equipamentos públicos;
h)
Promoção do desenvolvimento económico, social e cultural;
i)
Rede de equipamentos culturais, desportivos e de lazer.
3 — Cabe às
comunidades intermunicipais exercer as atribuições transferidas pela
administração estadual e o exercício em comum das competências delegadas pelos municípios
que as integram, nos termos da presente lei.
Considerando
o facto de estarmos hoje aqui a fazer história realizando a primeira reunião da
Assembleia da CIM RL.
Considerando
ainda o quadro geral da organização, administração e gestão escolar, que a
seguir se caracteriza:
Partindo do quadro organizativo do
sistema educativo, excessivamente centralizado e consideradas as
responsabilidades crescentes atribuídas às autarquias em aspetos sobretudo de
natureza logística no apoio ao funcionamento do sistema escolar, importa
refletir sobre algumas possibilidades de reforçar o papel destas e diminuir a
centralização em matéria de administração escolar, procurando novos caminhos
para a administração e gestão das escolas não superiores, que devem ser
encontrados no quadro territorial autárquico e, eventualmente, no quadro das
CIM.
É certo que já há muito tempo se
“decretou” a autonomia da escola e que essa podia ser uma via para
acabar com o modelo único, pois é concedida a cada escola a capacidade de elaboração
e realização de um projeto educativo em benefício dos alunos e com a
participação de todos os intervenientes no processo educativo, mas também é
verdade que, desde então, já muita água passou debaixo das pontes e nada de
significativo foi alterado.
Se o velho paradigma for mantido, a
autonomia não passará de um regime de liberdade condicional, eventualmente
adornado com um adereço modernista tipo pulseira eletrónica, com controlo
remoto, para que os serviços do Ministério da Educação, esse Big Brother que
tudo prevê e sanciona, possam em cada momento assegurar a conformidade da
liberdade autonómica ao normativo que a decreta.
A questão da autonomia dos
estabelecimentos de ensino, tal como prevista na lei, resulta de uma relação
vertical direta ME-escolas, o que parece constituir um enorme equívoco por
manter a centralização da direção do sistema de administração escolar e
implicar um reforço da função controlo.
A verdadeira autonomia do sistema só
será alcançada com um novo paradigma que assente na redução drástica das
competências do ME, reconfigurado para o exercício do planeamento, da inspeção
e, eventualmente, da avaliação do sistema, e com um crescente protagonismo das
autarquias locais.
A autonomia das escolas só faz
sentido se articulada horizontalmente com os atores das comunidades,
designadamente com os seus representantes políticos, dotados de legitimidade
democrática própria. O que verdadeiramente está em causa é a confrontação entre
o modelo histórico dominante da centralização ou a opção pela territorialização
autárquica.
O que se tem passado com a
transferência de competências para as autarquias em matéria de educação e
ensino, não tem implicado qualquer parcela de soberania do ME, e suspeita-se
que no futuro próximo não vá ser diferente.
Tanto assim é, que as autarquias
estão, formalmente e no que respeita à sua intervenção na gestão do sistema
educativo e das escolas, ao nível das associações de pais e de outras
organizações não-governamentais (ONG) locais, mau grado o seu destacado
estatuto político, que não foi considerado de forma especial na Lei de Bases,
quase omissa quanto ao papel das autarquias na administração escolar.
Pese embora o envolvimento crescente
dos municípios na discussão das questões da educação, sobretudo através da
respetiva Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP), está-se muito
longe de os poder considerar como verdadeiros parceiros na definição da
política educativa ou de lhes estar cometida uma intervenção decisiva na gestão
do sistema, apesar da importância que lhes é reconhecida.
Para a situação presente concorrem
múltiplos fatores de que se destacam a tradicional e histórica centralização
administrativa típica do país e a experiência relativamente recente da
organização autárquica. A desconfiança sobre a capacidade das autarquias para
assumirem responsabilidades acrescidas em matéria de administração e gestão
escolar é outro fator que sempre é invocado quando se aborda a questão.
E situa-se aqui o nó górdio da
questão. O que verdadeiramente está em causa é encontrar um modelo de gestão
eficiente e eficaz do sistema educativo que compatibilize melhor do que atualmente
a unidade organizacional de gestão com os fins últimos do desempenho do
sistema.
É por isso que importa tanto
encontrar as formas organizativas que melhor respondam à relevância do que está
em jogo, designadamente, tornando a administração do sistema educativo, em
geral, e das escolas em particular, mais simplificada, mais eficiente, mais
eficaz.
Tradicionalmente a unidade de gestão
foi a escola. Em tempos recentes foram criados os “agrupamentos de escolas”, o
que significou um passo muito positivo do ponto de vista da modernização da
administração, o movimento atual é no sentido de promover aglutinações de
escola/agrupamentos, as mais das vezes sem qualquer critério razoável que não
seja reduzir custos,
É pois urgente pôr em marcha uma
verdadeira revolução na administração do sistema de ensino e no governo das
escolas, fazer um corte com o passado ao encontro de escolas da comunidade,
organizadas territorialmente, administradas e geridas por coletivos
representativos das forças locais/regionais.
O Ministério preservaria
as funções de planeamento estratégico, de conceção curricular, de avaliação
referencial, exames nacionais, de inspeção e outras que se verificasse
aconselhável, passando as competências de direção e administração dos
estabelecimentos de ensino para conselhos locais/regionais de gestão escolar,
integrados por profissionais de reconhecido mérito académico e competência
profissional, eleitos ou designados por um colégio representativo das
comunidades respetivas e onde as autarquias desempenhariam um papel essencial.
A função de avaliação da qualidade do sistema escolar passaria a ser da
competência de uma agência nacional para a qualidade, à semelhança do ensino
superior.
Como se compreende, esta
proposta é, como não podia deixar de ser genérica, e apenas pretende enunciar
alguns princípios organizacionais básicos a que só um aturado trabalho coletivo
de reflexão e concretização poderá conferir uma arquitetura definitiva.
De acordo com os considerandos, por tudo o que aqui afirmo, e aproveitando
as expectativas decorrentes do processo de instalação da CIMRL, proponho que
seja criado um grupo de trabalho no âmbito desta assembleia com o objetivo de
refletir sobre esta temática e a seu tempo apresentar um documento síntese que
possa servir de base a uma discussão alargada sobre a organização escolar não
superior na área territorial da CIMRL.
(Proposta apresentada na 1.ª reunião da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, em 3/01/2014)
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Um país sem gente
Acabamos de comemorar o Natal, uma festa essencialmente da família, onde o centro das atenções são as crianças, se celebra o início de uma nova vida que traz a renovação dos tempos e se sublinha o simbolismo de que se reveste um nascimento, facto que é transversal a todas as culturas e civilizações e que tem acompanhado a evolução das sociedades humanas em todas as geografias.
Mas existe hoje um fenómeno novo que está a mudar as relações sociais e ameaça produzir consequências irreparáveis nalgumas sociedades, a diminuição drástica dos nascimentos, com a taxa de natalidade a atingir patamares insuficientes para assegurar a reposição das gerações.
Pela primeira vez na história, a melhoria das condições de vida está a fazer diminuir a população e a pôr em causa equilíbrios familiares, sociais e políticos. Portugal ocupa um dos primeiros lugares neste ranking do desespero e, pelo menos aparentemente, caminhamos para o abismo sem que estejamos a fazer verdadeiramente algo importante para o evitar.
No meio da crise em que mergulhámos e das preocupações legítimas com a sobrevivência, parece não se ter consciência de que o principal problema do país não é equilibrar o défice das contas públicas, dinamizar a economia ou pagar aos credores, o maior problema com que o país está confrontado é inverter a espiral de decréscimo da natalidade sob pena de nos transformarmos num país sem gente.
É sabido que as pessoas são o sangue que alimenta as comunidades, as regiões, os países. Onde não há gente, não há desenvolvimento, não há vida económica, não há futuro. É ver o que já ocorre hoje nalgumas regiões do país, onde a tristeza de ver o recuo civilizacional só é superada pela preocupação relativa a um futuro sem esperança, de onde todos as pessoas fogem, todos os serviços desaparecem, toda a atividade económica estiola. É o retrato anunciado do Portugal do futuro se nada for feito para inverter esta tendência assassina.
É urgente que o país se mobilize, que todos os portugueses conscientes de que o futuro está em causa se empenhem numa ação urgente que conduza à adoção de medidas ativas de apoio à natalidade, e de suporte à educação das crianças e jovens. Esta questão não pode ser encarada apenas como pessoal, trata-se de um gravíssimo problema social e político que requer medidas de exceção e para cuja resolução todos se devem sentir convocados.
José Manuel Silva
Crónica publicada no jornal Região de Leiria (14-01-02) no âmbito da colaboração iniciada na coluna Passageiro do Tempo.
Acabamos de comemorar o Natal, uma festa essencialmente da família, onde o centro das atenções são as crianças, se celebra o início de uma nova vida que traz a renovação dos tempos e se sublinha o simbolismo de que se reveste um nascimento, facto que é transversal a todas as culturas e civilizações e que tem acompanhado a evolução das sociedades humanas em todas as geografias.
Mas existe hoje um fenómeno novo que está a mudar as relações sociais e ameaça produzir consequências irreparáveis nalgumas sociedades, a diminuição drástica dos nascimentos, com a taxa de natalidade a atingir patamares insuficientes para assegurar a reposição das gerações.
Pela primeira vez na história, a melhoria das condições de vida está a fazer diminuir a população e a pôr em causa equilíbrios familiares, sociais e políticos. Portugal ocupa um dos primeiros lugares neste ranking do desespero e, pelo menos aparentemente, caminhamos para o abismo sem que estejamos a fazer verdadeiramente algo importante para o evitar.
No meio da crise em que mergulhámos e das preocupações legítimas com a sobrevivência, parece não se ter consciência de que o principal problema do país não é equilibrar o défice das contas públicas, dinamizar a economia ou pagar aos credores, o maior problema com que o país está confrontado é inverter a espiral de decréscimo da natalidade sob pena de nos transformarmos num país sem gente.
É sabido que as pessoas são o sangue que alimenta as comunidades, as regiões, os países. Onde não há gente, não há desenvolvimento, não há vida económica, não há futuro. É ver o que já ocorre hoje nalgumas regiões do país, onde a tristeza de ver o recuo civilizacional só é superada pela preocupação relativa a um futuro sem esperança, de onde todos as pessoas fogem, todos os serviços desaparecem, toda a atividade económica estiola. É o retrato anunciado do Portugal do futuro se nada for feito para inverter esta tendência assassina.
É urgente que o país se mobilize, que todos os portugueses conscientes de que o futuro está em causa se empenhem numa ação urgente que conduza à adoção de medidas ativas de apoio à natalidade, e de suporte à educação das crianças e jovens. Esta questão não pode ser encarada apenas como pessoal, trata-se de um gravíssimo problema social e político que requer medidas de exceção e para cuja resolução todos se devem sentir convocados.
José Manuel Silva
Crónica publicada no jornal Região de Leiria (14-01-02) no âmbito da colaboração iniciada na coluna Passageiro do Tempo.

domingo, 3 de novembro de 2013
Guião para a reforma do estado
Finalmente foi conhecido o guião para a reforma do Estado. A primeira curiosidade foi o guião ter sido apresentado pelo Vice Primeiro Ministro e não pelo Primeiro Ministro como seria natural em matéria de tanta importância política. Mas enfim, como diria o Prof. António Salazar, "em política o que parece, é", e cada um que interprete este jogo de sombras entre PSD e CDS.
Quanto à matéria substancial, há muito para refletir, discutir e, sobretudo, decidir quando houver condições políticas e de contexto que permitam ir avançando, sendo certo que uma reforma do estado não se faz de supetão e é tarefa demorada.
As reações dos restantes partidos têm sido as previsíveis, rejeição total ou muito próxima disso, como se a situação do país fosse resolúvel apenas com rejeição e não com aproximação e busca de consensos em matérias que ultrapassam em muito a atual conjuntura.
O problema fundamental que se coloca ao atual governo e a todos que surgirem no próximo futuro é assegurar a sustentabilidade do Estado. Independentemente da conceção de Estado que se tenha, a questão é saber como financiá-lo. Para o cidadão menos dado às coisas da política esta discussão pode parecer não ter sentido já que a noção básica que muitos têm do Estado é a de uma entidade cuja capacidade para gerar recursos não tem limite.
Infelizmente não é verdade, como nos últimos anos os portugueses bem têm sentido na pele e na carteira. Para além das questões de princípio sobre a organização do Estado, os portugueses têm de decidir quanto estão dispostos a pagar por ele, ou seja, pelos serviços que este lhe presta seja na saúde, na educação, na segurança, na justiça e por aí adiante.
Com mais ou menos demagogia à volta da discussão sobre o futuro do Estado, a realidade é que chegámos a uma situação que não permite ilusões, ou continuamos esmagados com dívida externa e com impostos ou encontramos forma de aligeirar a estrutura do Estado, concessionar serviços a privados, privatizar atividades e serviços, e conseguir que os que se mantém na órbita estatal funcionem de forma mais barata e eficiente.
Face ao guião, a única atitude que parece inteligente e construtiva do ponto de vista dos interesses dos portugueses em geral é discuti-lo, por mais discordâncias que ele suscite. Rejeitá-lo sem mais pode servir interesses partidários e alimentar o ego de clientelas políticas mas não terá qualquer efeito prático, nem creio que sirva os interesses do país.
Quanto à matéria substancial, há muito para refletir, discutir e, sobretudo, decidir quando houver condições políticas e de contexto que permitam ir avançando, sendo certo que uma reforma do estado não se faz de supetão e é tarefa demorada.
As reações dos restantes partidos têm sido as previsíveis, rejeição total ou muito próxima disso, como se a situação do país fosse resolúvel apenas com rejeição e não com aproximação e busca de consensos em matérias que ultrapassam em muito a atual conjuntura.
O problema fundamental que se coloca ao atual governo e a todos que surgirem no próximo futuro é assegurar a sustentabilidade do Estado. Independentemente da conceção de Estado que se tenha, a questão é saber como financiá-lo. Para o cidadão menos dado às coisas da política esta discussão pode parecer não ter sentido já que a noção básica que muitos têm do Estado é a de uma entidade cuja capacidade para gerar recursos não tem limite.
Infelizmente não é verdade, como nos últimos anos os portugueses bem têm sentido na pele e na carteira. Para além das questões de princípio sobre a organização do Estado, os portugueses têm de decidir quanto estão dispostos a pagar por ele, ou seja, pelos serviços que este lhe presta seja na saúde, na educação, na segurança, na justiça e por aí adiante.
Com mais ou menos demagogia à volta da discussão sobre o futuro do Estado, a realidade é que chegámos a uma situação que não permite ilusões, ou continuamos esmagados com dívida externa e com impostos ou encontramos forma de aligeirar a estrutura do Estado, concessionar serviços a privados, privatizar atividades e serviços, e conseguir que os que se mantém na órbita estatal funcionem de forma mais barata e eficiente.
Face ao guião, a única atitude que parece inteligente e construtiva do ponto de vista dos interesses dos portugueses em geral é discuti-lo, por mais discordâncias que ele suscite. Rejeitá-lo sem mais pode servir interesses partidários e alimentar o ego de clientelas políticas mas não terá qualquer efeito prático, nem creio que sirva os interesses do país.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Discurso de tomada de posse Assembleia Municipal LEIRIA
Sr. Presidente da Câmara Municipal de
Leiria
Sres e sras presidentes de juntas e
uniões de freguesias e nas vossas pessoas a todos os eleitos do conjunto das
freguesias do concelho
Sres e sras vereadores e vereadoras
Entidades presentes
Minhas senhoras e meus senhores
As minhas felicitações aos que
mereceram a confiança dos eleitores e que agora integram os vários órgãos
autárquicos. A todos desejo os maiores sucessos e felicidades no desempenho dos
cargos. A população confiou-nos uma grande responsabilidade e agora cabe-nos
não defraudar as expectativas e tudo fazer para contribuir para o
desenvolvimento sustentado do concelho e para a melhoria da qualidade de vida
dos cidadãos.
Permitam que me dirija de forma muito
particular aos nossos concidadãos que aqui não vieram, que talvez até nem
tenham votado, que possivelmente não tenham por nós grande consideração e que
se refiram de forma pouco abonatória aos políticos em geral e a nós em
especial. São esses cidadãos desiludidos com a política e, quiçá, com o país,
que nos colocam o maior desafio, o de sermos capazes de os fazer reconciliar-se
com a cidadania ativa e de os motivarmos para uma participação construtiva na
vida do concelho e do país.
É por esta razão que vos convido a definir
como prioridade estratégica para este mandato, para além das nossas estritas
obrigações legais, a de trabalharmos em prol de uma Assembleia Municipal
próxima dos cidadãos, capaz de demonstrar a sua importância, afirmando-se como
uma verdadeira casa da democracia local, da tolerância, da formação cívica e da
defesa dos interesses das populações.
Foi com o pensamento neste desígnio
que tomei a iniciativa de desenvolver esforços no sentido de encontrarmos uma
solução para a mesa da Assembleia que traduzisse este espírito de compromisso e
de cooperação num trabalho que excede largamente os mais estritos objetivos
partidários. Sempre defendi que as mesas das assembleias municipais devem ser
mais do que uma expressão de força do partido mais votado.
O meu partido mostrou toda a abertura
e mandatou-me para fazer as diligências que entendesse e pudessem viabilizar
uma solução mais abrangente incluindo na mesa um deputado ou deputada eleito
pelo PSD. Cheguei a pensar numa personalidade que pela sua juventude e formação
pudesse ser um sinal para todos os jovens alheados da política, uma forma de
nos afirmarmos numa pluralidade saudável que sem pôr de lado as nossas matrizes
ideológicas e partidárias sublinhasse a importância do que nos une e a força da
portugalidade em que todos nos revemos.
Infelizmente o PSD entendeu não
contribuir para esta solução. Respeito a decisão, como não poderia deixar de
fazer, mas espero que os tempos me deem razão e que todos percebam que nesta
Assembleia a cooperação tem de estar acima da divisão, o encontro acima do
confronto, a verdade acima da demagogia.
Neste momento em que novos mandatos
se iniciam e inspirando-me na figura tutelar da democracia portuguesa e
fundador do Partido Socialista, Mário Soares, tomo a liberdade de invocar a
ideia da magistratura de influência, que ele tão bem protagoniza, para deixar
duas notas de preocupação que devem merecer a conjugação de esforços de todos
nós no sentido de encontrar as melhores soluções para dois problemas candentes
do concelho.
O primeiro é a urgência de se
encontrar uma solução para o Estádio Magalhães Pessoa. Ninguém pode aceitar a
inevitabilidade de se continuarem a pagar cerca de 25000 euros diários para
alimentar a dívida daquele recinto desportivo e a sua manutenção. Trata-se de
uma iniquidade, de uma ofensa a todos os cidadãos que veem os seus rendimentos
cortados, as suas regalias diminuídas, os seus direitos cerceados, ao mesmo
tempo que os parcos recursos da Câmara, que o mesmo é dizer de todos nós, vão
para uma obra inacabada, para um elefante branco, para solver compromissos sem
sentido social.
Muito se tem discutido este assunto,
muita tinta tem corrido sobre a matéria, muita demagogia tem campeado na
comunicação social e nas arenas políticas, mas soluções, nenhuma.
É tempo de percebermos que este
assunto não tem resolução local nem nacional e que é de tal gravidade e
complexidade técnico-financeira que só pode ser tratado ao mais alto nível e no
contexto de empresas e investidores internacionais que estão muito para lá do que
é habitual nas transações habituais de uma câmara municipal.
Deixo, pois, a sugestão de se encarar
a possibilidade de se recorrer à figura de um concurso internacional, apoiado
por consultores experientes neste tipo de operações e que possa transferir para
um patamar diferente a solução para o principal foco de instabilidade
financeira da Câmara Municipal de Leiria.
O segundo problema é ainda mais
complexo do ponto de vista ideológico e do extremar de posições a que tem dado
lugar. Trata-se da concessão da gestão das redes em baixa de água e saneamento.
Independentemente das posições de cada um, é necessário que o assunto seja
esclarecido com toda a transparência, que todos os cidadãos percebam o que está
em jogo e que não se dê margem para que a demagogia desenfreada nos distraia do
essencial que é tão só assegurar a estabilidade da gestão e exploração da
distribuição da água que todos consumimos e da rede de saneamento que todos
utilizamos.
É certo que a água é um bem público
de primeira necessidade, mas não é menos verdade que não chega às torneiras a
custo zero, que a captação, tratamento e distribuição é onerosa e que o preço
pago pelo metro cúbico nem sempre cobre as despesas inerentes.
O que está em causa não é, nem nunca
foi, a privatização da água e do saneamento, mas apenas a concessão de toda a
operação por razões que se prendem com a sustentabilidade do sistema e a
presumível incapacidade financeira da Câmara para fazer face às necessidades de
requalificação e modernização da rede.
Deixo aqui o repto aos deputados e
deputadas para que se preparem o melhor possível para o debate inevitável sobre
esta matéria e convido todos a terem presentes as posições nacionais dos seus
partidos nesta questão, sendo certo que não é credível que se tenha uma posição
desfavorável face à concessão no nosso concelho quando se defende o contrário
em termos de política governamental. Por muito importante que esta matéria seja
não parece poder argumentar-se que se trata de um problema de consciência
individual.
Se estes dois problemas são os que
estimo serem mais fraturantes no contexto em que nos moveremos nos próximos
anos, também quero assinalar dois outros que me parecem estratégicos para
catapultar Leiria para um patamar de desenvolvimento a que todos aspiramos e
que tem de ser encarado no quadro das sociedades mais evoluídas do século XXI,
em tempos de globalização quase total do planeta, com todos os problemas e
desafios que esta revolução silenciosa tem vindo a desencadear.
A aposta na capacidade das empresas
como escopo de uma política de desenvolvimento local e de alavancagem da
economia, das exportações, do emprego e da fixação de novos residentes carece,
nos tempos que correm, do apoio de polos de tecnologia, inovação e ciência sob
pena de se perder capacidade produtiva, concorrencialidade e capacidade de
inovar.
É neste quadro que me parece
relevante que a Câmara aprofunde as ligações ao Instituto Politécnico de
Leiria, um indiscutível parceiro para o desenvolvimento, dotado de massa
crítica, de capacidade tecnológica, científica e de metodologias inovadoras,
indispensáveis à sustentabilidade de uma política de reforço da capacidade
produtiva das empresas da região, que concorrem no mercado global e que
influenciam decisivamente o futuro do concelho.
Não se trata de dar continuidade
apenas a formas de colaboração ou de cooperação mas de criar uma verdadeira joint venture para o desenvolvimento que
potencie o concelho e os seus fatores críticos de desenvolvimento.
Nesta linha de potenciar os nossos
recursos, assinalo uma outra área, internacionalmente em expansão acelerada mas
ainda muito timidamente referenciada em Portugal; refiro-me ao turismo de
saúde, também designado por turismo cirúrgico.
Leiria tem três bons hospitais – O
Santo André, que é estatal, o D. Manuel de Aguiar, que é da Misericórdia de
Leiria, e o S. Francisco, que é privado.
Todos eles prestam serviços
relevantes, estão bem equipados e podem ser complementares nalgumas áreas.
Todos eles podem prestar serviços em várias especialidades a cidadãos de outros
países que atraídos por serviços de qualidade, a preços interessantes, escolham
Leiria para tratamentos clínicos especializados.
Acresce que Leiria tem uma rede
hoteleira subaproveitada, muito sazonalizada em termos de ocupação, refiro-me à
capacidade hoteleira de Monte Real, mas com potencial para, modernizada e
gerida de outra forma, prestar serviços de retaguarda hospitalar,
complementados com spa e outros tratamentos hoje vulgarizados e cujo limite é a
imaginação de quem os programa e de quem os procura.
Existe ainda uma proximidade ao
santuário mariano de Fátima, marca reconhecida internacionalmente e que atrai
milhões de peregrinos, que pode constituir um elemento adicional de valorização
deste projeto se forem conseguidas as articulações desejáveis e considerada a
vantagem adicional de se dispor de um parque hoteleiro diversificado e moderno
ali existente.
Dirão alguns que estou a sonhar alto.
Direi que apenas olho para o mundo e vejo o que se passa. Sonhar, acreditar,
são os primeiros passos para alcançar objetivos. O nosso futuro está nas nossas
mãos e compete-nos não falhar. O desenvolvimento de Leiria exige arrojo, ideias
novas, capacidade de concretização e, estou certo, o presidente Raúl Castro, o
executivo camarário e a Assembleia Municipal possuem todas as condições para
levar a bom porto o ambicioso programa sufragado maioritariamente pelos
leirienses.
Sres deputados e sras deputadas
Meus sres e minhas sras
Cumpre-se hoje o primeiro dia do
nosso mandato, é o tempo de acreditar que tudo é possível, e eu acredito que
vamos mudar a forma de estar e de fazer política na Assembleia Municipal.
Todos podemos e devemos trabalhar no
sentido de aproximar a Assembleia dos Cidadãos e por isso não me limitei a
palavras de circunstância e quis deixar claro que usarei os poderes que os
eleitores me conferiram e que vossas excelências sufragaram para afirmar a
importância da nossa missão coletiva e o dever de pensarmos fundadamente nos
assuntos do concelho por respeito aos nossos concidadãos e a nós próprios.
E porque a dignidade dos órgãos não
dispensa o seu funcionamento em condições adequadas, a Assembleia Municipal
necessita de um novo espaço com as condições indispensáveis ao trabalho dos
deputados e dos colaboradores que apoiam as reuniões, dos jornalistas que fazem
a cobertura e do público que a elas quer assistir. Empenhar-me-ei, por isso, em
conseguir melhorar as condições de instalação da Assembleia, sem prejuízo de
mantermos a rotatividade periódica nas freguesias, dotando a Assembleia
Municipal de um espaço digno e funcional próprio do século em que vivemos.
Desejo que todos e cada um de nós
sinta a responsabilidade de que estamos incumbidos, a honra que nos concederam
de representarmos a população do concelho de Leiria e a necessidade de
elevarmos o nível técnico e político das nossas intervenções, transformando os
debates em momentos de aprendizagem e de esclarecimento que motivem os cidadãos
para a participação cívica e política.
O alheamento e a abstenção
combatem-se no dia-a-dia, não apenas nas campanhas eleitorais. Nós temos a
enorme responsabilidade de sermos líderes de opinião e de não podermos
defraudar a confiança que em nós depositaram os eleitores.
O futuro julgará a nossa ação mas tenho
a certeza que, em conjunto, vamos fazer mais e melhor por Leiria. Afinal, somos
todos gente de confiança!
José Manuel Silva
13-10-12
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